O desafio está lançado. Principal contratação da Francana para disputa do Campeonato Paulista da Série A-3, o bem humorado atacante Aloísio José da Silva, ou simplesmente Aloísio Chulapa, que completa 38 anos hoje, espera escrever seu nome na história do clube em pleno centenário. Para “apimentar” ainda mais a competição, o atacante propôs uma aposta a um ex-xodó esmeraldino: o centroavante Piter - autor de 10 gols no estadual do ano passado. “Ouvi falar que é um grande jogador, mas que agora está do lado rival, no Sertãozinho. Quero propor uma aposta a ele para ver quem fará mais gols no campeonato. Quem perder terá que pagar cestas básicas para creches carentes de Franca ou de onde ele quiser.”
Aloísio foi poupado da estreia do clube neste domingo, contra o São Vicente, fora de casa. Mas, estará em campo pela segunda rodada, na próxima quarta-feira, dia 30, justamente contra o Sertãozinho, time de Piter, às 20 horas, no Estádio Lanchão.
Maior contratação da Francana nos últimos tempos, Aloísio espera fazer jus ao investimento do clube e promete honrar dentro de campo a camisa esmeraldina e até “comer grama”, se preciso, para levar o time de volta a Série A-2.
Aloísio Chulapa tem uma carreira vitoriosa no futebol, com inúmeros títulos e passagens por clubes do exterior. Mas o jogador lembra da dificuldade que passou na infância no município de Atalaia, em Alagoas, com a morte do pai, o vigia Luiz José da Silva. “A morte dele foi dura para mim. Para ajudar minha mãe [Maria das Graças da Silva] no sustento de casa, comecei a trabalhar muito novo, com 13 anos. A vida foi difícil, mas graças a Deus nem eu nem meus dois irmãos passamos fome.”
Mesmo trabalhando em uma usina de cana de açúcar, Aloísio não deixou de lado o futebol, sua paixão desde criança. Nos finais de semana, participava de campeonatos locais e ganhava ajuda de custo, como botijão de gás, dinheiro para a feira, entre outras coisas.
Despedido do serviço, Aloísio decidiu se arriscar no futebol e foi realizar um teste no CRB - time tradicional de Alagoas. Com 19 anos, foi aprovado. Na equipe teve passagem rápida, apenas três meses, antes de ser negociado com o Flamengo. “Um diretor na época do Flamengo ligou para um amigo do CRB pedindo iguarias do Estado, como carne seca e doces. Fui encarregado de levar essas comidas e fiz um teste nos juniores do Flamengo. Eles gostaram do meu futebol e fiquei por lá.”
Depois, passou pelo Guarani, Goiás (foi tricampeão goiano) e, em 1999, despertou o interesse do Saint-Étienne, da França. Dois anos depois, Chulapa foi ser companheiro de time de Ronaldinho Gaúcho, no Paris Saint-Germain. Em 2003, trocou a França pela fria Rússia para atuar pelo Rubin Kazan.
De volta ao Brasil, Aloísio acertou com o Atlético-PR. Brilhou naquela temporada e acabou atraindo o interesse do São Paulo, que o contratou a tempo de disputar o Mundial de Clubes da Fifa de 2005. No Tricolor Paulista alcançou o auge da carreira, sendo campeão mundial e tricampeão brasileiro.
Próximo do fim de carreira, Aloísio tem dois objetivos traçados. O primeiro é levar a Francana à Série A-2 deste ano. O segundo, encerrar sua profissão no próximo ano em casa, em Alagoas.
Comércio da Franca- Prestes a se aposentar, o que fez você mudar de ideia e aceitar o convite da Francana para disputar a Terceira Divisão do Paulista?
Aloísio - Aceitei esse desafio para mostrar a todos que, mesmo com 37 anos, estou em totais condições de jogar e ajudar o time. Fui muito bem recebido por todos e espero retribuir esse carinho com vitórias em campo.
Comércio - Pelo que você viu do grupo nos treinamentos, o time irá brigar pelo acesso?
Aloísio - Acho que todo time que disputa o campeonato tem que sonhar alto e almejar o acesso. Nosso objetivo é esse e estamos trabalhando para isso, para chegar entre os quatro melhores e entrar para história do clube, no ano do centenário, conquistando o acesso para segunda divisão do Paulista (A-2).
Comércio - Você chega ao clube com “status” de campeão mundial para ser o artilheiro. Promete marcar quantos gols na Série A-3?
Aloísio - Não costumo prometer gols não, mas é claro que com as oportunidades farei de tudo para mandar para as redes. Isso o torcedor pode cobrar de mim. Sei da responsabilidade que terei dentro e fora de campo para o time, mas juntos vamos levar o clube às vitórias para alcançar o nosso objetivo.
Comércio - A Francana teve nos últimos anos carência de gols. Piter foi o último atacante que passou aqui, marcou 10 gols e caiu nas graças do torcedor. Você espera superar essa marca?
Aloísio - Espero que sim. Várias pessoas elogiaram o Piter aqui. Não o conheço pessoalmente, mas gostaria de propor uma aposta a ele para ver quem vai fazer mais gols durante o campeonato. Agora ele está do outro lado, no Sertãozinho. Quero desafiá-lo e quem perder terá que pagar cestas básicas para creches da cidade, seja 10, 30 ou 50.
Comércio - Em entrevista coletiva, você disse que foi contratado por garotos. Que história é essa?
Aloísio - Recebi o convite e mantive contato com o Fernando Machado [assessor de imprensa]. Para mim ele era o presidente da Francana. Cheguei no aeroporto de Ribeirão Preto e fui recebido pelo doutor Leonardo Pelizaro [médico], de 27 anos. Em Franca, fui apresentado ao Fernando, um garoto de 25 anos [risos]. Nos outros clubes negociava com os presidentes. Estranhei. Mas está tudo certo, eles me passaram confiança e isso é o que importa.
Comércio - Você está perto de completar 40 anos. Quando pretende se aposentar?
Aloísio - No próximo ano, jogando pelo Sport Atalaia, time da minha cidade na disputa do Campeonato Alagoano. Espero realizar meu sonho de encerrar a carreira em casa, ficar perto dos meus familiares e amigos.
Comércio - O auge de sua carreira foi no São Paulo, onde ganhou três Brasileiros e um Mundial de Clubes. Qual era o segredo daquele time?
Aloísio - A união. Lá não tinha vaidades e ciúmes. Era um grupo em que cada um torcia pelo outro. Esse foi o segredo do time e por isso conquistamos todos esses títulos. Foi um período inesquecível e ficará para sempre na história
Comércio - Rogério Ceni é tratado como um mito pelos torcedores do clube. Na sua opinião, qual a importância dele para o São Paulo?
Aloísio - Costumo chamar ele de “patrão”. É um cara formidável, um amigo que fiz na época de clube e que tenho até hoje. É um verdadeiro líder dentro e fora de campo. No Mundial, ele motivou a gente demais. Na decisão contra o Liverpool, ele mostrou na concentração um jornal que dizia que o time inglês era imbatível, que estava 14 jogos sem perder e sem tomar gol. Isso mexeu com todos do time e foi muito importante. É uma pessoa incomparável.
Comércio - No Mundial, você foi decisivo no passe para o Mineiro fazer o gol tanto é que batizou o passe de “à la Ronaldinho Gaúcho”...
Aloísio - Rapaz, jamais consegui realizar um passe daquele em minha carreira, por cima da zaga e com precisão. Brinco que foi “à la Ronaldinho Gaúcho do Paraguai”...
Comércio - Em sua época no São Paulo houve uma polêmica enorme dos torcedores rivais e dos próprios sãopaulinos sobre a opção sexual de alguns atletas do clube, em especial do Richarlyson. Como o elenco lidou com essa questão extracampo?
Aloísio - Isso fica para os torcedores. Quem colocou o apelido [de Bambi] no São Paulo foi o Vampeta [ex-Corinthians], um cara gozador. Dentro de campo não afetou em nada esses insultos, tanto é que fomos campeões de tudo. O mais interessante nisso tudo foi a personalidade que Richarlyson teve. Isso não interferiu em seu rendimento em campo.
Comércio - O homossexualismo está mais presente no futebol hoje?
Aloísio - Acho que cada um tem que aceitar a pessoa que ela é, sem preconceito nenhum e com respeito. Nosso País, o torcedor tem que entender isso. O importante é a pessoa estar bem com ela mesma e feliz.
Comércio - Como foi um alagoano sair do País e jogar na Europa, começando pela França?
Aloísio - Estava aguardando uma chance para jogar fora do País e não tive problemas de adaptação, mas vivi várias histórias engraçadas. Uma delas ocorreu no primeiro dia lá na França, no hotel. O tradutor e intérprete não tinham chegado. Eu e o Alex Dias, outro jogador contratado pelo Saint Ettiene, e o irmão dele, Vaguinho, estávamos morrendo de fome. Vimos o garçom no restaurante e fomos pedir comida, sem saber falar nada de francês. Falávamos: arroz, feijão, carne, frango, e nada. Daí o Vaguinho perdeu a paciência e começou a imitar uma galinha no meio do restaurante. Todos nós caímos na gargalhada [risos], mas o garçom entendeu e trouxe frango...
Comércio - Você também jogou na Rússia. Ocorreu outro fato engraçado por lá?
Aloísio - [Aos risos] Sim, tem uma história boa de lá. Fui levado pelo presidente do Rubin Kazan para um hotel com um muro grande e branco. Na recepção, todos usavam uniformes brancos. Eu não entendia nada. Fui parar em um quarto simples, com cama pequena. À noite, ouvi gritos e batidas fortes na parede. No dia seguinte chamei o tradutor e disse: “Vai no quarto ao lado, porque parece que a coisa foi feia, deve ter saído até morte”. Ele me disse, então, para ficar tranquilo porque nós estávamos hospedados em um asilo de loucos e era assim mesmo. Respondi que louco ali era ele de me levar para lá. Queria vir embora na hora [risos]! Aí, me trocaram de “hotel”.
Comércio - Você nunca foi convocado para a seleção brasileira. Tem alguma mágoa por não ter vestido a camisa amarelinha?
Aloísio - Comecei tarde no futebol com 19 anos e não passei pelas categorias de base. Para chegar na seleção e ves-tir a camisa amarelinha, pelo menos, o jogador tem que ter passado pelas categorias de bases. Mas, não tenho mágoa, não. Afinal minha seleção brasileira foi o time do São Paulo...