Nesta segunda-feira, 31, não haverá expediente na Prefeitura. Foi decretado ponto facultativo no município. No dia 1º, Sidnei Rocha cumprirá seu último ato oficial como prefeito ao transmitir o cargo para o afilhado político Alexandre Ferreira. Depois de oito anos seguidos acordando cedo e tendo uma longa agenda a cumprir pela frente, ele não terá o que fazer quando se levantar no dia 2. O motorista particular não mais estará a sua espera. Não haverá obras para visitar, ordens para serem dadas, nem papéis para assinar. O cidadão Sidnei não fez nenhum planejamento. “Sou o mais novo aposentado da praça. Vou ter que inventar alguma coisa para fazer.”
O terno e a gravata vão dar lugar à bermuda e às sandálias. Amigos o presentearam com varas de pesca e até colete salva vidas. Agitado como é, nunca foi o seu forte dar banho na minhoca. Mas Sidnei afirma ser prematuro falar em aposentadoria definitiva. Em princípio, não pretende voltar ao microfones de suas rádios. Embora as chances sejam mínimas, ele não descarta a possibilidade de voltar a disputar outra eleição.
Para não dizer que ele não está pensando em nada, há poucos dias comprou o Guia Quatro Rodas, publicação que seleciona e classifica hotéis, restaurantes e passeios. Sua ideia é colocar o mapa debaixo dos braços, pegar o carro e sair viajando sem rumo com a mulher, Diva.
Perto de completar 70 anos, Sidnei sempre teve uma vida voltada para os grandes compromissos. Agora, as decisões complexas, as visitas às obras, os compromissos oficiais e os sempre atentos assessores não existem mais. O rei foi posto e admite que sentirá falta dos dias agitados. “Por enquanto, não está dando aquele vazio. Vou encarando tudo com muita realidade. Quando você assume, tem que ter a consciência de que um dia vai embora. Obvio que não sou tão primário assim de dizer que não vou sentir falta. Certamente, haverá dias em que vou pensar que vou para a Prefeitura e não vou mais.” Os dias longe do poder devem ser ainda mais difíceis por conta de outra perda. Sidnei também teve que se afastar dos charutos, companheiros inseparáveis por quase 15 anos, por causa de problemas pulmonares. A cerveja também foi reduzida.
Sidnei Rocha entrou para a história como o prefeito que administrou a cidade por mais tempo. Foram dois mandatos de quatro anos e outro de quatro anos e dois meses. De acordo com cálculos de seus assessores, foram 4.444 dias na cadeira de prefeito. Ele não tem a resposta pronta quando perguntado sobre o que mais sentirá falta. “Não sei, não tenho ideia. Talvez, sentirei falta do dia-a-dia, das obrigações, da responsabilidade, que eram muito grandes.”
Em abril de 1987, Sidnei renunciou ao cargo de prefeito para assumir a presidência da Vasp em São Paulo. Carregou a sina de ter abandonado a cidade por quase duas décadas. Sofreu duas derrotas nas tentativas de voltar à Prefeitura e ficou afastado da vida pública por 17 anos. Deu a volta por cima em 2004 e se reelegeu em 2008. Acaba de eleger o sucessor.
Sidnei concluirá o segundo mandato com quase 94% de aprovação popular. “Eu não tenho medo de dizer que me considero, sim, um vitorioso, que fiz tudo aquilo que sonhei na vida. Podemos soltar foguetes em alto e bom som. A missão foi cumprida, muito bem cumprida. Nós conseguimos tirar a cidade do buraco.”
Quando retornou à vida pública ao vencer as eleições de 2004, Sidnei disse que o defuntão político havia ressuscitado. Em 2008, após ser reeleito, disse aos assessores que os primeiros quatro anos haviam sido de treinos e que o jogo estava apenas começando. Agora, não tem mais prorrogação. O jogo acabou. “O guerreiro vai repousar. Vai descansar um pouco para, depois, ver o que o guerreiro vai fazer.”