Estrela de primeira grandeza do basquete do Brasil e um dos cem melhores atletas do século XX, Hélio Rubens Garcia, ex-técnico do Vivo/Franca, começou a jogar aos 16 anos. Antes disso, aos 14, tentava carreira no futebol e chegou a ser titular da Francana. Foram seus pais e seu professor de Educação Física, Pedro Morila Fuentes, o Pedroca, quem o incentivaram a trocar o campo pela quadra. Sua carreira teve grandes momentos e ele levou o nome de Franca a muitos lugares do nosso país e do Exterior. Hoje Hélio Rubens é técnico do Uberlândia. Considerando a importância de seu currículo, o Clubinho resolveu convidá-lo para uma entrevista. Quatro leitores do caderno foram escalados para o bate-papo que aconteceu no dia 26 de dezembro na casa de Hélio Rubens em Franca. Confira o que ele disse a Guilherme Vieira, Gabriel Rubio Chagas, Felipe Moura e Anderson Carlos Ribeiro Junior.
Gabriel: Quantos anos o senhor ficou no basquete de Franca?
Hélio: Comecei a jogar em 1958. Anos depois me tornei técnico do basquete de Franca, onde fiquei até 2000. Então são 42 anos dedicados ao time. Mas em 2005, depois de treinar o Vasco e Uberlândia, voltei a Franca e fiquei até 2012. Foram mais 7 anos. Praticamente foram 50 anos.
Anderson: quantos times o senhor já treinou?
Hélio: Eu treinei só três times. O Franca, o Vasco e o Uberlândia
Felipe: O senhor começou a jogar com 16 anos. É a idade ideal para começar?
Hélio: Não. Quantos anos vocês têm?
Felipe: Treze
Hélio: Essa é a idade ideal.
Guilherme: Quantos títulos ganhou pelo Franca Basquete?
Hélio: Muitos! Ganhei 10 como Campeão Brasileiro de Basquete, 20 vezes os Jogos Abertos do Interior, 15 vezes o Campeonato Paulista. A minha vida toda foi praticamente em Franca. Estive apenas 4 anos no Vasco, só que lá ganhamos todos os títulos que o time não tinha na sua história de mais de 100 anos.
Felipe: Qual foi sua maior vitória? E a pior derrota?
Hélio: Vitória inesquecível foi como Vice-Campeão Mundial de Clubes. Foi um jogo em que arremessei quase do meio da quadra no último segundo e acertei. Ganhamos de um ponto.
Pior derrota, ou melhor, frustração, foi na Pré- Olimpíada de Montreal. O Brasil não conseguiu classificação. Perdemos o último jogo. Eu era jogador e capitão do time. Voltei para o Brasil chorando no avião. Mas a derrota é muito importante na vida da gente. Na derrota você avalia o que faltou, o que poderia ter feito e o que fazer para melhorar no futuro. Assim você cresce e vai ser um vencedor.
Gabriel: Antes de ir para os jogos o senhor faz alguma preparação?
Hélio: Faço uma visualização, que é uma meditação ativa criando imagens mentais que vão atuar no comportamento, na energia e nas emoções.
Anderson: Quais os princípios fundamentais para ser um bom técnico?
Hélio: Não existe a fórmula ideal para ser um bom técnico. Têm técnicos passivos, nervosos, exigentes, rela-xados, e todos eles tiveram bons e maus momentos. Depende de como o time absorve e reage ao comando.
Gabriel: E para ser um bom jogador? O que é preciso?
Hélio: Dedicação. Dormir cedo, o mais cedo possível. Ter uma ótima condição física. Compromisso com o clube e com os companheiros. Boa alimentação. E sempre se avaliar. No que posso melhorar? Por que não joguei me-lhor? Nada é de graça. Tudo que é conseguido com facilidade não tem muito valor. Tudo que é conseguido com sacrifício, trabalho, você sente valorizado, porque está crescendo. E não tem como não ficar motivado quando se vê que está aprendendo mais alguma coisa.
Gabriel: Depois que o jogo termina, com derrota ou vitória, o que vocês fazem?
Hélio: Nós fazemos uma avaliação. Na derrota a avaliação tem mais detalhes. Na vitória também avaliamos. Por exemplo, se ganhamos de 5 pontos, por que não ganhamos de 10? O que faltou para melhorar? Estamos nesta vida em um processo de aprendizagem e crescimento constantes. Hoje em toda e qualquer atividade é comum você ver acomodação. É fundamental questionar no que podemos melhorar. “ A repetição é a mãe da perfeição,” dizia o professor Pedroca. Ele se referia à repetição avaliatória, onde devemos questionar. Nós aprendemos isso e por isso Franca é a capital nacional do basquete.
Felipe: E o que o senhor acha desse novo time do basquete de Franca, que é um time jovem?
Hélio: É um time jovem de futuro, mas eu tenho uma preocupação. No basquete de hoje você tem que formar os jogadores e tem que ter uma equipe competitiva. A Vivo está patrocinando o Franca Basquete e está satisfeita. Quando fiz a minha despedida, fui dar uma satisfação para eles (os diretores da Vivo), pois tinham feito contrato com o Franca Basquete pela minha pessoa. Aí falei: “tô saindo mas Franca continua, é a capital nacional do basquete, eu quero que vocês conti-nuem”. Responderam: “nós vamos continuar, só que com um detalhe, se não tiver resultado a gente sai”. Então essa coisa de ter só jogador novo é perigoso. Você tem que ganhar tempo para adquirir experiência porque os outros times reforçam e trazem jogadores estrangeiros que já sabem jogar melhor e tal. A minha preocupação é a competitividade. Se o time perder a competitividade, corre o risco de não ter patrocinador e se não tiver patrocinador acaba o time.”
Felipe: Por que os Estados Unidos têm mais faci-lidade para revelar jogadores?
Hélio: Porque lá a criança na idade de vocês faz basquete, futebol, todas as modalidades de esporte nas escolas. Então há milhões de crianças fazendo esporte. Com 17,18 anos já estão preparados e viram estrelas.