08 de julho de 2026

Como pluma ao vento


| Tempo de leitura: 3 min

Devorei o livro Onde está tudo aquilo agora?, de Fernando Gabeira, espécie de inventário de vida do conhecido jornalista, ex-militante de esquerda que participou do famoso sequestro do embaixador norte americano Charles Elbrick em 1969, foi preso e exilado. Após a abertura política dos anos 1980 se transformou em político atuante.

É um nome importante do cenário social, político e comportamental brasileiro. Quase 35 anos atrás, trouxe para o primeiro plano e pagou caro por isso - temas como a liberdade do corpo (quem é que não se lembra da sunga de crochê?), do consumo de drogas e da defesa do meio ambiente. É o que podemos chamar de ícone pop, que impactou a todos com sua visão de mundo e atitudes. Aprendi a admirá-lo mais por seus valores que por suas convicções, estou ciente de seus defeitos e fraquezas, mas entendo que é um brasileiro que fez mais bem do que mal para o País.

Eu havia lido O que é isso, companheiro? quando Gabeira o lançou em 1979, dez anos depois do sequestro do embaixador. Nele, Gabeira descreveu a situação do Brasil nos anos de chumbo e não poupou críticas aos movimentos armados. Terminei a leitura com um “E agora? O que é que esse cara vai fazer?”. Bem, 34 anos depois ele responde...

O título explica o conteúdo: onde foram parar os sonhos da juventude revolucionária dos anos 1960 e 1970? A que resultados chegaram os que pegaram em armas? O que o levou a arriscar a vida e o futuro na defesa de um ideal? E, como político, qual o balanço? O livro é valiosa avaliação das consequências das escolhas que fazemos ao longo da vida, especialmente para quem foi contemporâneo dos fatos narrados. Gabeira é um guerreiro. Quando cheguei ao final do novo livro, foi com um nó na garganta que li: “Quanto às grandes esperanças de democratizar o Brasil, a partir dos anos 1990, obtivemos grandes avanços materiais e o país é, hoje, a sexta economia do mundo. Foi um processo de crescimento com distribuição de renda, Mais uma razão de orgulho. Como explicar essa sensação de vazio que a vida política me transmitiu nos últimos anos de atuação? Concluo este capítulo já distante do Parlamento, aos 71 anos, sem bens materiais e com algumas pequenas dívidas herdadas de campanha. Se alguém me perguntar se faria tudo de
novo, eu responderia que não. Tenho pavor de cometer os mesmos erros. É hora de renová-los.”

Nó na garganta pois é disso que tenho mais medo: chegar a 71 anos de vida de batalhas, olhar para trás e concluir que não faria tudo de novo. Me sentir vazio... Ao ser indagado sobre sua desistência da luta política, Gabeira responde que “o processo de degradação chegou a um ponto que tornou difícil, quase impossível, combatê-lo por dentro”.

O livro se encerra assim: “Nos informes comunistas, no século passado, havia sempre uma frase que dizia: ‘A realidade confirmou nossas análises’. Comigo foi diferente. A realidade quase sempre me escapou, mas não desistirei de me reconciliar com ela. Nem de ajudar a mudá-la quando possível. Espero não me bater contra moinhos de vento. Mas não posso dar nenhuma garantia. A realidade é móvel como pluma ao vento.” Ainda existe, dentro do velho jornalista, uma fagulha do jovem revolucionário. Espero que ele, agora maduro, centrado e equilibrado, tenha tempo, e fôlego, para transformá-la em chama.

Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista