A fronteira entre a loucura e a lucidez sempre foi muito imprecisa. Definir o que é normal ou anormal sempre variou muito, de acordo com a interpretação dada em cada um dos momentos históricos vivenciados.
Da mesma forma, os tratamentos também variaram com o tempo. Primeiro a indiferença e o abandono e depois as fogueiras da inquisição. Na época do Renascimento surgiram os asilos e hospitais, servindo praticamente como ‘depósitos’ para todos aqueles tidos como ‘inválidos socialmente’, não apenas os loucos, mas também os pobres, vagabundos e presidiários.
Porém, com o fortalecimento da democracia e dos direitos humanos em todo o planeta, nas últimas décadas do século XX iniciou-se um movimento mundial para reverter essa situação e acabar com os manicômios. E no Brasil não foi diferente. A partir dos anos 1980, muitos dos envolvidos nessas questões começaram a defender o fechamento de nossos hospitais psiquiátricos, o que começou a acontecer efetivamente a partir de 2001, quando foi aprovada a Lei 10.216.
O problema, porém, é que nada de mais efetivo foi colado no lugar desses hospitais. Havia propostas, evidentemente, mas ligadas ao SUS, que sabidamente funciona melhor como proposta do que na prática cotidiana. No fundo, o que se conseguiu foi apenas acabar com os leitos. A prometida qualidade no atendimento acabou se perdendo na insuficiência operacional do sistema, que apesar de ter melhorado em vários aspectos, não conseguiu dar conta de um tema tão delicado. E para piorar a situação, o estilo de vida moderno, com alto consumo de drogas e álcool, para além do estresse e das angústias cada vez mais constantes e intensas, contribuiu ainda mais para aumentar o número de doentes mentais, fazendo, inclusive, com que aumentasse a incidência de distúrbios entre crianças e jovens.
O que sobrou, portanto, foi um número cada vez mais alto de pessoas com problemas psiquiátricos e um número cada vez menor de leitos. No que diz respeito às crianças e jovens, a questão ficou ainda mais complicada, pois não é recomendável que eles sejam internados e tratados junto com adultos.
Nesse sentido, é muito bem-vinda a decisão judicial que obriga a Prefeitura de Franca e o governo do Estado a construírem um espaço para que menores de idade com problemas mentais ou viciados em drogas possam receber tratamento psiquiátrico adequado. Jovens e crianças com esses problemas não podem ficar sem tratamento específico em suas casas ou vagar pelas ruas, pois correm e oferecem muitos riscos.
Mesmo considerando válidos muitos dos argumentos da causa antimanicomial, às vezes é preciso saber recuar para poder avançar posteriormente, com mais experiência e conhecimento.