Quando o calendário marca o ciclo findo de um ano é inevitável pensar o que, em nós, finda, e o que em nós começa. Muita coisa paulatinamente vai saindo, naturalmente. Alguns anseios irrealizáveis, algumas dores infantis, outras dores adolescentes, mágoas adultas, maiúsculas, algumas pessoas que se supõe (erradamente) saber mais do que realmente se sabe, até que...Tudo vai saindo de fininho, sem bater de portas, sem ranger de dentes. Será isso a maturidade?
Vão também orvalhando, timidamente, inícios de acontecimentos: novas amizades, apoio e incentivo de quem não se supõe (erradamente) receber, alguns propósitos futuros nada radicais, novas formulações sobre fatos antigos, alguns esboços de sonhos, tudo acontece sem esforço algum, aliás, sem pressa de fazer acontecer, até porque de nada adianta, nesses casos, a Vontade (querer não é poder). Será isso a Maturidade?
Uma consciência absolutamente nova, oriental, tem se enraizado no meu sentir. Coisas não mais teóricas - tipo assim: o Mal intrinsecamente enlaçado ao Bem; o Amor como a “vira” do Ódio; o prazer e alivio de se livrar de Ressentimentos (talvez possa até ter nome Perdão); nada é definitivo, questão de vida ou morte, branco puro ou preto puro. Isso é Maturidade?
As coisas parecem clarear, sem ter a ver com o calendário: qualquer aprendizado, com sabor de eternidade, vem como decorrência de muito esforço; envelhecer é uma questão de Coragem (jovem tem passaporte fácil para qualquer novíssima experiência); o Amor troca o figurino a cada novo ciclo da vida, ele é verdadeiramente mutante. Será que cheguei à maturidade?
Maturidade nunca é a parada final, nem tem direito a diploma. Demanda uma competência equilibrista para lidar com erros futuros, a partir de inúmeros outros passados. Como dizia Beckett, e levei dez anos para entender: “falhar, falhar sempre, falhar melhor”. Demanda Fé na vida (não fé de crente), a de quem semeou alguma coisa lá no passado e espantou as pragas, capinou, arrancou as ervas daninhas e, agora, se oferece uma boa colheita, sabendo que terá de separar sementes para a semeadura seguinte. Mas além de saber errar, e ter Fé, é preciso uma dose grande de Paciência e Persistência, e (o mais difícil, Deus do céu) uma coisa complicada. É preciso acreditar que há, entre vida e morte, guerra e paz, vida interior e exterior, mal e bem, pecado e santidade, uma Harmonia cósmica. Do inseto peçonhento à obra artística nobre a resistir por séculos, há um insondável elo, nada frágil (mas perecível), de profunda pertinência. Para acreditar em Harmonia é preciso ser apto para a Vida. (entre naturezas e qualidades semelhantes o que ocorre é Simetria, o morno que Deus vomita).
Harmonia nem sempre é simétrica. Ela é constituída de contrastes, contradições, oposições, revoluções. Ela se reinventa, em nós, e apesar de nós. Harmonia é para quem se deixa habitar pelo que desconhece, e, no entanto, a ele se integra, e se entrega. Um 2013 harmonioso, entre trombetas do apocalipse e as cores sutis da Aurora, são meus maduros desejos, para todos nós.