Inspirando-se em farta documentação e obras biográficas, a escritora Susan Sellers encarou o desafio de erguer um romance ficcional a partir da relação complicada de duas mulheres de excepcional talento artístico- uma para a pintura, outra para a literatura. O assunto poderia ser adjetivado como corriqueiro e até banal, não fossem protagonistas duas personalidades singularíssimas como Virgínia Woolf e Vanessa Bell.
Inglesas de classe média alta, elas viveram com intensidade seus afetos, amores, discórdias, raivas e frustrações, perdas e lutos, sucessos e fracassos. Nesse amálgama de sentimentos que costumam transformar a alma dos artistas em caldeirão de turbulências, nunca romperam seus vínculos.
Vanessa (1876) e Virgínia (1882) eram filhas de Sir Leslie Stephen, homem brilhante mas de gênio difícil, e de Julia Duckworth, mulher de lendária beleza. Tinham dois irmãos. Thoby, a quem mimavam e adoravam, e cuja morte, aos 17 anos, deixou-as devastadas. E Adrian, o caçula. Julia, ao se casar pela segunda vez, levara dois filhos, George e Gerald, para o novo lar. Num relato dos anos maduros, Vanessa revelaria que fora molestada sexualmente por seus dois meios-irmãos.
As filhas dos Stephen tiveram educação primorosa, com ênfase em línguas, matemática, história, literatura, música e pintura. Estudaram em casa, no prédio onde moraram por cerca de trinta anos, em Hyde Park. Depois da morte dos pais, venderam a casa e se mudaram para o bairro boêmio de Bloomsbury, onde conheceram não só seus futuros maridos, mas também outros artistas, escritores e intelectuais com quem formariam o Bloomsbury Group, de importância seminal na reinvenção da arte literária em língua inglesa.
Já admirada por seus retratos e paisagens, Vanessa se casou em 1907 com Clide Bell e ambos mantiveram um relacionamento aberto a vida toda. Virgínia Woolf, que começara a se fazer conhecida por suas resenhas literárias no Guardian, casou-se com Leonard Woolf, editor renomado, com quem fundou a Hogarth Press, responsável pela publicação dos romances de Catherine Mansfield, dos poemas de T.S.Elliot e dos primeiros ensaios de Freud.
Virgínia deixa transparecer sua frigidez sexual e se envolve com mulheres, sob beneplácito do marido, que a adorava. Vanessa dá à luz três crianças, a terceira, filha do crítico de arte David Garnett, sobre quem Virgínia escreverá em anos posteriores. Reunida com o grupo de Bloomsbury, que incluía Aldous Huxley e Keynes, Vanessa permanece algum tempo no campo, em Sussex, pintando para o projeto Oficinas Ômega. Neste período Vírgínia publica Viagem, livro de que se arrependerá. Lê muito em busca de um registro novo para si. Este só será conquistado em Mrs Dalloway, onde a exploração do fluxo de consciência fixa-se como elemento diferencial. Depois viriam Orlando, As Ondas, Flush, Os Anos. Em 1941 se mata entrando no rio Ouse. Deixa dois bilhetes de despedida- um para o marido, outro para a irmã, pessoas a quem dizia amar. Tinha 59 anos. Vanessa, seis anos mais velha, sobreviveria mais duas décadas.
Com tintas impressionistas e grande sensibilidade na captação de estados de alma, Susan Sellers vai colocando todos estes dados no relato que ergue sobre a vida das duas formidáveis mulheres rendidas à força do estético. O trecho que se segue é exemplar da delicadeza alcançada por Sellers em todo o livro:
“Queria recriar a aura daqueles dias. A presença controladora de Papai(...) Mamãe sentada escrevendo em sua escrivaninha, preocupada, indefinível.(...) No fundo da pintura veem-se salpicos do céu prateado (...) Mamãe, Papai e nossos meios-irmãos, George e Gerald, estão atrás de nós (...) Adrian, ainda bebê, dormindo no berço. O braço de Thoby se estende além do meu, em busca de um brinquedo (...) Você está no centro desta pintura. E parece ter sido pintada com uma paleta diferente. Seu cabelo parece entremeado pelo vermelho do fogo, o vestido com listras do prateado céu. Você se sobressai da escuridão monótona do restante. Não consigo dizer se esse destaque lhe foi imposto ou se é algo que você mesma buscou.”
É uma fala de Vanessa, narradora onisciente. Como se percebe, o livro quer-se declaração de amor desta à Virgínia. E assim deve ser lido, sob o ângulo do olhar apaixonado que traz implícitas ambiguidades.
O DISCURSO DO GÊNEROO discurso de gênero
Susan Sellers
Professora de língua e literatura inglesas na Universidade Saint Andrews, Susan Sellers dedicou grande parte de sua vida ao estudo e à tradução da chamada literatura feminina enquanto discurso e mecanismo de libertação. Ela é autora de uma pesquisa de excelência chamada Mito e Conto de Fada na Ficção Contemporânea de Mulheres, publicado em 2001 pela editora Palgrave. Também de grande relevância acadêmica é seu estudo Uma história da Crítica Literária Feminina, publicado pela Universidade de Cambridge.
Com tais perfil e trajetória, nada mais natural então que essa participante ativa do movimento de valorização da mulher se encantasse pela saga das irmãs Virgínia Woolf e Vanessa Bell, personalidades fortes, assertivas, inquiridoras do seu contexto na sociedade onde viveram: a Inglaterra do período pós- vitoriano.
Pesquisadora da obra de Virgínia Woolf, Susan Sellers esteve em todas as bibliotecas e arquivos onde pudesse estudar originais da ficcionista britânica que se perfilou ao lado dos maiores modernistas. Ao estudar sua obra, inclusive cotejando edições, e sua correspondência, sentiu-se instigada pela relação de Woolf com a irmã, caracterizada pelo amor fraterno mas também por sentimentos de feroz competitividade e perturbador ciúme. Surgiu então a ideia de levar para um romance essa descoberta entrevista em cartas e depoimentos. Depois de alguma experiência como contista, Susan, estimulada pelo acolhimento da crítica, encarou a façanha de contar as vidas entrelaçadas dessas duas artistas excepcionais. Pelo livro, recém-lançado no Brasil, já recebeu o prêmio “New Writing Partnership Arts Council”.
Serviço
Título: Vanessa e Virgínia
Autora: Susan Sellers
Tradução: Valter Lelis
Editora: Novo Século
Onde comprar: amazom.com e nas livrarias de Franca
Preço: R$: 29,90