Desde pequeno, ele sempre soube que seria um artista. Mas nunca imaginou que ganharia fama e dinheiro pintando corpos em vez de telas. Wellington Cesar Veríssimo descobriu seu talento para as artes ainda menino. Aos oito anos, pediu para a mãe, uma dona de casa, matriculá-lo numa escola de pintura e desenho. Aos 20 já lutava para montar sua própria escola.
W. Veríssimo, que hoje é figura comum aos domingos na Rede Record, já trabalhou como sapateiro e frentista de posto. “Eu precisava ganhar dinheiro para pagar a minha faculdade de artes”, lembra. Seu primeiro trabalho de repercussão foi uma restauração de imagens da Igreja São Sebastião. “Eu fui convidado para fazer o trabalho. Nem entendia nada de restauração, mas fui estudar. Restaurei todas as imagens, que ficaram lindas.”
O trabalho lhe rendeu uma amizade que carrega para toda a vida. “Por causa da restauração, o dr. Clóvis [Ludovice, um dos sócios da Unifran] me procurou pedindo que restaurasse uma imagem portuguesa que ele havia comprado. Ele ficou impressionado com o meu trabalho e, como sabia que eu não podia pagar pelo curso de artes, me presenteou com uma bolsa de estudos. Foi um dos melhores presentes que já recebi.”
W. Veríssimo terminou o curso em 1994 e inaugurou, em um cômodo simples alugado de uma amiga, uma escola, que mantém até hoje. “Naquela época, era tudo muito simples, improvisado até. Mas eu tinha muita vontade de fazer algo diferente, de ensinar arte de um jeito novo.”
A fama veio um ano depois com o segundo lugar em um concurso de arte em São Paulo, em que levei um modelo masculino com o corpo todo pintado e concorreu como maquiagem artística. O prêmio lhe rendeu notícias na mídia e a ideia de procurar as redes de TV para mostrar a pintura corporal. Não demorou muito para conseguir apresentar seu trabalho. “Era tudo muito difícil naquela época. Eu não tinha dinheiro para bancar as viagens para São Paulo e ninguém pagava cachê. Muitas vezes, a gente comia apenas um lanche, mas eu tinha um sonho de levar meu trabalho para o mundo e acreditei nele.”
Hoje o artista plástico francano tem espaço cativo na Rede Record, de quem é contratado. Também ganhou fama no Carnaval de São Paulo. A ilustração de uma pintura corporal feita por ele em Juju Salimeni será a capa do livro da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo do ano que vem. Agora, ele quer alçar outros voos. Inaugurou uma loja de artesanato em Franca e sonha levar o negocio para além das fronteiras da cidade. “Quero abrir filiais aqui na região e em Minas Gerais.”
Comércio da Franca - Como a pintura corporal entrou na sua vida?
W. Veríssimo - Tudo começou em 1994, quando uma amiga minha, a Gisela Durval, me convidou para fazer o cenário e os figurinos de um espetáculo de dança no final de ano. Uma dessas danças era grega e tive a ideia de colocar três rapazes no cenário pintados como se fossem esculturas gregas de mármore. Naquela época, eu nem conhecia as tintas para pintura corporal. Tive que ir a uma farmácia para saber o que podia passar. Me recomendaram pasta d’água que eu misturei com corante de culinária. No dia do espetáculo, os rapazes fizeram o maior sucesso. As pessoas achavam que eles eram esculturas mesmo. Adorei ver todos comentando meu trabalho e resolvi me aperfeiçoar. Fui estudar as tintas e as técnicas.
Comércio - E como foi que suas pinturas corporais foram parar nos programas de TV?
Veríssimo - Depois desse espetáculo, eu fui convidado a pintar modelos para uma feira de calçados que aconteceu aqui em Franca. De novo, os modelos pintados fizeram o maior sucesso. Então, achei que era hora de levar meu trabalho para fora da cidade. Nessa mesma época, uma amiga minha que trabalhava com unhas artísticas me convenceu a participar de um concurso de beleza na Hair Brasil (feira de estética que acontece em São Paulo). Levei um modelo masculino com o corpo todo pintado e concorri como maquiagem artística. Acabei ficando em segundo lugar. Isso atraiu bastante a mídia. Tive a ideia de procurar os programas de TV. Meu assessor, Sérgio, já trabalhava comigo e me ajudou. Ele conseguiu uma participação no programa do Otávio Mesquita, na Rede Bandeirantes, e outra no da Luciana Gimenez, na Rede TV, mas sem nenhum tipo de remuneração, nem o transporte. Fretei um microônibus, coloquei uns oito modelos dentro. Falei para eles que só tinha o dinheiro para pagar o lanche, mesmo assim eles toparam porque era uma chance de aparecer na TV. Fomos todos para São Paulo.
Comércio - Hoje você é contratado da Record e tem um quadro semanal na emissora. Como foi esse pulo?
Veríssimo - Depois desses programas, eu recebi o convite da produção do Programa do Gugu, que na época trabalhava no SBT, para pintar o corpo de dez modelos ao vivo. Eu adorei. Quando cheguei, o produtor disse que eu precisava dar quatro pontos de audiência. Eu não entendi direito porque estava encantado com tudo. Cerca de 15 minutos depois, tinha que estar no palco. Achei que o Gugu iria me chamar e me apresentar, mas não. Eu entrei sozinho com as modelos e ele ficou em uma sala falando comigo apenas pelo microfone. Minha cabeça estava a mil, mas conforme ele ia conversando, fui me acalmando ficando mais à vontade. Eu sei que, ao todo, fiquei quase uma hora no ar e consegui 12 pontos no Ibope. Depois de um tempo, a produção do programa Gente que Brilha me ligou para eu participar. O programa era apresentado pelo Silvio Santos. Eu aceitei. O programa funcionava como um concurso, participei de nove programas, e acabei em segundo lugar. Depois participei do “Se vira nos 30”, do Programa do Faustão, e ganhei. Aí, começaram os convites. Acabei indo muitas vezes ao Programa da Eliana, na Record, porque sempre dava Ibope. Até que um dia, resolveram me contratar. Isso foi há uns quatro anos. Mesmo com a saída da Eliana, fiquei na emissora, trabalhando com a Ana Hickmman. Agora ela também está saindo e eu devo trabalhar no Programa da Tarde.
Comércio - Além da TV, hoje você ainda trabalha com arte?
Veríssimo - Sim, claro. Mantenho minha loja de artesanato aqui em Franca e a escola de arte. Mas, como minha rotina é bastante corrida, acabo me dedicando um pouco mais à TV.
Comércio - A pintura corporal mexe muito com o lado mais sensual das pessoas, já que é uma forma de exposição. Você já enfrentou algum tipo de preconceito quanto a isso?
Veríssimo - Não, muito pelo contrário. As pessoas se divertem com o meu trabalho. Primeiro, elas veem que é uma obra de arte, depois é que vão reparar no corpo. Algumas até duvidam que a pintura seja mesmo só tinta, muitas acham que é uma roupa colada. Eu adoro ouvir esses comentários. Muitas vezes, acompanho os modelos e os artistas nas ruas só para ver a reação das pessoas. Essa é a melhor parte do meu trabalho. Nunca recebi nenhuma crítica muito agressiva ou desfavorável. Mas até acho que existam pessoas que pensam que o que faço é vulgar. Acho que cada um tem o direito de pensar o que quiser.
Comércio - Você já trabalhou pintando muita gente famosa. Como é lidar com essas pessoas que estão constantemente na mídia?
Veríssimo - É um trabalho como outro qualquer, em que você encontra muita gente legal, mas também é obrigado a lidar com pessoas que preferiria manter distância.
Comércio - E de quem você manteria distância se pudesse? Quem é o artista que mais lhe deu trabalho na hora de fazer a pintura corporal?
Veríssimo - Tem pessoas que são muito complicadas. A gente que está fora desse mundo de artistas não imagina o que o sucesso pode fazer com uma pessoa. Tem gente que passa a ter atitudes que eu desaprovo. Passa a humilhar os outros. Isso é muito chato. Para mim, a missão mais difícil que eu já tive foi pintar o ator Theo Becker. Ele não é uma pessoal normal mentalmente. Ele não é bipolar, é tripolar. Me deu muito trabalho. Na hora da pintura, dava medo trabalhar com ele. O maquiador nem queria colocar a peruca que fazia parte do figurino.
Comércio - E qual artista foi a boa surpesa?
Veríssimo - No mesmo dia em que tive de pintar o Theo Becker, também acabei convocado para pintar o Léo Aquila, que, ao contrário do Theo, era uma doçura, supereducado, gentil. Nem tenho palavras. Outra pessoa que também me surpreendeu muito positivamente foi a Rita Cadilac. Não esperava que ela fosse tão agradável. Eu fiquei encantado com ela.
Comércio - Há cerca de um mês, foi lançada a capa da edição especial do livro com os sambas-enredo das Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, cuja ilustração é a foto da modelo Juju Salimeni com o corpo pintado por você. Como surgiu esse convite?
Veríssimo - É muito engraçado isso. Eu sempre digo que santo de casa não faz milagre. Eu hoje sou muito mais conhecido e reconhecido no Carnaval de São Paulo do que no de Franca. Se for para a avenida aqui, é capaz de me barrarem. Agora em São Paulo tenho o trânsito livre em qualquer local do sambodromo. Faz muitos anos que trabalho pintando as modelos para os desfiles. O pessoal da Liga conhece meu trabalho e sempre me convidou para trabalhar com eles, mas nunca deu certo. Até que, neste ano, as coisas se encaixaram e eu estou superfeliz.
Comércio - Falando em Carnaval, você costuma pintar muitas mulheres para os desfiles das escolas de samba. Para o ano que vem, como está sua agenda?
Veríssimo - A Ângela Bismarki vou pintar para o desfile de São Paulo e do Rio e também a Juju Salimeni. Ainda tem outras famosas que estão negociando. Minha expectativa é trabalhar bastante. Acho que nem vou conseguir respirar.
Comércio - E quanto custa uma pintura corporal para o Carnaval? Quanto tempo leva para pintar?
Veríssimo - Depende muito. O valor varia de acordo com o que a pessoa vai usar em sua fantasia. Normalmente, de R$ 1 mil a R$ 5 mil. O preço mais caro é quando eu uso cristais. A duração da pintura também varia muito, já cheguei a trabalhar por sete horas seguidas em uma modelo.