2012 para 2013. Fixei o olhar na televisão e a profusão de cores e cintilações me atordoou, barulhos de foguetes, risos, gritos, música e canções - algumas conhecidas, outras nem tanto
Inebriada e confusa, abstraí-me. Quando dei por mim, a gentil telemoça dizia: Happy New Year! Happy 2013! O povão – presumidas duzentas e cinquenta mil pessoas – cantava em uníssono a Valsa do Adeus nas margens de cá do gelado Tâmisa, mão direita de um segurando a mão esquerda do próximo: imensa cadeia de vozes e coração a pedir paz, alegria, satisfação, saúde para todo mundo, no mundo. Vozes altas e sinceras.
Nas margens de lá, envolvendo a gigantesca London Eye e a clássica silhueta do Big Ben, o grandioso espetáculo, resultado da queima ao vivo de milhares de libras. Tinha mesmo que provocar milhões de cores. Depois do susto provocado pela ausência de segundos – Alzheimer? – deitei-me e, vira daqui, vira dali, projetei na tela da memória as mais significativas passagens de ano da minha vida.
As lembranças do tempo de solteira, melhor deixar de lado. A partir dos quinze, quando os pais autorizaram ir aos clubes francanos ou viajar para Uberlândia – onde três primos tipo pitbull acompanhavam de perto – era aquela coisa morna de não beber, fumar escondido, procurar os cantos do salão para cumprimento mais caloroso e saboroso no flirt (lembra disso?) do momento. Nada que comprometesse.
Anos 70. A memória salta de deixar campeões olímpicos com inveja, lá estou em 1971 para 72, devidamente grávida e impossibilitada de ir a bailes: prescrição médica. Televisão sem tecnologia suficiente para acompanhar uma por uma as comemorações no mundo (só a descida do homem na Lua, veja só!) e sem qualquer vestígio de sono, fiquei passando a mão na barriga entumescida, semirreclinada no sofá da sala, no escuro, marido dormindo no quarto. Fiquei ali, cumprimentando a criaturinha que eu produzia, sem saber se era ele ou ela. Primeiro filho, eu me achava carregando alguém da realeza. Quatro meses depois, nascia minha princesa.
Salto para 73. Destino Guarujá para comemorar desde a passagem do ano até o carnaval: malas, tulha, duas crianças pequenas, mãe, irmã, cunhada, marido. Voltei grávida. O terceiro filho nasceria no final daquele ano.
Pulo para o final de 1975. O Clube de Campo se preparava para o baile de encerramento do ano. Mal lembrava o quanto era bom dançar, beber champanhe, encontrar com amigos. Mamãe se ofereceu: traga os meninos, fico com eles. Saia, compre vestido bonito, sapatos novos, vá à cabeleireira, depois vá dançar um pouco. (E há quem fale mal das mães...)
Fui à boutique da Maria Inês, comprei vestido indiano azul escuro bordado em prata, sandálias de salto daquelas que hoje se eu puser fico parada tentando me equilibrar, já que dar um passo com elas é despencar de cima do meu orgulho. Cabelos de corte camaleão, penteado de forma a não mexer um cacho, de tanto laquê. Levei os meninos, voltei para casa, banho, cílios, rímel, batom vermelho, bolsinha de prata americana recém ganha, brincos pendurados, pulseiras.
Fui dar beijos na mamãe e nas crianças. Ao encostar no caçula, estremeci: febrão alto. Quem falou que tive coragem de sair? Nem para encontrar o Javier Bardem. Marido bicudo, coitado, ele também estava louco por uma farra, tirei os paramentos e nem voltei para minha casa. Não vi fogos, nem foguetes. Na manhã seguinte, nem a febre eu vi. Até hoje acho que foi estratagema que o então caçula, mimado, dizem as más línguas, encontrou para me prender em casa.
Anos seguintes. Teve muitos réveillons nos ranchos dos amigos, no Rio de Janeiro com direito a bis. Teve os memoráveis na antiga AEC e no Castelinho. Teve a fantástica comemoração na qual Gian & Giovanni fizeram o som na minha casa. Também em casa, o das fantasias. Entramos nos 2000 a mil, conforme anunciava a camiseta. Passei o ano em Paris, ao lado do Arco do Triunfo e em Istambul, na ponte sobre o Bósforo.
Nenhum, porém, mais significativo que o da última ida ao Guarujá, entre 80 e 90. Todos saíram para a praia. Liguei o rádio, não a televisão. Fiquei sozinha com o filho do meio – ainda eram só três – deitado no meu colo, febrão de quase quarenta graus: garganta, claro. Casa aberta, que naquele tempo podia, fiquei ligada na emissora paulistana para escutar a contagem regressiva e me dar conta que estávamos em um dos últimos anos 80, que faltavam menos de vinte para o mundo acabar. O locutor terminou de contar, anunciou e desejou aos berros ‘Feliz Ano Novo!’. Aí entrou a voz de Caetano cantando samba de letra lindíssima, que não conhecia. E é esse momento que guardo na gaveta mental chamada ‘Coisas pra não esquecer, mesmo que o alemão me pegue’...
LETRA
‘Peço a Deus um mundo cheio de paz, peço a Deus que alcance seus ideais, peço a Deus que a inveja jamais, peço a Deus pra sermos todos iguais. Peço a Deus pra te livrar da maldade, peço a Deus que me dê felicidade, peço a Deus que se propague a bondade, peço a Deus amor e prosperidade. De mãos dadas, peito aberto, rumo certo para o bem, pra lutar contra a maldade que este nosso mundo tem, viver uma vida mansa, sem ver o tempo passar, ter sorriso de criança, ver bondade em cada olhar: peço a Deus.’ (Mestre Marçal).
DESEJOS
Feliz Ano Novo com Paz, Realizações, Igualdade, Proteção, Amor, e Prosperidade. Que a criança dentro de nós se manifeste em cada atitude que tivermos com relação a Esperanças, Espontaneidade e Delicadeza e que a Bondade Interior nos deixe compartilhar tudo isso com nosso próximo, para que sejamos mais e mais generosos. Felicidades. Obrigada por estarmos juntos até aqui.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br