O selo postal é invenção inglesa. O futebol é invenção inglesa
Não encontrei ainda ordálios que comprovem minha teoria, mas acho que o cartão, enfeitado e decorado de todas as formas possíveis, verdadeiro desafio à criatividade, também é invenção inglesa. Não sei o que nasceu primeiro: o selo para levar o cartão ou o cartão para justificar o selo. Há muito tornei obrigatório visitar alguns estabelecimentos quando viajo. Em qualquer local onde coloco a mala no chão da hospedaria, saio em busca de: um, supermercados; dois, papelarias e três, livrarias. Posso até não ir a local considerado imperdível pelas agências, mas não ir a esses três, na minha imaginação, é perder dados importantes sobre a vida do local onde estou de passagem.
Vale para a Canastra, Paris, Manaus ou Pouso Redondo. Os supermercados – de rede ou vendinhas – mostram-me ou sugerem o que o nativo consome. Ou come. Ou como consome. Frutas, vegetais, material de limpeza, combustíveis, alimentos universais – sal, açúcar, pimenta, café, chá, entre outros. Não fosse curiosa, jamais experimentaria pastel de queijo e cerveja gelada como café da manhã. Horrível? Só para quem jamais fez trilha lá para os lados do Vale da Babilônia, na Canastra. Em Pouso Redondo, centro geodésico de Santa Catarina, teria perdido chance de descobrir forminhas de folha de flandres para moldar biscoitinhos de Páscoa e de Natal, nem poderia contar a maneira com a qual a funcionária do caixa se despediu de mim. Escaneou as compras, deu o montante, entregou a mercadoria, paguei, deu-me o troco, sorriu e perguntou de uma vez só, com aquele sotaque carregado: ‘Oqueeraamais?’ Assustada, respondi ‘o quê?’ duas ou três vezes até ela perceber que eu boiava, e eu separar suas palavras: o-que-era-a-mais? Aí entendi que deveria completar mentalmente com ‘que precisaria’ e então nos entendemos. Nos supermercados você conhece frutas (kiwi, pitaia, kino, cherimoia, granadilho, longan, lichia, tamarillo,buriti-miriti, camu-camu; além de queijos, diferentes embutidos, temperos variados, espetaculares derivados do leite como a linha de iogurte grego. E pães, bebidas, bolos. Fico horas, como diria minha avó, ‘cuscuiando’.
Papelarias desafiam minhas economias. Fico alucinada com cadernos, cadernetas, papéis de carta, de embrulho, calendários, caixinhas com papéis de anotações, caixas de todos os tamanhos, canetas e lápis. Sério? Sério. E as livrarias? Bem, diga-me o que e o quanto o povo lê, que eu direi o que o povo da cidade (ou país) é. Há locais onde o número de livrarias por rua é o mesmo que de botecos por rua em muitas cidades. Nada contra botecos, mas contra a triste qualidade da estatística.
Dizia, cartões devem ser invenção inglesa. Nas gôndolas das papelarias inglesas há cartões para tudo e todas as ocasiões. De todos os tamanhos: ultrapassam o limite da fita métrica e são decorados de tantas maneiras e estilos que é impossível achar dois idênticos nas diversas lojas onde são vendidos. Mercado é grande, oferta imensa e procura diuturna. Para quais ocasiões? Aniversários. De dias, semanas, meses e anos, de um até cento e dez anos; Páscoa, Natal. De celebração de bodas de todos os anos, para todo tipo de casal, com textos muito sérios, jocosos. Ou sem texto. De cumprimento, por motivo de doença, de morte, de viagem (ida ou volta). Casamento (primeiro, segundo, terceiro), reconciliação, separação. Formatura, batismo, festas religiosas (cristãs e judia principalmente), pedido de reconciliação, desculpas pela ausência em festas, jantares e reuniões íntimas, informais ou protocolares, início de férias ou volta às aulas. Sim: para animais de estimação: nascimento, morte, aniversário! De término de relacionamento e, claro, o de agradecimento do infeliz que o recebeu. (Aliás, para todos os cartões, há o correspondente, de agradecimento.) Curiosidade, nos aniversários (qualquer idade) o cartão obrigatoriamente acompanha o presente (e deve ser respondido). Às vezes o próprio cartão é o presente. Assim, se convidado para aniversário, mesmo que dê um Jaguar de presente faça-o ser acompanhado pelo amável cartão. Se não tiver grana para o Jaguar, dê apenas o cartão. E aguarde a resposta: se o agraciado for inglês, ela virá. Pelo correio e com selo. Tenho ou não tenho razão de idear ser inglesa a origem dos cartões?
ONDA
Até há pouco produto industrializado, a nova onda dos cartões ingleses é serem artesanais. A onda de scrapbooking resiste e qualquer cartão feito manualmente passou a ser supervalorizado. No caso de vínculo entre o artesão e o galardoado, ele vira tesouro, coisa que dinheiro não pode comprar. Quando é o neto de seis anos que o idealiza e produz para desejar à avó por exemplo, boa viagem, embora sem chance em concurso da escola; merecedor de críticas contundentes vindas dos mais exigentes; apesar de exibir elementos fora de época – como sinos, renas, bolas e glitter – a avó recebe, lê, fica com os olhos marejados pela doçura e espontaneidade do neto e manda emoldurar. Pendura na parede e é como se tivesse ganho um valioso Miró.
HUMOR
O metrô inglês fez 150 anos ontem, 10 de janeiro. Desde o começo do mês farto material publicitário – banners e indoors – comemora e faz alusão à data, nas estações, nos jornais gratuitos que circulam nos horários de pico do eficiente meio de transporte. O humor inglês, sutil e nada explícito, apareceu em charge antológica numa dessas edições: casal de meia idade, sob placa onde se lê Cokfosters, nome de estação do metrô. A mulher, apontando o dedo e claramente espantada diz ao companheiro: ‘I believe it was censored in the 50s’.
EXPECTATIVA
Ao viajar acompanho as notícias da cidade pelo portal deste Comércio, pelo Facebook (Apaixonados por Franca) e posts dos amigos. Ausento-me fisicamente: deixei em Franca mais da metade dos meus amores. Estou ansiosa por voltar e encontrar: as obras do viaduto prontas, cercas de proteção (para os pedestres, não para os carros) à volta dos córregos, o prefeito ainda entusiasmado e esperançoso. E a violência controlada.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br