Movimentação intensa de usuários de drogas, dois homicídios em menos de uma semana e muito medo. É nesse cenário que vivem os moradores da Vila Raycos, no trecho próximo à rodovia Cândido Portinari, que se calam para, segundo eles, “sobreviver”. A maioria dos que foram abordados pelo Comércio, na tarde de ontem, na rua Américo Caravieri, preferiu não dar detalhes sobre o dia a dia do local por temer represálias. Outros, que aceitaram dar entrevista, resolveram amenizar a situação. Até uma estação elevatória de tratamento de esgoto da Sabesp foi ocupada pelos viciados. “Eu não tenho coragem de falar”, disse uma mulher, despistando a reportagem.
O ponto de conflito é visível da rodovia Cândido Portinari. A rua Américo Caravieri não tem saída e termina em uma cerca. Arames foram cortados para facilitar o trânsito dos viciados. Em frente à estação da Sabesp, terrenos foram tomados pelo mato. Lá foi abandonado o corpo do servente de pedreiro Uelton Hermano dos Santos, 24, morto com um tiro na cabeça na última sexta-feira. Do outro lado da pista, na Vila Rezende, há uma galeria e um córrego, que passa sob a estrada e tem saída a cem metros da estação elevatória. Ela é usada para a travessia entre os bairros. Foi ali que o corpo de um jovem, reconhecido pelos policiais como um usuário de drogas conhecido como “Di Menor”, foi encontrado boiando no dia 26 de novembro (veja mapa nesta página).
Para uma sapateira de 40 anos, moradora na região desde que nasceu, a insegurança atormenta os populares, que são obrigados a ficar em suas casas, enquanto os drogados dominam as ruas. “É direto. Dia e noite. Os traficantes foram todos presos, os que estão aí eu não sei. Não conheço, são todos diferentes. Eu fico com medo de ver as coisas que acontecem em São Paulo, e aqui ficar igual também”, lamentou a mulher.
Os idosos ouvidos pela reportagem preferiram manter a cautela nas palavras. Um pedreiro aposentado de 83 anos, morador no local há 35 anos, disse se sentir incomodado. “Nós corremos perigo. Não é bom. Mas não tira meu sossego, vou fazer o quê? Eles fumam a droguinha deles e saem”, contou o aposentado.
O gerente da Sabesp, Rui Engracia, disse que acompanha o caso. “Os usuários de crack entram à noite. Lá tem vestígios do uso da droga. Mas nunca furtaram nada, diferentemente de outras áreas, onde eles ‘roubam’ meus fios.” Porém, Engracia não vê uma solução viável para o caso. “Não tem como fazer nada. Se pôr muro, fica pior. Com ela aberta nós conseguimos enxergar quem está lá dentro”, completou.
RONDA
Segundo o subcomandante da PM, major Marcelo Trevisan, o local é apontado como ponto prioritário. “Quando há informações de que usuários de droga, concentração de pessoas até para cometimento de ilícitos, como é o caso desse lugar, nós focamos nossos roteiros de patrulhamento e fazemos operações diuturnamente.”
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