Uma família mais unida e uma jovem que voltou a sorrir. Essa é a realidade atual de um drama que tinha tudo para ter acabado em tragédia. Em 2003, uma auxiliar administrativa de 37 anos, recém-separada, e sua filha, uma menina com então 6 anos de idade, passaram a morar de favor em uma casa na zona norte de Franca. Enquanto fazia supletivo e trabalhava em uma loja de departamentos, a mãe confiava sua única filha aos cuidados de sua irmã mais velha, que morava no mesmo terreno. Esta mulher era casada com um sapateiro de 53 anos. Como não podia ter filhos, o homem dispensava uma atenção especial às crianças e sempre que voltava da fábrica presenteava a sobrinha com doces e abraços.
Esse ambiente aparentemente saudável e o homem carinhoso deram lugar a um drama. Há duas semanas, a auxiliar administrativa - que pediu para ter sua identidade preservada - foi até a DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) para prestar queixa de estupro de vulnerável contra o sapateiro. “Eu desconfiava que alguma coisa muito grave tinha acontecido para ela [a filha] mudar tanto, mas nunca desconfiei que fosse uma pessoa tão próxima.”
Segundo a mãe, a filha - hoje com 15 anos - apresentava fortes sinais de depressão, chegando até a se autoflagelar. O comportamento estranho foi notado por uma coordenadora de uma escola, onde a adolescente estudava, e começou depois que a família voltou a morar em Franca. “Eu me casei de novo e fomos morar em Taubaté. Como sentia muita falta da minha mãe e da minha irmã, eu e meu marido resolvemos voltar para Franca e morar perto dos meus parentes.” A filha não concordou. “Ela chegou até a me agredir.” (Clique aqui e ouça o depoimento da mãe e da filha sobre o caso).
Preocupada, a auxiliar procurou acompanhamento médico para a filha e, depois de seis sessões de terapia, veio a explicação. “Eu custei para conseguir contar e quando ele [psiquiatra] conseguiu tirar de mim, ele avisou que se eu não contasse para minha mãe, ele mesmo teria que contar”, disse a jovem. A garota afirma ter sido molestada dos 6 aos 9 anos de idade, sempre na casa no tio. Os abusos, segundo ela, eram sempre por cima das roupas, para não chamar a atenção. “Tinha vez que corria para a casa da minha avó e me escondia lá.”
Intimado a depor, o sapateiro confirmou que em “apenas” uma oportunidade tocou na “pererequinha” da garota, mas negou ter mostrado o órgão sexual ou ter molestado outras sobrinhas, conforme foi acusado pela cunhada.
A mãe espera que seu gesto estimule outras famílias a se preocupar mais com seus filhos. “Eu peço que as mães fiquem de olho [nos parentes], porque está cada vez mais normal pessoas da própria família fazer isso com as nossas crianças”, desabafou.
INVESTIGAÇÃO
Apesar da confissão parcial do acusado, a delegada Graciela Ambrósio disse que aguarda novas provas para decidir se pede ou não a prisão temporária do sapateiro à Justiça. Segundo ela, em situações como esta, onde o crime aconteceu há muito tempo, as provas materiais não existem mais. “Temos de cercar o caso com cuidado para que possamos chegar à verdade”, disse a delegada.