‘A angústia de ter perdido, não supera a alegria de ter um dia possuído’ (Santo Agostinho).
Engravidamos, gestamos e pacienciosamente esperamos o nascimento de um filho. Criamos uma vida! Desde então, nos vemos embaladas pelo amor; amor louco, amor que só aumenta servindo de alicerce para suportarmos o passar do tempo, o desmame e a separação. Quem ama, deixa voar.
Depois fazemos planos, traçamos metas para que este filho cresça. Acolhemos as demandas que nos são feitas por este filho, criamos outras por nós mesmas, baseadas no melhor que pensamos em poder oferecer.
Dentre tantas escolhas e detalhes, vêm as melhores escolas para um futuro brilhante, as boas amizades para percorrer o caminho, a torcida do grande amor, para que possa acompanhá-lo onde estiver e assim por diante.
Temos sempre a intenção de criar raízes sólidas em nosso rebento; raízes que suportem tudo aquilo que a vida pode trazer. Esperançosas, sonhamos com uma árvore frondosa que dê bons frutos e nos encha de orgulho.
Buscamos sim a espiritualidade, mas quase sempre para cumprirmos um ritual e principalmente para que nos proteja de ‘ todo mal, amém’.
Porém, não somos donas do nosso destino e muito menos daquilo que cerca e aguarda nossa cria. A intenção pode ser boa, mas nunca será suficiente para brecar aquilo que deverá acontecer.... mesmo quando sabemos rezar. Ou seja, para todos nós viventes há um temor de uma palavrinha chamada morte, que quando aparece e se faz verbo, pode destruir como um furacão todos os nossos horizontes, escancarando toda a nossa fragilidade. Ela é soberana, não faz negociação.
Daí em diante, quando a morte bate à porta e leva-lhe um filho tão amado, é como se fizéssemos um parto ao contrário, onde o filho sai de você e entra para um mundo espiritual o qual, a princípio, não poderemos alcançar. Vivemos então o avesso de tudo aquilo que desejamos um dia.
Diante do caos, percebemos que somos demasiadamente humanas e por isso falhamos ao criar em nosso coração todos os planos carnais e não nos preparamos para o espiritual. Jamais admitimos que é possível devolver a Deus um empréstimo tão amado. Quando isso acontece, o caminho é espiritualizarmos. Não há alternativa que suporte essa realidade tão cruel. Aí nos vemos criando outros mundos e trazendo o céu para próximo do travesseiro.
Trocamos as raízes criadas na Terra por tudo aquilo que é efêmero; aprendemos a desdobrar para lugares inusitados a procura do ser que nos falta. A dor nos faz perceber a dimensão da nossa alma, a extensão do nosso amor. A fé nos permite criar incentivos para ainda assim, mutilados, percorrer com dignidade o caminho que falta.
E com isso tudo, nossa única chance de sermos restituídos de nossa cria é nos fazermos melhores como pessoa, aceitar o desafio e evoluirmos. Sabemos que o ‘ para sempre’ não existe mais. Nunca mais.
Creio que aceitar com resignação aquilo que nos foi confiado fará com que criemos raízes no céu, e de lá de cima, um dia, entenderemos os milhares de ‘ por quês’ que fizemos, olharemos para baixo sorrindo e concluiremos:
‘Vim, vivi, amei e venci! Daqui do alto, tudo faz sentido e por isso mesmo valeu a pena. Estou de volta ao Lar’.