Tenho seis livros escritos e editados, dos quais quatro são “comerciais”, ou seja, estão (ou deveriam estar) à venda nas livrarias. Para cada um tenho uma história terrível sobre relacionamento entre editoras, distribuidoras e livrarias. O sistema de edição e distribuição de livros no Brasil é ultrapassado, caro, burro e está piorando, pois a distribuição fica cada vez mais concentrada nas mãos de menos gente, mais poderosa. O resultado é produto caro, distribuição deficiente e péssima remuneração aos autores, além da discutível capacidade de escolha de conteúdos relevantes. Basta ver a lista dos dez mais da Veja...
De cada livro vendido por R$ 35, o autor recebe em média R$ 3,5. Do restante, cerca de R$ 4 ficam na gráfica que imprimiu e R$ 8,5 remuneram a editora, que produz o livro e teoricamente faz o marketing. Cerca de R$ 19 ficam no sistema de distribuição, especificamente livrarias que vendem ao público. Se você receber pelo correio, pagará em torno de R$ 10 por frete. O livro custará R$ 45.
Do livro que você recebeu em casa pelo Correio, o escritor fica com 7,8%. Quem produziu, fica com 28%. E quem distribuiu, com 64%. É neste cenário que livro que vende 4,5 mil cópias num ano é considerado best-seller num país com 200 milhões de habitantes...
Muito bem. Essa conta perversa prometia ser eliminada com o surgimento de e-books. A tecnologia traria ganho fantástico ao eliminar impressão, custos de mão de obra, tinta e papel, além da logística com correios, eliminação de estoques e brutal redução de espaço nas lojas. Custo de distribuição praticamente zero, que maravilha! Previa-se uma revolução! Houve quem apostasse que os preços dos livros cairiam por volta de 60%!
Pois os e-books foram lançados e a tal revolução não chegou. Aguardei com interesse a vinda da poderosa Amazon ao Brasil, o que prometia quebrar paradigmas. A negociação com as editoras foi demorada e ficou fácil prever que teríamos um não-acontecimento. Não deu outra. Chegou a Amazon. Os livros vendidos a R$ 35, são oferecidos como e-books por R$ 25. O autor fica com R$ 2,5 por cópia. A esperada redução não aconteceu...
Não dá para compactuar com isso. Não dá para assistir as mesmas práticas deletérias sendo transportadas do mundo analógico para o digital. Não dá para continuar tendo o autor como o elo mais frágil, mal remunerado e desimportante da cadeia. Isso é desestimulante, brochante. Por isso tomei a decisão de comprar uma briga que vai me custar caro. Estou colocando os livros que escrevi e cujos direitos eu possuo para e-book, à venda em meu site www.portalcafebrasil.com.br, praticamente pela metade do preço dos e-books que “eles” estão oferecendo. No meu site não haverá intermediários, não haverá custos extras. Venderei menos do que venderia através de canais tradicionais, mas ganharei como autor, muito mais, e entregarei produto mais barato aos leitores, num nível de preços que acho justo: quase 1/3 do preço do livro em papel, que é aquilo que imaginei que seria proporcionado pela tecnologia.
Quer saber? Quem me importa é quem me lê, quem está em busca de ideias, de conhecimento, de inspiração, de provocação. É para esses que eu devo satisfação. Os outros gostam menos de livros que de dinheiro.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista