08 de julho de 2026

Oscar Niemeyer


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O ano: 1968. O Brasil vivendo, infelizmente, restrições das liberdades individuais impostas pela ditadura militar aqui instalada em 1964. Saímos de Cássia, eu e meus pais, Luiz e Zazá, com destino a Brasília. A viagem objetivava conhecer a capital da República que representa muito para os mineiros, em face do arrojo e da determinação de um homem que esteve à frente do seu tempo: Juscelino Kubitschek de Oliveira. Brasília e eu, naquele ano havíamos completado 8 anos. Eu nasci em novembro de 1959. Brasília foi inaugurada em abril de 1960.

A viagem despertou em mim grande interesse. Afinal ia conhecer a capital erigida em quatro anos, em pleno cerrado goiano. Minha família, ligada ao antigo PSD, era aficionada em JK. Assim, desde bem pequeno, ouvia em casa, com ufanismo, o famoso slogan: ‘quarenta anos em quatro’ e a constante repetição dos feitos daquele estadista que se preocupou em colocar o Brasil na modernidade.

Durante a viagem, procurei ter sempre um olhar misto de curiosidade e admiração. Lembro-me bem que, entre Goiânia e Brasília, passamos por uma comunidade indígena que vendia seus produtos artesanais às margens da rodovia. Fiquei extasiado. Só conhecia índios dos filmes de faroeste americano exibidos no Cine Teatro Santa Cruz.

Chegamos bem à noite e nos hospedamos em hotel que estava parcialmente inacabado. O refeitório ainda era de madeira. Brasília, embora já com 8 anos, ainda era um canteiro de obras. No dia seguinte, fizemos um passeio pela cidade. Fomos conhecer as principais avenidas, praças e, principalmente, os prédios públicos desenhados por Oscar Niemeyer.

Meus pais, durante o percurso, iam me esclarecendo que a cidade tinha o formato de uma aeronave, e que foi projetada pelo engenheiro Lúcio Costa. Porém, os edifícios foram arquitetados por Oscar Niemeyer, o mesmo que, algum tempo antes, havia desenhado o complexo da Pampulha de Belo Horizonte para seu prefeito da época, Juscelino Kubitschek.

Fiquei deslumbrado com tudo. Embora criança tive a exata sensação de estar em uma cidade do futuro. Sim, pois, até então, minha ideia de arquitetura era a de linhas retas. Os monumentos de Brasília privilegiavam as curvas, chegando, em alguns casos, a desafiar a própria lei da gravidade. Meu deslumbramento foi tamanho que, inadvertidamente, me distraí e cai em um lago próximo a um busto de JK. Tenho em casa, uma foto em preto e branco comigo todo ensopado.

No dia 5 deste mês, o mundo perdeu Oscar Niemeyer. Fazendo as contas, constatei que ele tinha, quando Brasília foi inaugurada, exatamente a idade que tenho hoje: 53 anos. Outra mera coincidência. Com seu passamento, o mundo perdeu o grande homem e o arquiteto inigualável. Porém, suas obras – mais de seiscentas – estão espalhadas por várias partes do mundo. Assim ele se torna imortal, pois todo homem é imortal quando o fruto do seu trabalho permanece.

Setímio Salerno Miguel
Advogado Empresarial e Professor da Faculdade de Direito de Franca