08 de julho de 2026

‘Sidinei’


| Tempo de leitura: 5 min

Não tem erro. É deste jeito mesmo, de forma bem popular, que as pessoas se acostumaram a dizer o nome do prefeito que se despede ao final deste ano

Conheço Sidnei há décadas. Esforcei-me para que ele fosse integrar o time de comunicadores da Rádio Imperador, início da década de 70. Lá estavam, comigo, José Rasteiro, Paulo Verzola, Carlos Grego, Patrícia, Valdes Rodrigues, Willie Mayer, Alfredo Alves, Wadi Salomão, Frank Luiz. Ele foi. Levou, na mala, seu ‘Boca no Trombone’.

Minha voz foi uma das escolhidas para impor respeito à abertura de seu programa. ‘Os fatos que perturbam a sociedade...’ e do ‘Vem aí, Sidnei Rocha, com a Boca no Trombone’, seguido do indefectível tema da série de televisão Hawai 5.0, até hoje, não me saem da lembrança. Agostinho Galgani, diretor da emissora, não pensou duas vezes para dar-lhe, rapidamente, a condição de diretor de programação. Gostou. Levou-o, também, a gerir emissora FM de sua propriedade em Uberaba (MG).

O ESTILO
Gerentão de fala dura e armada até os dentes, o moço conquistou espaços, amizades e inimizades com o mesmo vigor. As causas levadas a seu programa incendiaram a população. Não é à toa que Sidnei tem orgulho de sua vida radialista. Foi ela que lhe proporcionou a vereança e a Prefeitura.

A POLÍTICA E O OSTRACISMO
Lembro-me dele se preparando para sua campanha a vereador. Ao final de seus programas, havia filas na portaria da Imperador à sua espera. Elegeu-se, e foi o mais votado. Percentualmente, considerada a população da cidade na década de 70 quando sua eleição se deu, entendo que seja dele ainda hoje, tal mérito.
Daí a prefeito, foi um pulo. Inexperiente politicamente, cometeu o erro do qual se arrependeu amargamente e do qual se cobrou incontáveis vezes. Aceitou convite de Orestes Quércia - que lhe deu a presidência da Vasp certamente para tira-lo de seu caminho político, já que Sidnei crescia a olhos vistos em sua região do Estado. Mesmo sem o aval da Câmara, renunciou, deixou a Prefeitura e foi para São Paulo. Há muitos outros detalhes que cercam o caso, mas em resumo, foi isso. Seus fieis eleitores não o perdoaram e o relegaram a ostracismo político doloroso. Disseram ‘não’ a duas tentativas que fez para retornar à Prefeitura. ‘Sidinei errou com a gente’, era o pensamento da época. Determinado, aguardou.

O RETORNO E O APOGEU
Quando aconteceu o cenário que considerou adequado - a cidade sofria com falta de recursos, estava esburacada, administradores públicos enfiavam os pés pelas mãos apoiados em gestores que não haviam acertado o pé - Sidnei entendeu que a hora de nova tentativa tinha chegado. Fez diferente. Abriu mão de seu estilo centralizador e construiu arco de alianças de apoio. A cadeira de prefeito foi sua recompensa. Caneta na mão, quatro anos à vista e muito a fazer, retomou seu estilo locomotiva. O ‘defuntão político’, como se alcunhou à época, tinha ressuscitado.
Novo pleito político. Sua confiança era, de novo, a mesma de todas as ocasiões de sua vida. Recandidatou-se. Deu-se até o direito de não comparecer a debate contra seus adversários. ‘Pra quê? O povo quer que eu continue’. Estava certo de novo. Seus eleitores estavam de volta, convencidos pelo seu estilo, mesmo dizendo publicamente que em Sidnei não votariam jamais. Os números eleitorais contestavam: na hora ‘agá’, a da urna, era ele a ‘escolha dolorosa’, mas considerada adequada. Avisou a seus secretários: ‘É agora que o jogo vai começar’.
Conduziu como quis. Nas ruas, o jargão tinha voltado. ‘Sidinei é (f...)’. Comprometido com obras e determinado em modificar a cabeça das pessoas, chegou ao final de seu segundo mandato ainda com fôlego. Mexeu seus pauzinhos e escolheu candidato a continuar seu estilo na administração da cidade.
Lançou-se à campanha. Não coligou. Permaneceu distante das lideranças de seu próprio partido. Aliás, guerreou com elas. Perdeu colaboradores próximos. Assimilou. ‘A cidade quer que as conquistas continuem’, repetiu todo o tempo, como a um mantra. Comprou, para si, a briga eleitoral. Dizia, a quem quisesse ouvir, que a eleição seria ‘favas contadas’, que faria o sucessor. Calou estrategistas e parte da cidade que dizia não querer seu escolhido, por causa do que se considerava má gestão na Secretaria da Saúde... Fez.
A pergunta, simples, antes da eleição, era: ‘em quem você vota?’ A resposta era imediata: ‘Voto em fulano, ou beltrano, mas, não estou convicto’. Por consequência, havia uma segunda inquirição: ‘se Sidnei pudesse ser reeleito, votaria nele?’. A maioria dizia que sim. Transferiu votos. As urnas confirmaram. Alexandre Ferreira, o ex-Secretário de Saúde que parte da cidade contestava, estava eleito.

O FUTURO
Pois bem. Sidnei deixa a Prefeitura dia 31. É personagem histórico, sobre o qual gerações falarão, tema que políticos atuais e futuros discutirão por anos, visando destrinchar o estilo, o jeito, virtudes e deficiências. Política e partidarismo de lado, o Sidinei, como o chamam os simples, tornou-se 94% de unanimidade desta cidade, e as pesquisas confirmam. Daqui em diante, é a referência a ser alcançada e sobrepujada. O que não será nada fácil.
Para tentar, Alexandre vem ai. É técnico, menos político, mas também focado e determinado. Aprendeu muito com a proximidade de Sidnei. Desejo-lhe que seja rapidamente reconhecido, que os francanos se sintam bem com sua administração, e que o brindem logo com o ‘Alexandre (também) é (f...)!!!’
Quanto a Sidnei, depois do descanso que disse, fará, certamente seu temperamento elétrico e determinado deverá ocupar espaços - arrisco-me - no governo do Estado, em alguma posição executiva. Legislativa não, porque essa não é a dele e nem a de sua caneta.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br