08 de julho de 2026

Rubem Alves


| Tempo de leitura: 2 min

No meu aniversário de cinquenta anos, fui presenteado pelo colega e amigo Dr. João Carlos Bianco, professor de Direito e promotor de justiça aposentado, batataense de ‘quatro costados’, com obra de Rubem Alves, publicada pela Editora Planeta e intitulada Perguntaram-me se acredito em Deus.

O livro veio acompanhado de uma generosa dedicatória. Confesso que fiquei envaidecido, embora, racionalmente, não concorde com o que Dr. João colocou em seu texto.

Foi, primeiramente, lido por minha esposa. Não tive dela qualquer referência nem positiva, nem negativa.

Não sei por qual razão, não dei ao livro a devida atenção, mesmo gostando muito dos escritos de Rubem Alves e da forma como ele vê as coisas da vida.

Acho que tive, e reconheço que me enganei, a impressão inicial de se tratar de algo próximo daquilo que se convenciona chamar de ‘livro de auto-ajuda’. Confesso que tenho resistência com livros que nutrem a pretensão de ajudar as pessoas a transpor as vicissitudes da vida, com raras exceções.

De qualquer forma, nas últimas férias forenses, depois de ler Umberto Eco em sua delirante trama O Cemitério de Praga, tomei a decisão de ler a obra carinhosamente recebida do amigo Bianco. Tive, sinceramente, uma grata surpresa.

Rubem Alves, como ele próprio se reconhece, é um contador de estórias. Eu, contudo, reforço. Ele é um exímio contador de estórias para baixinhos e, também, para grandinhos.

No transcorrer da narrativa, Rubem fala de Deus, de amor, de alma, de inveja, de ressurreição, de felicidade, de oração, de sabedoria e de tantas outras questões delicadas, mas que, há que se reconhecer, são fundamentais para a nossa vida e, principalmente, para a nossa realização pessoal, tudo recheado por belos poemas de autores diversos.

O autor, cidadão honorário de Campinas, afirma com veemência que ‘nos outros livros escrevem-se as coisas do tempo. No livro de poesia escrevem-se as coisas da eternidade’.

Com extrema maestria e perícia, reconta algumas parábolas de Jesus, narradas pelos evangelistas, trazendo-as para o nosso tempo e extraindo delas outras lições, além daquelas religiosas e tradicionais que nos são contadas e pregadas pelas diversas correntes do cristianismo.

Para ele, Deus não fica contabilizando nossos débitos e nossos créditos como um banqueiro costuma fazer com os seus clientes em livros de contabilidade. ‘Deus não tem memória: nem pune pecados, nem recompensa virtudes.

É como um regato de águas cristalinas. Não importa que joguemos nele os nossos detritos. Ele continua a jorrar águas cristalinas...’. Deus, para Rubem Alves, está sempre pronto a nos perdoar.

Em síntese, trata-se de livro de leitura obrigatória, muito embora isso não signifique que tenhamos de concordar com todas as posições do autor. Temos que ler até para, se for o caso, discordar.

Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca