Esqueça o que lhe ensinaram sobre carnaval
A origem da festa é grega – meados dos anos 600 ou 520 a.C., realizada em agradecimento aos deuses pela fertilidade e produção da terra. Quase mil anos depois: 590 d.C., na Idade Média, adotada pela Igreja Católica, se transforma em período de festas regidas pelo ano lunar no cristianismo. Gregos e romanos brincavam o carnaval a seu modo e a grande marca da festa era o ‘adeus à carne’ - ‘carne vale’, em latim, expressão que veio a se transformar em ‘carnaval’. (Quem diria!). Assim, que não se pense mais que é invenção brasileira. Naquela época cada cidade brincava a seu modo, de acordo com seus costumes, aliás, a única semelhança entre as manifestações de antanho e as modernas. No Brasil, em se tratando de propósitos, as comemorações diferem: sul, sudeste e norte são exemplos disso. No mundo, então... Em Veneza, usam máscaras; em New Orleans, bandas de jazz; em Londres é até em outra data e em Paris, uma lástima.
Outra grande diferença entre o carnaval de priscas eras e o moderno: carnaval não é mais festa popular. Se antigamente era folguedo do qual todos participavam, hoje o foco é para as grandes concentrações de público nos camarotes vips; nas festas particulares de celebridades - regadas a champagne e whisky e no beautiful people. Churrasquinho na laje, carnaval no morro e na periferia, desfiles de blocos nas ruas ... isso não sai no jornal. Nem no Jornal Nacional. Samba? Marchas-ranchos? Foi o tempo. Artistas de hoje cantam músicas que passam longe da jardineira, do pirata da perna de pau e abrem alas apenas o desfile de mulheres e homens semi-nus - honra seja feita, cada um mais bonito que o outro - em apresentações distantes do antigo propósito de diversão que os carnavais intencionavam.
Vai ver, eu não acompanhei a evolução da filosofia do carnaval. Porém, lendo e ouvindo notícias, já soube da movimentação para pôr mais policiais nas ruas e estradas; mais ambulâncias de prontidão para socorrer os que se excederem; da menor tolerância para com os bêbados que insistirem em dirigir seus carros; da distribuição de preservativos para evitar gravidez indesejada e promover sexo seguro. Não há nada que garanta a alegria popular que poderia vir, por exemplo, da notícia da redução de impostos; da prisão de políticos corruptos; da distribuição idêntica de recursos extras para a educação, saúde e desfiles de escola de samba.
Se as netas vierem dormir em casa nos dias de carnaval, vou lhes contar como eram os carnavais antigos. Que as pessoas se preparavam muito antes para o folguedo fosse confeccionando as fantasias, fosse organizando as das turmas dos blocos. Compravam confete e serpentina para usar a rodo e caixas de lança-perfumes da Rhodia, que vinham em embalagens douradas. Iam em grupos para os salões, a pé, sem risco de assaltos e às vezes faziam hora para os bailes sentados nas praças e bares do centro das cidades, sem medo de violência. Que pouco se bebia: era alegria genuína. Bem, mas isso foi no tempo em que genuíno era sinônimo de autêntico, legítimo e puro.
DOR
‘Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra. Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria. A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. Por isso não perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti.’ (John Donne). O Brasil se uniu para chorar a morte dos jovens de Santa Maria.
MODA
A avenida Paulo VI é caixinha de surpresas. Quando usada como pista para caminhadas, revela múltiplas e surpreendentes facetas. A variedade do comércio estabelecido ao longo das calçadas é grande: salões de cabeleireiros, restaurantes, pizzarias, show rooms, salões de festa, lojas. As casas residenciais se escondem atrás de cercas, as de comércio derrubam os muros e se transformam. Uma delas, em particular, se tornou um pedaço da Inglaterra em Franca. É visitar e cair de amores pelos produtos e pela proposta inovadora. Lugarzinho pop. E cult.
FILME
Para ver no carnaval: Terra do Nunca - A origem. Não confundir com o do John Deep, de título pouco mais longo. Este é com Rhys Ifans - o idiossincrático hóspede de Hugh Grant em Um lugar chamado Notting Hill - no papel de James Hook e Charles Rowe como Peter Pan. Roteiro e direção de Nick Willing - diretor de Alice. Participação de Raoul Trujillo e da voz de Keira Knightley para dublar Thinker Bell, ou Sininho.
ARROGÂNCIA
‘São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão’ e pra quem freqüenta clubes, boates, salões de festas – aniversários, casamentos, comemorações em geral. O Corpo de Bombeiros cobra e faz exigências consideradas descabidas e exageradas por proprietários, até que acontece a tragédia. Autoridades cobram cuidados que promotores reclamam ao cumprir, até que acontece a tragédia. Tão logo o esquecimento da tragédia acalma o medo e a angústia, descuido com regras, desprezo pelas leis e o sentimento de superioridade voltam a embasar nossas arrogantes atitudes.
VÍDEO
A música se chama Um peu plus haut, cantada por Ginette Reno. Os acrobatas são do Cirque Du Soleil. O título do vídeo é Mesmerising Dance from Duo Maintenant. É fascinante, maravilhoso e delicado. Momento de beleza e sensualidade. Veja em http://youtu.be/ETrFshvnk7c. Caso não consiga, tente o nome do vídeo diretamente no Youtube. Vale a pena.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br