08 de julho de 2026

República, a estuprada...


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República era, então, uma garota pré-adolescente em questões democráticas quando fora adotada, ou se fez adotar, por um carismático. Este, com todo jeitão de gente boa, meio bonachão, com um histórico de verdadeiras epopeias em favor dos mais pobres e oprimidos trabalhadores, era um daqueles lideres que de vez em quando a história nos apresenta.

Sempre ditava, em ocasiões especiais, palavras e frases de efeito que, no dia seguinte, eram manchete em vários periódicos e levavam, quase todos, a um verdadeiro delírio.

Falava tudo aquilo que a insaciável multidão gostava de ouvir. Gostava também, é certo, de criticar o responsável anterior pela garota. Dizia que ela vivia, de toda sorte, mal cuidada, sendo explorada pelas elites dominantes e pelo sistema financeiro, que dela, da garota República, cobravam juros e taxas escorchantes, transformando-a em verdadeira escrava das oligarquias financeiras e dos latifundiários de plantão.

Era, na verdade um sofista, mas chamou a atenção de alguns intelectuais que viam, no adotante da República, uma chance de testar suas mais variadas teses. Passou a afagar a garota com mimos de toda a ordem, bolsas disso, bolsas daquilo e bolsas daquilo outro, sem a necessária contrapartida. Livrou-a de certas elites; criou novas, aliou-se a outras tantas. Passou também a receber afagos e mais afagos, embora inocentes afagos, por parte de República.

Mimou-a de modo tal que, inebriada pelas gentilezas e benesses e crescendo no ritmo alucinado da puberdade, cegou. As carícias e mimos avolumaram-se. De promessa de bom cuidador, passou a mostrar-se como o verdadeiro paizão de República. Por não ter, anteriormente, tais mimos, cega pelas benesses que aparentemente a cercavam, não percebia as reais intenções dos carinhos.

Era, na verdade, uma inocente num corpão de gente grande. Era seviciada sem saber o que significavam as sevicias. Fora, na verdade e de fato, pelo carismático, por longos anos estuprada. Não sabia, coitada!

Precisou atingir a maioridade, e, só depois de mais de oito anos imolada, começou a perceber que o paizão dela não cuidava. Barbarizava! Descoberto em suas safadezas, nega como lhe é peculiar negar.

Tenta calar quem lhe dava manchetes. Tenta desqualificar quem lhe terá que finalmente julgar. No mais, como tantos outros estupradores, nunca viu nada, nunca ouviu nada, não sabe de nada, não é com ele. A culpa é de República, essa ainda quase garota que agora, diz ele, insiste em não tomar jeito!

Ah, e tem um monte de gente que ainda culpa a República, taxando-a de oferecida; de mal agradecida Pátria Amada, Brasil!

Éder Silveira Brazão
Advogado, conselheiro deste jornal