Você nunca se lembra, ou, talvez, nem saiba, mas há um gigante adormecido dentro de você
Certamente você se lembra pouco da criança que foi e que, infelizmente, deixou de ser. Digo ‘infelizmente’ porque, quando a criança que somos é vencida, castrada pelas normas e regras do mundo adulto, a gente perde muito, perde quase tudo. Perde-se a inocência. Nunca mais o olhar puro, ingênuo, capaz de confiar cegamente. O que aprendemos nos conduz a duvidar, a testar antes de confiar, a ter o pé atrás antes de estender a mão ao outro.
Perde-se o olhar curioso que conduz a descobertas, mesmo que a mão se queime, mesmo que o gosto seja ruim, mesmo que ruído nos assuste. Tornamo-nos logo um poço de arrogância, capaz de saber tudo sobre tudo, mesmo que – e sabemos – não sabemos nada de nada.
Perde-se o toque perscrutador, carinhoso, que afaga sem cobrar, inquirir ou machucar. Perde-se o sorriso aberto, a capacidade desbravadora, o choro verdadeiro. Amarramos o que de melhor temos quando o mundo condena nossa criança a permanecer trancada no empedernido coração de pedra que somos guiados a não abrir mão para alcançar o ter, e não o ser.
É essa criança que convido meus leitores e redescobrir, neste novo ano. Se conseguirmos que ela apenas se insinue em meio à louca vida que hoje vivemos, poderemos visualizar o que mundo novo apenas nos sugere. E é fácil. Brinque! Fabrique tempo para brincar, seja no escritório, em meio às planilhas, bancos de dados, documentos que não podem esperar, decisões estratégicas. Faça o mesmo em casa. Desligue a televisão da novela. Saia da Internet. Roube tempo do tempo que usa para discussões inócuas, sem sentido, rotineiras, que só causam dores, sensações ruins.
Vá atrás de bolinhas de gude, pega-varetas, de um pião. Perceberá, no início, que sua mãos endurecidas pela vida se recusarão, mas, insista! Logo se reacostumarão. Sente-se no chão, jogue bugalhos, desenhe com um pedaço de tijolo, a ‘maré’, ou ‘céu e terra’, ‘amarelinhas’ – seja lá como você chamava aquela brincadeira de jogar a pedra em um casa numerada e sair pulando sem por o pé na casa onde a pedrinha estivesse. Você vai chegar ao ‘céu’. Não trave a respiração. Integre-se à brincadeira! Se alguma lembrança gostosa voltar, pare, reviva-a intensamente. Brinque, mas, sobretudo, comece só, reapresentando-se devagar à sua criança interior. Ela vai gostar. Vocês vão adorar se rever!
Não permita que essa reaproximação seja vista pelo mundo adulto. Podem achar que você está se descontrolando. Só se permita ser visto por outras crianças. Se alguma. próxima, descobrir – seu filho, seu sobrinho, seu neto, seu bisneto – e quiser brincar junto, aceite correndo. A diversão será garantida. (Vou mais longe: pode ser que sua mulher, seu filho já adulto, seu amigo, ou amigos, resolvam também se jogar no chão para jogar bolinha de gude, ou ‘inventem’ de brincar de pique-de-esconder, como nos velhos tempos. Se acontecer, vibre. O efeito multiplicador será benefício para todos).
Os resultados, meus caros, serão extraordinários. O sorriso franco voltará. Coisas infinitamente menores que o prêmio da Mega-da-Virada se tornarão impressionantemente grandiosas. Seu olhar se abrandará. Você (até) se tornará capaz de ouvir o outro. Será um ser novo, metade exterior adulta e responsável, metade interior criança feliz. Juntos, serão imbatíveis.
Aliás, essa é a descrição do gigante do qual falei lá no início do texto. Não fossem as castrações impostas pelo status quo, haveria mais Edward Yudenich, a criança-gigante ai da foto, aos 7 anos regendo – isto mesmo, regendo! – a Orquestra do Conservatório do Uzbequistão. Aliás, convido-os a acompanhar o vídeo que o mostra em plena ação. Está no link desta coluna no portal gcn.net.br. Considerem um presente e uma convocação ao homem novo que cada um de nós podemos ser.
BOAS FESTAS
Votos de Feliz Natal e Ano Novo que recebi e retribuo: Amir e Narmem, ele, ex-delegado seccional de Polícia de Franca; Edward de Souza e Rita, Acir de Matos Gomes, amigo e irmão sempre presente e paciente; Jerônimo Ribeiro de Matos, Toninho Araújo, João Batista Lima, o JB da Francal, Estrutural e Padaria Estrela; Danilo Espuma; Sátiro Rodrigues Alves, médico à antiga, competente e presente; Patrick Furini Oliveira; Cláudio Antônio Borges e Silvia.
E AGRADEÇO MAIS
Valdes Rodrigues e Patrícia, que se lembraram de meu aniversário em suas colunas no Comércio; Paulo Rubens de Almeida, Everton Lima, o ‘tio Lima da Difusora’, que se lançou lá de sua mesa para me abraçar antes de todos; Cíntia Flávia; Gilberto Garcia, o vozeirão do ‘Saudade não tem idade’, que não sabia se me cumprimentava ou se gargalhava; Alex Cintra Chagas, da Estrutural, que não deixa de ligar esteja em São Paulo ou Nova Iorque; Ana Célia de Freitas, ex-conselheira do GCN; Antônio Roberto Torricilas, José Moacir e Ção, Emerson Silva, Lane e Uriel, Maria Helena Navarro e Jorge, Normando Paim e Rita.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br