Poderia oferecer mega prêmio em ouro àquele que descobrisse a identidade da mulher mais jovem desta foto. Ninguém o ganharia. Porém ao ouvir seu nome, inúmeros francanos se lembrarão dela: Carlina Ribeiro, professora de História do IETC. Dona Carlina era severa, exigente, quase nunca ria, usava roupas sóbrias - quase sempre saia justa, camisa de mangas compridas, meias de seda e sapatos fechados. Tinha miopia: seus óculos escondiam olhos perspicazes e um certo brilho maroto, que apenas os mais próximos notavam. A pronúncia era diferente da comum; usava todos os esses e os erres, não engolia o gerúndio: acho que não era francana. Até se casar com Márcio, morava com as irmãs, no final da rua Padre Anchieta, depois mudou-se para a casa imediatamente abaixo, onde nasceu o menino Carlos, sua paixão. Pertenceu ao grupo das pioneiras na direção de automóveis em Franca e pilotava um fusca, mas jamais - jamais - desceu a Voluntários da Franca, por causa da subida, após a ponte do Córrego dos Bagres. Nunca revelou o motivo do estranho medo.
A senhora ao lado é mãe de Carlina e seu nome se apagou na assinatura da dedicatória. Amiga de minha avó materna - costureira que fazia todas as roupas femininas da família - certa vez olhando vovó absorta no corte do tecido, ela sentada ao lado da mesa de costuras, declarou: “Ritinha, gosto tanto de você, que se eu fosse homem, me casaria contigo!”. Eram os anos 40, as pessoas expunham sentimentos sem medo do politicamente incorreto, de invasão de privacidade ou má interpretação. Ao ver a foto lembro-me dos olhos brilhantes de vovó contando-me a inusitada declaração de amor fraterno. Creio eu, o amor era recíproco.
(Lúcia H. M. Brigagão)