10 de julho de 2026

Grupo resgata histórias da ditadura para construir videodocumentário


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Grupo do Ipra, de Franca, filma depoimento de Cleiton Souza, um dos cortadores de cana que achou os documentos

Uma brincadeira entre cortadores de cana-de-açúcar resultou na descoberta de documentos inéditos da época da ditadura militar no Brasil (1964-1985) envolvendo pessoas da região. Algumas foram presas e torturadas durante o regime.

Após almoçar, Cleiton de Oliveira Souza, José Osvaldo da Silva e Lemes Carlos Ribeiro descansavam embaixo de uma árvore numa fazenda em Jaborandi (SP), quando um deles desafiou os outros a entrar na casa da propriedade, que pertencia a Tácito Pinheiro, um antigo delegado do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). O local era tido na região como mal assombrado.

Eles resolveram entrar no imóvel abandonado e encontraram um conjunto de documentos. Cleiton era estudante do curso de história na Fafibe (Faculdades Integradas de Bebedouro) e decidiu levar alguns papeis para a instituição. Ele mostrou para um de seus professores, o historiador Tito Flávio Bellini, que logo percebeu a importância do material encontrado na casa. Tito Flávio retornou à fazenda, recolheu o restante dos documentos e digitalizou todo o acervo. Depois de notificar o Ministério Público Federal sobre a descoberta, os documentos foram encaminhados para o Arquivo Público do Estado de São Paulo.

O encontro da documentação ocorreu em 2007 e, desde o ano passado, o Ipra (Instituto Práxis de Educação e Cultura), de Franca, desenvolve o projeto Memórias da Resistência, que produz um documentário, um livro e um portal relacionados ao regime militar no Brasil. O livro seria lançado na noite de sábado, dia 8, em Franca.

O acervo achado na fazenda de Jaborandi inclui 110 fichas de perseguidos políticos, processos da Corregedoria da Política Civil, Manual de Subversão e Contra-Subversão do Exército Brasileiro, além de envelopes de correspondências e panfletos de movimentos estudantis.

“Nas fichas, há perseguidos políticos envolvidos na invasão pela polícia ao Crusp (conjunto residencial), da USP em São Paulo, e integrantes da Faln (Forças Armadas de Libertação Nacional), um movimento guerrilheiro organizado aqui na região, em Ribeirão Preto”, disse Pedro Russo, produtor do documentário.

As equipes do Arquivo Público de São Paulo e do Ipra destacam o ineditismo dos documentos. “São inéditos, primeiro pela forma como foram descobertos. São documentos públicos oficiais que estavam em uma propriedade particular, na fazenda de um delegado, o que comprova a prática de ocultar documentos na época. Segundo, porque são fichas pertencentes ao DOP (Departamento de Ordem Política)”, disse Tito Flávio, que é coordenador do Ipra.

Antes de receber as fichas do DOP, o Arquivo Público do Estado possuía apenas fichas do DOS (Departamento de Ordem Social) do Dops.

As fichas encontradas na fazenda listavam nomes, filiação e indicavam a atividade política de cada um. A equipe do projeto conseguiu localizar alguns dos personagens, entre eles presos políticos que foram torturados, para as entrevistas. “O grande mote do nosso trabalho é: ‘para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça’. A importância da gente fazer esse projeto e de manter uma rede para discussões sobre a ditadura militar e as torturas e repressão que aconteceram é tornar o assunto visível, é não deixar que se repita”, disse Marco Antônio Escrivão, diretor audiovisual do documentário.

PATROCÍNIO
O projeto Memórias da Resistência é patrocinado pelo Ministério da Cultura, via Edital de Pontos de Mídias Livres. O órgão vai repassar R$ 100 mil para o trabalho da Ipra. O valor, com o reforço de outras parcerias, possibilitará a produção do videodocumentário, do livro e do portal.