08 de julho de 2026

Queijeiros aprenderam com o pai e avô


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Luciano Carvalho Machado, dono da Fazenda Esperança, em Medeiros, toma café com Canastra

Quem já teve um “dedinho de prosa” com um mineiro não consegue negar, eles são bons de papo. Simpáticos, na sua maioria, têm sempre um causo e um pedaço de queijo para oferecer.

A reportagem passou um dia na Serra da Canastra, percorreu mais de 600 quilômetros conhecendo a produção e conversando com produtores da região em duas cidades - São Roque de Minas e Medeiros. Nas três propriedades visitadas - Fazenda Agro-Serra, de João Carlos Leite, Fazenda do Zé Mário, de José Baltazar da Silva, e Chácara Esperança, de Luciano Carvalho Machado - a única fonte de renda são os queijos Canastra.

Os três proprietários viram seus pais, avós e bisavós fazerem o produto e aprenderam com eles. João Leite é agrônomo de formação, o único dos três que não produz pessoalmente o queijo que vende. O casal contratado por ele, José Filho de Faria e Ronilda Aparecida Faria, é responsável pela ordenha e fabricação do queijo da Agro-Serra.

José Baltazar, conhecido como Zé Mário, faz queijo há 52 anos. Produziu o primeiro aos sete e é um dos mais conhecidos queijeiros da região, tendo ganho dois concursos de melhor queijo de Minas Gerais. Hoje quem faz o famoso queijo é a mulher dele, Valdete Aparecida Alves, de 60 anos, que garante que o segredo é o carinho, o amor e a dedicação pelo que faz. Ela passa pelo menos sete horas trabalhando com o queijo todos os dias. Já o marido afirma que o seu bom queijo se deve à alimentação de suas vacas leiteiras, que só comem pasto, sem nada artificial.

A Fazenda do Zé Mário, segundo o dono, é totalmente sustentável. Tudo o que a família consome é produzido na propriedade. O sustento vem dos turistas que visitam a propriedade quase diariamente: os queijos são vendidos por R$ 25 a peça (são produzidos 15 queijos por dia).

O produtor Luciano quase fugiu da tradição. Ele chegou à serra da Canastra há 12 anos vindo da Zona da Mata, onde já produzia queijo. Seu plano, no entanto, era vender leite. “Fazer queijo é cansativo, você fica por conta dele o dia todo. Meu maior pesar aqui é não conseguir ter uma horta por falta de tempo.”

Luciano foi “obrigado” a voltar aos queijos por uma questão financeira. Vendido para cooperativas, o leite tinha o valor de R$ 0,30 por litro. Transformado em queijo, passou a valer R$ 0,55 na época. Ele não se arrependeu. Hoje seu queijo é um dos mais valorizados da serra da Canastra. O queijo do Luciano participou há poucos meses de uma feira de alimentos na Itália e despertou interesse por lá. É provável que, quando a venda for legalizada, o queijo passe a ser exportado.

Na serra da Canastra, os queijos custam de R$ 8 a R$ 200 dependendo do tamanho (de 300 gramas até sete quilos) e de onde é produzido.

RESTAURANTES
Restaurantes de todo o Brasil que querem usar o queijo Canastra fecham os olhos para a ilegalidade e compram o produto de Minas. O Mangiare Gastronomia e o Maní, ambos na capital paulista, são alguns dos que têm no cardápio pratos à base do ingrediente mineiro. No Rio de Janeiro, há, segundo João Leite, um chef de cozinha que desenvolveu um sorvete de queijo Canastra que já foi enviado para a indústria para testes de comercialização. O que atravanca, de novo, é a ilegalidade do produto fora de terras mineiras.