Onde há ética, os custos são menores. Aprendi isso em MBA que coordenei para instituição brasileira de ensino em conjunto com universidade norte-americana (U.Dallas). Para dar sustentação ao lema, busquei subsídios bibliográficos e de evidências empíricas para comprovar a afirmação do programa. Deparei-me com três bons livros, um deles, clássico sobre a matéria.
O primeiro, verdadeiro tratado sobre ética, apesar do reduzido tamanho. Trabalhado com profundidade, erudição e elegância pelo autor Eduardo Gianetti da Fonseca, incluía no título Vícios Privados, Virtudes Públicas o interessante subtítulo A ética na riqueza das nações. A outra obra, Mauá, Empresário do Império,de Jorge Ladeira, biografava um dos maiores empreendedores que nosso País jamais conhecera, criador de bancos, do Banco do Brasil, estaleiros, ferrovias, Irineu Evangelista de Souza, o Barão e, depois, Visconde de Mauá. Para completar o tripé estava o livro do próprio Mauá, escrito em 1878, Exposição aos Credores de Mauá & Cia.
As conclusões de Gianetti traziam as lições que deveríamos ter em mente ao colocar a ética no dia-a-dia dos negócios. Por sua vez, a figura de Mauá crescia a cada rodada de estudos, ao acompanharmos suas aventuras, desde menino e órfão chegando ao Rio de Janeiro em 1823, até tornar-se o mais bem sucedido empresário do Império, financiador e patrocinador de muitos empreendimentos com honestidade, competência, espírito público e visão.
Foi derrotado por manobras do governo brasileiro, interesses contrariados no Prata e pressão dos amigos (notadamente do Duque de Caxias), associadas à jogadas de grupos estrangeiros articulados com brasileiros. Perdeu seu banco no Uruguai e posteriormente escapou-lhe a concessão que obtivera para construir a São Paulo Railway (Estrada de Ferro Santos-a-Jundiaí). Mauá faliu, mas pagou todos os seus credores e legou-nos as bases factuais do exercício da ética na riqueza das nações, nos negócios e no desenvolvimento das empresas. Sua Exposição aos credores é, realmente, um clássico.
As evidências empíricas surgiram ao constatar o excesso de exigências burocrático-fiscais feitas aos empresários pelo Estado, que aumentam os custos. Um mundo de formulários em ‘n’ vias, comprovações periódicas, prestação de contas, deixam claro que a autoridade vê o empresário com desconfiança, não acredita que aja de boa fé. Com a ajuda da tecnologia da informação, então, criaram-se controles e mais controles. Abrir uma firma no Brasil leva, em média, 119 dias; nos EUA, de uma semana a 9 dias.
O Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei nº 8078, de 11/9/1990) é um marco de modernidade e de respeito nas relações de consumo no país. O movimento da responsabilidade social, a chamada cidadania corporativa, abarca hoje a sustentabilidade econômica. A gestão da qualidade, consolidada na indústria, caminhou em direção aos serviços e, atualmente, no Brasil, todo setor econômico que se preze possui seu sistema da qualidade calcado nas normas ISO/ABNT, procurando assegurar qualidade no processo e não apenas no produto. Com isso, as virtudes éticas que conduzem à riqueza das nações; a teoria e a prática da cidadania corporativa; o advento dos sistemas de gestão e a proteção das relações de consumo acabam fortalecendo no seio do empresariado a ideia de que ética é um bom negócio.
Vicente de Paula Oliveira
Economista