Desde o momento do nascimento, o ser humano aprende. O processo dura a vida inteira, só termina com sua morte
Dá inveja dos bem antigos, com circunstâncias limitadas e frustração proporcional - se é que percebiam que jamais conseguiriam dominar todo o conhecimento de suas tribos. O homem moderno sofre horrores neste sentido. Não conseguimos mais acompanhar, muito menos assimilar os novos conhecimentos que surgem e acrescentam algo ao que já existia, por vezes até anulando o que era dado como certeza. Eles chegam aos milhares, por todas as vias, de todos lados, a todo momento, multiplicam-se geometricamente. A velocidade da passagem do tempo, a intensidade das informações, transformações que provocam fizeram de nós meros acompanhantes do progresso. Falo por mim: não dou conta de ler tudo que é publicado; não consigo ouvir tudo que é composto e gravado; não consigo ver todos os filmes que são lançados - muito menos reler obras; repetir a audição das músicas preferidas; rever filmes. O pior – com memória prejudicada pela idade – não raro me esqueço de coisas, fatos e nomes dos quais gabava armazenar. O terapeuta dá pito: ‘Você é ávida, gananciosa, insaciável, ambiciosa e arrogante demais. E sua frustração vem mais temperada com tais ingredientes que com falta de capacidade de acompanhar o conhecimento humano. Chega a hora em que devemos ser mais humildes e fazer as coisas do que jeito que temos condição de fazer.’ (Ele fica odioso quando me tira o véu de deusa da sabedoria!)
Ao se comemorar o centenário do nascimento de Luiz Gonzaga, voltaram-me à memória, aos pedaços, letras de suas maravilhosas canções que aprendi menina ainda. Recolhi os pedaços, tirei a fuligem e poeira, lustrei e me peguei a apreciar o querido e talentoso sanfoneiro. Momento de gratidão pelos ancestrais - avós e pais: a formação de gosto musical que me fez eclética e tolerante: acompanho óperas, xotes, boleros, sambas, baiões e melodias clássicas com a mesma versatilidade, o que me faz ir de Bach a Milionário & José Rico com ligeira parada para reconhecer Maria Callas e Inezita Barroso... (Conhecimento basal, mas ainda assim, conhecimento...) O brasileiro do Brasil de baixo, benza-o Deus!, despertou para a beleza e riqueza de nossa cultura. O do Brasil de cima jamais desprezou ou esqueceu Luiz Gonzaga. Prova disso são as festas juninas realizadas no nordeste, nas quais predominam tradições, folclore e repertório ligado às nossas raízes simples e alegres que ele divulgou, assessorado por Dominguinhos, Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Raul Seixas, Caetano, Gil, Lenine - o elenco artístico nordestino é fabuloso, rico, farto, imenso e extenso.
São composições de Luiz Gonzaga que faço questão de reter na memória, pois embalaram dias antigos e alegram os atuais: Xote das Meninas, Capim Novo, Cintura Fina, Cortando o Pano, Derramaro o Gai, Juazeiro, Pagode Russo, Qui nem Jiló, Seu Januário, Uma pra mim, uma pra tu, ABC do sertão, Asa Branca, Baião de dois. São muitas parcerias, duas delas bastante expressivas: com Júlio Dantas e Humberto Teixeira – e mais de setecentas composições nas quais exalta, através de versos e músicas, os encantos que o nordeste possui. Entre todas, escolhi aquela que deveria ser escutada pelos políticos brasileiros, especialmente os que, mesmo tendo nascido por lá, se esqueceram o que é vergonha na cara. Vozes da Seca.
LETRA
‘Seu doutô os nordestino têm muita gratidão pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão. Mas doutô, uma esmola a um homem qui é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão. É por isso que pidimo proteção a vosmicê, home pur nóis escuído para as rédias do pudê. Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chuvê. Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê. Dê serviço a nosso povo, encha os rios de barrage, dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage. Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage lhe pagamo inté os juru, sem gastar nossa corage. Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão, quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação! Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão, como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãos.’
FRAGMENTOS
‘Gonzaga se vestia com roupa de couro dos vaqueiros e levou para a música o aboio, jeito ritmado do homem da caatinga se comunicar com o rebanho. Paulo Vanderley, pesquisador, lembra a relação de suas músicas com o universo do sertanejo: ‘A discografia de Gonzaga é uma enciclopédia. Quero tal assunto. Você procura lá e encontra algo, diz. No ano do centenário, ele recebeu o primeiro título de Doutor Honoris Causa in Memoriam, da Universidade Federal Rural de Pernambuco: consagração ao artista do povo que revelou aos brasileiros um pedaço do País chamado sertão.’
GAUCHÊS
‘Eis que surge lá no fundão da estância após se entreverar por várias coxilhas mundo afora, loco de buenacho, o Índio Noel! Montadito em sua charrete cheia de presentes, que mais parece um mascate vindo do Uruguai, para provavelmente celebrar o nascimento do piazito do peito, Gaudério dos pampas chamado Jesus, filho de Dona Maria, flor de rezadeira e do Seu José, um carpinteiro loco de bom. Piazito que veio para salvar toda a indiada perdida pelas carrera da vida! Que neste Natal ele traga paz, saúde e prosperidade a todos maragatos, ximangos e viventes de todas as várzeas e coxilhas. Que o amor rebordeie pelos potreiros deste chão! E, para ti, um baita quebra costela, tchê! Um 2013 tri legal! Que para ti, vivente, seja um ano espraiado e de muitos pilas na guaiaca e muito fandango de galpão.’ (Autoria desconhecida. Enviado por Júlio Schreck, amigo gaúcho.)
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br