20 de março de 2026

Modernice e modernezas...


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Em 1º de março completo dois anos de Facebook que, à falta de definição melhor, é ‘rede social digital que reúne pessoas a seus amigos e àqueles com quem trabalham, estudam e convivem.’

Fazia parte do Orkut, outra rede social, abandonada porque pessoas que admiti, embora fossem até conhecidas, não tiveram desconfiômetro e sobrecarregaram minha paciência ao enviar dezenas de mensagens de cunho religioso de uma só vez, pedidos de adesão a campanhas sem fundamento, postaram piadas de mau gosto e, muitas vezes, dezenas de brincadeiras infantis que não tinha tempo de ler, muito menos de responder.

No começo foi bom, depois virou bagunça. Devagar percebi a quantidade de menções elogiosas ao Facebook e o próprio filme A Rede Social despertou meu interesse. Aí não quis ficar de fora. Peixe, no zodíaco, tinha mesmo que cair na rede. Descobri nomes conhecidos que participavam da corrente. Ofereci-me, ao mesmo tempo recebi convites, o próprio programa sugeriu nomes de pessoas – amigos de amigos – minha lista se ampliou neste biênio. Percebo que – tudo junto e misturado em amálgama fantástica e inimaginável – fazem parte dos meus contatos: gente que conheço, que nunca vi, que mora em locais distantes do outro lado do mundo, vizinhos, conterrâneos, parentes que moram fora, amigos, amigos do peito e amigos de amigos de conhecidos.

Com frequência tenho medo da exposição que o Face propicia. Por se tratar de espaço particular que cada dono administra a seu modo, ficam livres para postar (e divulgar) aspectos íntimos, suas experiências pessoais, desejos, sonhos, viagens, preferências, opiniões, fazer agrados e até ofender. É difícil lidar com tanta notoriedade e, percebe-se, há alguma ingenuidade na forma como a maioria dos facebuquianos divulga aspectos íntimos.

A exata localização no espaço geográfico num determinado momento, por exemplo: o sujeito está fora da cidade, acha o máximo dizer que viajou para longe, e o mapa da sua página diz para que lugar ele foi. Vira alvo fácil de meliantes de plantão. (Ou para ataques do Ricardão.) Não raro dou mancadas na minha página: perdi a amizade de um amigo de longa data, veja só. Ofendido, porque critiquei três Metralhas – Genoíno, Delúbio, Dirceu – e o Lewandowski, seus ídolos, o ex-amigo bloqueou minhas incursões na sua página, digo caverna, onde devem se encontrar os outros trinta e cinco companheiros. Estiquei conversa com um sujeito desconhecido, adicionado de forma despreocupada e no instante seguinte ei-lo se mostrando grosseiro e mal educado ao me fazer perguntas e sugestões inconvenientes. São demais os perigos desta rede, pode crer: o filme Confiar faz essa análise de forma magistral.

A força da divulgação de notícias, idéias e opiniões do FB não pode ser desprezada. A velocidade da propagação dessas opiniões, idéias e notícias, também não. Experiência de dezembro passado: ofendida por motorista no trânsito, através de gesto obsceno e expressão de rudeza, postei a descrição do acontecido – com todos os pormenores. (Inclusive informei que guardara a placa do carro para minha proteção em caso de eventual ataque revanchista.) Em menos de sessenta minutos, mais de cem pessoas compartilharam o post, comentaram, se solidarizaram comigo.

Em caso de descuido – nosso e dos donos da rede – bagunçarão o Face. Já apareceram sem-noção e exibicionistas que precisam de holofotes, comerciantes aproveitadores, opiniões ridículas e brincadeiras descabidas. Mas até lá, que os políticos tomem cuidado: bem usada, a rede derrubará falsos ídolos colocados em altares de barro.

CONFIAR
Confiar, filme rodado em 2010, dirigido por David Schwimmer, estrelado por Liana Liberato, Clive Owen e Catherine Keener mostra o envolvimento de garota de 14 anos com alguém que ela conhece pela Internet. É ficção plausível, puro terror e deveria ser visto por adolescentes, pais dos adolescentes, professores e público em geral.

LIVRO
A Queda, Diego Mainardi. ‘O livro é composto por 424 anotações e imagens, que fazem às vezes de pequenos capítulos - ou de ensaios relâmpagos. O subtítulo sintetiza a estrutura do texto: ‘As memórias de um pai em 424 passos’. O livro se compõe das memórias de um pai cujo filho, devido a erro médico durante o parto, teve como sequela uma paralisia cerebral. É o relato da conversão do autor a um amor incondicional, que o leva a rever seus valores e, sobretudo, seu lugar no mundo - a frase é forte, mas é disso que se trata.’

FOTÓGRAFOS
Página no Facebook, batizada de Apaixonados por Franca exibe - entre outras demonstrações de afeto - fotografias da cidade em espécie de modernos cartões postais. Neles percebe-se tanto o olhar amoroso dos autores quanto o uso da tecnologia dos programas de computadores que solidificam pormenores e destacam detalhes. Dois fotógrafos (que se dizem amadores) merecem destaque: um é homem - autor da poética e delicada série Ipê; o outro é uma mulher, diretora de conhecida empresa que mostra a cidade vista de cima, em ângulos inusitados e lindamente iluminada. Pareceu-me, ao vê-las, que Franca, como modelo charmosa e feminina, posa para ambos.

RECEITA
Três mangas maduras. Uma colher de sopa de mel. Levar as mangas picadas junto com o mel ao fogo brando até dissolver bem e obter textura mais espessa. Servir com carnes vermelhas ou peixe assado. Não precisa complicar. O simples é bom.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br