10 de julho de 2026

Crise: plano de governo em Itirapuã é adiado por dívidas de R$ 1,3 mi


| Tempo de leitura: 8 min
O prefeito de Itirapuã, Rui Gonçalves (PP), em corredor da Prefeitura, que está quase vazia; ele só nomeou quatro assessores e reduziu expediente

No fim da tarde da última quinta-feira, a Prefeitura de Itirapuã estava praticamente vazia. No corredor principal, apenas uma luz acesa e algumas vozes chamavam a atenção. Sentado em uma mesa simples, cercado por três assessores, o prefeito recém-empossado Rui Gonçalves (PP), 48, assinava o pagamento de 256 funcionários. Foi o primeiro respiro aliviado desde que assumiu a Prefeitura no dia 1º de janeiro. “Finalmente, vamos conseguir pagar alguma coisa para os servidores. Hoje devo dormir um pouco melhor”, disse.

Como diversos novos administradores, Rui enfrenta dificuldades. O município de pouco mais de seis mil habitantes acumula dívidas que ultrapassam a casa do R$ 1,3 milhão, quase 10% do Orçamento previsto para 2013. “Para nós, é muito dinheiro.”

De fala simples e tímido, Rui tem o olhar cansado. Diz que passa seus dias na Prefeitura recebendo cobradores e tentando algum acordo. “Eu nunca imaginava que ia encontrar as contas desse jeito. Foi uma surpresa. Agora o jeito é economizar e trabalhar”.

Para dar exemplo, ele abriu mão do carro oficial, um Azera, porque o seu particular, um Palio, é mais econômico. Também cortou o horário de funcionamento da prefeitura para meio período.

Rui Gonçalves nasceu em São Tomaz de Aquino. Se mudou para Itirapuã aos dois anos e nunca mais deixou o município. Lá, casou com Marilurdes e teve três filhos. Também viu seus negócios prosperarem. Depois de se aventurar como comerciante, decidiu investir na criação de gado e na plantação de café. “Hoje tenho uma vida boa. Não sou rico, mas não falta nada para minha família.”

A política surgiu em sua vida por acaso. “Um amigo meu precisava de um candidato a vereador [para fechar a cota], me convidou e eu aceitei.” Sua primeira eleição foi em 1992: teve a quarta melhor votação. Nos oito anos seguintes, se dedicou a atender à população.

Em 2000, resolveu dar um tempo da política e se dedicar mais aos negócios da família. Não ficou muito tempo longe. Em 2008, voltou a disputar uma vaga na Câmara Municipal. Foi o vereador mais votado. “Essa colocação fez com que meu nome fosse indicado para prefeito. Como gosto muito dessa terra, resolvi aceitar para tentar ajudar Itirapuã.”

Agora, eleito prefeito, Rui Gonçalves luta para colocar as contas em ordem e, otimista, garante que vai conseguir.

Comércio da Franca - Qual a situação atual da Prefeitura de Itirapuã?
Rui Gonçalves
- Caótica. Temos uma dívida de R$ 1,329 milhão, que, para um município do nosso tamanho, com pouco mais de seis mil habitantes, é enorme. Estamos com o 13º salário dos funcionários atrasado. O contrato com a empresa que fornece o ticket alimentação para os servidores está suspenso por causa de uma dívida de R$ 56 mil. Estamos com R$ 22 mil em atraso com a Sabesp, mais R$ 26 mil com a CPFL. Corremos o risco de ter a água e a luz cortadas a qualquer momento. Não recebemos o fundo de participação do Imposto de Renda porque estamos devendo R$ 132 mil para o INSS e eles [governo federal] retiveram o dinheiro. Os telefones podem ser cortados também porque a dívida em aberto é de R$ 17 mil. Também não temos crédito para comprar combustível para a frota municipal porque devemos R$ 50 mil para o Posto Mario Roberto. Não vamos conseguir pagar a documentação dos veículos para que eles possam rodar e ainda temos o convênio com a Unifran para os estudantes que não sabemos como vai ficar. Além disso, recursos que já tinham dado entrada nas contas da Prefeitura referentes a convênios assinados com os governos federal e estadual sumiram. Está bem difícil e olha que nesses valores não estamos computando as contas que chegaram agora em janeiro.

Comércio - O senhor era vereador quando decidiu concorrer à Prefeitura no ano passado. Não sabia dessas dívidas e da condição financeira difícil da Prefeitura?
Rui Gonçalves -
Para ser sincero, não. A gente não tinha ideia de que as contas estavam deste jeito. Acho que nem os outros vereadores tinham conhecimento disso. Até mesmo a população eu sinto que ficou surpresa quando informamos sobre o que está acontecendo.

Comércio - E durante o período de transição de governo, não houve informações das contas em atraso?
Rui Gonçalves -
Só no final do processo e ainda assim não era todo esse montante não. Tem coisas que só fomos descobrir agora. A transição durou cerca de um mês. Fomos nos inteirando do funcionamento da prefeitura e só nas últimas reuniões é que eles falaram sobre essa questão financeira. Então, a gente tinha uma ideia que teria dificuldades pela frente, mas nunca imaginamos que fossem tão grandes.

Comércio - O senhor devia ter planos para esse início de governo que, por conta da situação financeira, acabaram sendo adiados. Como é começar seu governo com essa herança?
Rui Gonçalves -
É muito difícil. Tinha muitas coisas que queríamos fazer. Agora mesmo para o Carnaval já estávamos negociando com as bandas e com os municípios vizinhos para formar um circuito da folia na região, mas, com salários atrasados, não tem como gastar com festas. Nossa prioridade é o pagamento dos servidores e a regularização do ticket. Depois, temos que negociar com os fornecedores. Nosso plano de governo está sendo adiado.

Comércio - Como pretende resolver esses problemas? O senhor já tem um plano de renegociação de dívidas? Como está essa questão?
Rui Gonçalves -
O difícil é que temos uma arrecadação pequena. Não temos muito o que fazer, a não ser economizar. Eu mesmo não estou nem usando o carro oficial porque ele consome muita gasolina, anda só quatro quilômetros por litro. Como posso andar por aí com ele se a Prefeitura deve R$ 50 mil para o posto? Acho desaforo. Então uso meu carro mesmo [ Palio] que é bem mais econômico. Também não nomeei quase ninguém para os cargos comissionados. Só nomeei quatro pessoas, que são essenciais. No restante, estou contando com a colaboração dos funcionários de carreira da própria prefeitura. Isso tudo para economizar e diminuir a folha de pagamento.

Comércio - Mas o senhor não disse como pretende resolver essa dívida...
Rui Gonçalves -
Então, vamos primeiro quitar as dívidas com os servidores, que somam mais de R$ 150 mil. Depois, teremos que chamar os 30 fornecedores com contas atrasadas para renegociar. Não temos como pagar todo mundo agora e a Prefeitura também não pode parar. Já conseguimos regularizar o convênio com a Unimed, que estava suspenso por falta de pagamento, e na última quarta-feira acertamos os salários de dezembro. Também estamos negociando com uma empresa de auditoria externa para levantar a real situação em que encontramos a prefeitura e sugerir soluções.

Comércio - Mas, se a prefeitura está sem dinheiro, como irá custear os serviços desta auditoria?
Rui Gonçalves -
Estamos tentando acertar um valor que possamos pagar parceladamente. Também queremos oferecer ajuda, assim ficará mais barato.

Comércio - E uma vez concluída essa auditoria, o que o senhor pretende fazer com o resultado?
Rui Gonçalves -
Na verdade, é uma forma de me precaver contra futuros problemas com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Quero deixar registrada a situação em que assumi a Prefeitura. Eu já informei nossas dificuldades ao Tribunal de Contas e ao Ministério Público. Também me reuni com os vereadores e tenho dado satisfação à população. Quero que todos saibam como estão as coisas.

Comércio - Qual o posicionamento da Câmara Municipal a respeito?
Rui Gonçalves -
Os vereadores têm sido bastante compreensivos com a gente. Eles têm nos apoiado neste momento difícil porque estão vendo que quero o melhor para a cidade.

Comércio - O senhor pretende tomar alguma medida contra a administração anterior?
Rui Gonçalves -
Sim, e já estou tomando. Como disse, informei ao TCE e ao Ministério Público, agora que medida eles vão tomar eu não sei. Eu procurei o Marcão [ex-prefeito Marcos Henrique Alves, do PSDB] para saber o que aconteceu. Ele me disse apenas que as dívidas são resultado da queda na arrecadação do município.

Comércio - O senhor acredita que apenas a baixa arrecadação é a responsável pela atual situação financeira da Prefeitura?
Rui Gonçalves -
Para falar a verdade, não. Acho que faltou um pouco de consciência. Porque se eles [ex-prefeito e seus auxiliares] viram a arrecadação caindo podiam ter feito alguma coisa antes, podiam ter economizado, cortado alguns dos gastos, mas não fizeram nada. Então, na minha opinião, faltou um pouco de consciência.

Comércio - Qual tem sido a reação da população diante da falta de recursos e do atendimento prejudicado na Prefeitura?
Rui Gonçalves -
Pelo que tenho sentido nas ruas da cidade, todo mundo está compreendendo. Tem gente até que tem nos ajudado. Já recebemos doações de materiais de escritório e de limpeza aqui na Prefeitura para podermos trabalhar. Fico comovido com essa solidariedade por parte da população. É uma coisa boa no meio de tanta dificuldade. Só tenho a agradecer. Até mesmo os funcionários que estão sem receber e poderiam simplesmente cruzar os braços, mas não. Parece até que estão trabalhando com mais afinco.

Comércio - E quanto tempo levará para colocar as contas da Prefeitura em ordem?
Rui Gonçalves -
Estou trabalhando muito para resolver tudo até o final deste ano. É minha meta. Vou perder um ano do meu governo acertando tudo para depois colocar minhas ideias em prática.

Comércio - E como o senhor vê o futuro de Itirapuã?
Rui Gonçalves -
Eu amo muito essa terra. Cresci aqui, formei minha família e estou criando os meus filhos neste solo. Eu quero o melhor para a cidade. Quero que Itirapuã cresça e se desenvolva. Estamos enfrentando muita dificuldade, mas vamos fazer de tudo para vencer.