08 de julho de 2026

A ‘rua’ Brasil


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Meu pai Domingos Tristão Lima, nascido em 1905, foi homem observador e atento à história de Franca. Foi ele quem me apresentou à ‘avenida’ Brasil

Passávamos por lá de ônibus, aos domingos, rumo à missa das onze horas da Capelinha. Parte do percurso ainda era em terra e, nas imediações ficava a ‘coreia’, a zona do meretrício. Na época, andava-se pouco de ônibus. Os percursos eram feitos à pé. Aos finais de semana, com ele e com minha mãe, conheci cada centímetro do bairro onde residíamos, a Cidade Nova. Contavam-me sobre locais, pessoas. Eram aulas fantásticas. Era o final da década de 50. Meu pai se orgulhava do traçado geométrico perfeito, das ruas e avenidas largas. ‘Aqui, tudo se ampliou, contrariando a rotina das ruas estreitas do centro, criadas para a passagem de ‘duas carroças, uma indo e outra voltando’. (Aproveitei as lembranças e e conversei, ontem, quando escrevia a coluna, com a arquiteta Linda Saturi. Ela defendeu tese sobre a ‘Cidade Nova’, na Unesp. Contou-me que a ‘criação’ do traçado geométrico do bairro foi concebido pelo engenheiro Ernesto da Silva Paranhos, para projeto de lei apresentado à Câmara Municipal em 28 de novembro de 1892 pelo vereador Pereira Machado. Era prefeito na ocasião, o Cel. Francisco Martins Ferreira da Costa. "Só em 1954, sua avenida principal, a ‘Francana’ – que se tornou, mais tarde, a Presidente Vargas –, começou a receber asfalto.”)

Voltando à ‘viagem’ que eu fazia aos domingos em direção à missa da Capelinha, o ônibus virava na Brasil e ai, meu pai me pedia para concentrar e lhe dizer o que havia de diferente, em relação à avenida Presidente Vargas que tínhamos acabado de deixar. Lembro-me da primeira vez em que lhe respondi com correção: não tem a mesma largura, não tem canteiro central. “Exato”, disse ele. “Não é uma avenida. É uma rua, mais propriamente, uma estrada, a que liga Franca a Ibiraci.” E completou: ‘o espaço de trânsito tem, praticamente, a mesma medida das ruas da Cidade Nova, e não há canteiro central. Erraram, quando deram nome. Tinha que ser rua. Deram o nome Brasil porque é a principal desta região. A partir dela, as ruas laterais ou paralelas tomaram os nomes dos Estados brasileiros”.

Estava certo o meu velho. Parece que ele se preocupava com o que viria. Tratada como ‘avenida’, a rua Brasil haveria de ter problemas. O que ‘gruda’ na mente das pessoas, dizia ele, é o que vale. Então, minha gente, a ‘rua’ Brasil não é avenida! Não dá para colocar, como diz a sabedoria popular, Franca dentro de Restinga. Não dá para fazer duas pistas de rolamento lá, a não ser acabando com o estacionamento lateral de veículos. Não cabe canteiro central. Ruas com a mesma largura, na Cidade Nova, têm mão única de direção.

Registro dois fatos para ajudar no processo de discussão: havia o mesmo problema na ‘avenida’ Santa Cruz, a rua que passa defronte o SESI. Técnicos enfrentaram a gritaria e decidiram cravar mão única de trânsito até o trecho que, bem mais tarde, foi construído já com mão dupla, em direção à saída para Ibiraci. O caso da Brasil, é igual. Só depois da avenida Alagoas é que a pista se alarga, em direção ao Jardim Paulistano.

O caso é grave. É preciso aceitar a realidade. A Brasil, até à caixa d’água da Sabesp, não é avenida. Quem se meter a contestar isso só ampliará o problema. Pior: arranjará lenitivos para concluir tristemente depois, que o local se tornou o principal ponto negro de acidentes com mortes da cidade. Chega de faixas, discursos, mirabolâncias. Mágica não existe. É só ilusão de ótica.

NÃO É RAZOÁVEL
Este Comércio publicou, em 30 de novembro, ‘Edital de Convocação’ assinado pelo Secretário de Urbanismo e Habitação de Franca, convidando/convocando para Audiência Pública a acontecer dia 14 deste mês, na sede da Secretaria, ‘interessados’ para a ‘aprovação de comércio varejista e atacadista de mercadorias em geral, com predominância de produtos alimentícios, (...) na avenida Dr. Flávio Rocha, 4215, esquina com Moacir Vieira Coelho”. Trocando em miúdos, trata-se de encontro pública para analisar possibilidade de instalação, ou não, de filial do hipermercado Tonin no endereço citado.
Espantei-me. Puxei pela memória. Não me lembrei de nada similar quando houve a instalação da primeira loja dessa empresa, na avenida Champagnat; ou do Makro, erguido em frente ao Castelinho, ou do Wal Mart e do Carrefour, e, mais recentemente, no prédio desfigurado da AEC Centro transformado em sede a um comércio de materiais de escritório. Apesar de razoavelmente bem informado, não encontrei nada do tipo em minhas lembranças, que houvesse acontecido antes dos eventos. Depois, gente gritando, sim.
Estiquei o livre pensar. Se é questão de prever como grandes obras vão conviver com a população, tudo certo. A administração pública tem que analisar o impacto de grandes edificações quanto à infra-estrutura (trânsito, sistemas de águas e esgotos, instalações elétricas adequadas etc) e meio ambiente.
Todos se lembram das pendengas que se produziram quando do anuncio de viaduto na região do Fórum e, da construção do condomínio Franca Garden, na avenida Santa Cruz. Tempos políticos ou não, as discussões aconteceram, obras já licitadas ou em andamento.
Penso, porém, que filosofias públicas acerca de regras ou normas para construções de grande porte, deveriam diferir de instalações de empresas privadas. Tem que se garantir o direito à livre iniciativa. O Tonin, para ficar no caso deste comentário, abrirá em torno de 140 vagas e, acredito, estudos realizados, escolheu a região do Jardim Redentor como seu foco.
É preciso discutir se isso deve se dar, ou não? Fontes da Prefeitura disseram-me que ‘é assim que se tem que agir, para evitar problemas futuros’. Outras fontes disseram que ‘é preciso praticar o que o Estatuto das Cidades exige. Então, que se comece’. Então tá. Tomara que não signifique precedente capaz de afugentar planos de crescimento de empresas que aqui se instalaram ou que pensam em. Pode até ser a lei, não é razoável.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br