A festa do Batismo de Jesus é a pública manifestação da sua missão
Solidário com o povo, Jesus também entra nas águas do Jordão para receber o batismo. Seu mergulho na água se liga com seu mergulho na nossa humanidade. Jesus se faz solidário, e mais ainda, Servo e Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele assume nossa condição humana num ato solidário que o leva até à Cruz. É uma caminhada que vai em direção à Páscoa. Os textos da Palavra de Deus transmitem uma bela mensagem que nos revela o “Rosto de Deus”. Quais são estes ensinamentos?
PRIMEIRA LEITURA — ISAÍAS 42
Na segunda parte do livro de Isaías começa a história de um personagem misterioso que o autor identifica como o “Servo do Senhor”. O interessante é que neste “Servo do Senhor” os primeiros cristãos reconheceram logo a figura de Jesus.
Antes de tudo nos é descrito o seu chamado. Foi escolhido porque era agradável a Deus e lhe foi confiada uma grandiosa e difícil missão; por isso foi invadido pela força do Senhor, do seu Espírito. A leitura continua apresentando a obra que este Servo deve realizar: levará às nações a verdadeira religião. Isto não quer dizer que imporá a todos os homens uma lei severa, mas sim que difundirá pelo mundo o conhecimento de Deus e a sua mensagem de amor.
Não terá a conduta dos dominadores deste mundo: não gritará, não elevará a voz nas praças, não destruirá o que está parcialmente estragado, mas procurará recuperar; não desanimará diante das dificuldades e concluirá a obra para a qual foi enviado. Servindo-se de figuras, a última parte da leitura nos apresenta novamente a missão desse “Servo”. Revela que ele será luz para as nações, que abrirá os olhos aos cegos, que libertará os prisioneiros e os escravos que andam nas trevas. Quase todos os versículos desta leitura, de fato, são registrados nos Evangelhos e aplicados a Jesus. (cf. Mt 3,17;12,18-21;17,5).
SEGUNDA LEITURA — ATOS 10
A segunda leitura, dos Atos dos Apóstolos, é o início do discurso de Pedro na casa do centurião Cornélio. Ressalta que “Deus não faz acepção de pessoas”, pois manifestou seu amor a todos através da vida, morte e ressurreição de Jesus. Assim, os gentios são admitidos ao Evangelho sem a obrigação de seguir os costumes da cultura judaica. O essencial é a adesão ao Senhor, manifestada através da prática de sua justiça.
EVANGELHO — LUCAS 3
O Evangelho de hoje se compõe de duas partes. A primeira (vv.15-16) começa com constatação muito densa de significado: “o povo estava numa expectativa”. Na expectativa de quê? O Batista responde às expectativas do povo. É um homem austero, impregnado pelo modo de pensar dos homens do seu tempo: anuncia um Messias renovador do mundo. Serve-se de palavras e de imagens que os israelitas entendem muito bem.
As palavras do Batista refletem a mentalidade de um povo que os mestres espirituais educaram no medo a Deus. Com a vinda de Jesus encerra-se a época na qual Deus era apresentado como um soberano severo e exigente. Em Jesus encontramos a verdadeira face de Deus, um Deus que não agride os pecadores, mas que se senta com eles à mesa; que não se afasta dos leprosos, mas que os alivia; que não condena a mulher adúltera, mas se deixa acariciar e beijar por ela. Na sua pessoa não encontramos a ira de Deus, mas a sua paciência, o seu amor, a sua ternura.
Este pensamento nos introduz na segunda parte do Evangelho. Lucas observa que Jesus entrou nas águas do rio Jordão junto “com todo o povo”. Ele se misturou com o povo. Este pormenor deve ser sublinhado porque, desde o início da sua missão Jesus se apresenta como alguém que permanece ao lado dos pecadores: não os julga, não os despreza, não sente repugnância por eles. Participa. ele mesmo. da sua condição de escravidão, e, junto com eles, percorre o caminho que conduz à liberdade.
O terceiro aspecto que só Lucas registra é o apelo à oração. Jesus recebe o Espírito, “enquanto está orando”. A insistência na oração é uma das características de Lucas. Esta é a primeira vez que ele nos apresenta Jesus em diálogo com o Pai; ao longo do seu Evangelho este assunto se repetirá aproximadamente dez vezes.
Depois da introdução, também Lucas, como Mateus e Marcos, nos apresenta a cena que se segue ao batismo, por meio de três imagens: a abertura do céu, a pomba e a voz que veio dos céus.
Comecemos pela abertura dos céus. Com início da missão de Jesus os céus se abriram e permanecerão fraqueados para sempre. Deus já não está mais distante, veio habitar neste mundo, assumiu a nossa própria carne e caminha ao nosso lado.
A segunda figura é a da pomba. O Espírito não é, portanto, uma força violenta que agride os pecadores para destruí-los e não desce do céu “como um leão”, mas desce suavemente,como uma pomba.
A terceira figura, voz que veio dos céus, é uma expressão muito usada pelos rabinos para iniciar uma frase que reflete o pensamento de Deus. Era como um eco da sua voz. Na nossa narrativa a figura da “voz que veio dos céus” é usada para sinalizar quem é Jesus: ele é o filho predileto do Pai, pela fidelidade que lhe dedicou. É este Jesus que hoje se manifesta a todos os homens para ser conhecido por eles. Quem deseja conhecer os pensamentos de Deus, as suas ações e os seus projetos e como os realiza, não precisa se preocupar com raciocínios: é suficiente que dirija seu olhar para Jesus. É ele que deve ser contemplado.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br