08 de julho de 2026

Minas Gerais X Alagoas


| Tempo de leitura: 4 min

Não, não há guerra entre Estados do Brasil, mas é quase isso. O cruzamento entre Alagoas, avenida, e Minas Gerais, rua, é um campo de batalha. E há outros...

O trânsito da avenida Alagoas para quando cruza com a rua Minas Gerais, que é via preferencial. Na pista dupla da avenida Alagoas que para, estão motoristas que vão em direção à Caixa d’Água da avenida Brasil ou vão se utilizar da Minas Gerais para ir ao centro da cidade. Tem também, ali, os motoristas que descem em direção à avenida Hélio Palermo, ou pretendem virar, para pegar a Minas Gerais.

É neste ‘virar’, ‘cortar a rua preferencial’, que está o foco da questão. Se não há veículos transitando pela Minas Gerais, a preferência de passagem para quem aguarda na avenida Alagoas é de quem sobe na direção da Caixa (ou vai pegar a Minas Gerais) e de quem desce, na direção da Hélio Palermo.

A ‘última’ preferência (aquela que não pode ser praticada sem rigorosa atenção - e é aqui que nossos motoristas ruins não deixam dúvidas de que são, realmente, ruins) é a de quem pretende ‘cortar o cruzamento’ para ‘pegar’ a Minas Gerais. Deveria, então, esperar quem está ‘subindo’ a avenida, completar seu deslocamento!

Deveria, mas não é assim. ‘Corta-se’ o cruzamento sem qualquer vergonha! Motoristas de ônibus da São José fazem isso muitas vezes por dia incentivados pelo conceito ‘quem é maior, avança, e f... os outros’. Motociclistas e motoristas de carro fazem o mesmo, gerando grande possibilidade de acidentes.

Se você, que ‘sobe’ em direção à Caixa d’Água, reclama por que alguém cortou o cruzamento e ‘apareceu’ na sua frente, sujeita-se a ser xingado. Se resolve ‘enfrentar’, adiantando seu carro para garantir sua ‘preferência’, arrisca-se a bater, e sabe-se lá a mais o quê...

Resolvi falar sobre isso hoje (mesmo correndo o risco de alguns leitores dizerem que tem coisas mais importantes a serem tratadas) porque o cenário se repete em incontáveis cruzamentos da cidade. Há dezenas de acidentes que comprovam. E não há fiscalização, o que torna insanável o problema. Para tomar providências, seria preciso achar testemunhas, fazer boletim de ocorrência, multar e fazer o infrator assinar a multa. A fiscalização alega que não tem efetivo. Neste tempo em que a rua Minas Gerais se consolida como um dos principais corredores de trânsito em direção ao Centro, o problema se avoluma.

A Sociologia explica. Folkways (padrões não impostos mas aceitos pela sociedade) podem se tornar mores (normas, regras essenciais e de uso obrigatório) em função de continuada prática social. Em Franca, trânsito desrespeitoso e perigoso (folckways) torna-se more porque as pessoas entendem ser possível fraudar pela ausência de fiscalização, e agregam a seus valores. O pior de tudo é que tem lei que admite e oficializa essas inconsequências. É a Lei de Gerson, aquela...

‘PARECIDO’, DO SUPERMERCADO
Esta semana, Aparecido Maldonado Ponce, amigo de décadas, fez aniversário. Parece que os anos não passam para ele. É só cronologia. Fisicamente ainda é o moço que, da mercearia da esquina da rua Afonso Pena com avenida Presidente Vargas, plantou negócio referencial no qual inaugurou o conceito ‘onde se acha de tudo a qualquer hora do dia e da maior parte da noite’. Cumprimento-o por sua vida dedicada ao trabalho sem, quase nunca, se afastar da empresa. Aliás, quase nunca. Dia destes, contou-me que viajou. Perguntei-lhe para onde, e ele, ‘Pra Espanha’. Surpreendi-me. ‘Prá Espanha?!’. Não deixou por menos: ‘sim, praes panha de café’.

DE NOVO, ‘COISAS SIMPLES’
Ainda, anotações de leitores que leram ‘Coisas Simples’ e ‘Coisas simples, 2’, colunas que publiquei neste Comércio dias 19 e 26 deste mês, e, nas quais desafiei ao uso de ‘espaço em branco’ que inseri nos textos, contando sobre ‘coisas simples que fazia a gente feliz e hoje, nem lembrança...’. Carlos Donizeti Rodrigues ligou. Batemos bom papo sobre idealistas, gente que sonha em melhorar o mundo apesar dos que são contra. ‘Somos uma raça em extinção, vivemos muito sós.’ Terminou dizendo que gostaria de ‘reunir gente assim, capaz fabricar diferença para melhor, neste mundo’. Concordo.

E MAIS ‘COISAS SIMPLES’
Maria Cecília Del Bianco também se manifestou. Disse que ‘deixamos de colocar cadeiras na calçada para conversar com vizinhos, sentir a brisa e namorar a lua’ (mas lembrou que, com a violência, pode-se ir para ‘o quintal’); ‘brincar na chuva, colocar os pés, descalços, no chão; respeitar velórios e não fazê-los encontros sociais, desligar o celular no cinema, na igreja, na aula; respeitar as leis de silêncio, jogar lixo no lixo, não ter vergonha de chorar e admitir que está triste’. Viu quantas coisas um simples exercício de memória nos faz recordar? E tudo isso faz falta.

FOLKWAYS E MORES
‘Folkways - Padrões não obrigatórios de comportamento social exterior, que constituem os modos coletivos de conduta, convencionais ou espontâneos, reconhecidos e aceites pela sociedade; regem a maior parte da vida quotidiana, mas não são impostos. Mores - Padrões obrigatórios de comportamento social exterior que constituem os modos coletivos de conduta, tidos como desejáveis pelo grupo, apesar de restringirem e limitarem o comportamento. São moralmente impostos e considerados essenciais ao bem-estar do grupo. Quando se infringe um more, há desaprovação moral e até sanção vigorosa.’

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br