O espetáculo com a camisa verde amarela está com os dias contados. Gênio da bola, Alessandro Rosa Vieira, o “Falcão”, 35, anunciou que a Copa do Mundo de Futsal da Fifa 2012 foi sua última competição defendendo a seleção brasileira. Eleito melhor jogador de futsal do mundo em três oportunidades (2004, 2008 e 2011), maior artilheiro de todas as seleções brasileiras que jogam com a bola nos pés, com 340 gols - isso inclui futebol de campo, futebol de areia e futsal -, recordista de títulos com a camisa verde e amarela, Falcão revelou que pretende se aposentar da seleção e abrir espaço para a nova safra de atletas.
“Minha história está escrita na seleção. Primeiramente, quero curtir esse título mundial mais um pouco, e passar esse momento com o torcedor. O tempo vai dizer, mas o meu planejamento é parar no final do ano que vem.”
No mês passado, a seleção brasileira com Falcão conquistou pela sétima vez o título da Copa do Mundo, disputada na Tailândia. Em uma final emocionante, decidida nos segundos finais da prorrogação, o Brasil derrotou a Espanha por 3 a 2 e levantou a taça de campeão. Mas a conquista ficará marcada pelo drama e a superação vivida pelo astro do futsal.
Falcão, camisa 12, quase teve que encerrar sua participação logo na primeira partida, diante do Japão. Com uma lesão na panturrilha direita, o craque deixou a quadra chorando. Com um trabalho intenso de fisioterapia, conseguiu voltar. Entretanto, na véspera do jogo com a Argentina, pelas quartas de final, ele sofreu uma paralisia facial. Mesmo assim, entrou em quadra e foi decisivo ao marcar duas vezes, ajudando o Brasil a virar o duelo por 3 a 2, e avançar às semifinais do torneio. “A paralisia facial atrapalha, porque você não consegue enxergar direito. São coisas que não têm explicação. Essa partida ficará marcada na história.”
A trajetória de Falcão com a camisa da seleção começou em 1998, quando ele tinha apenas 22 anos. Técnico e de habilidade refinada, dois anos depois participou da Copa do Mundo, disputada na Guatemala. Na ocasião, o Brasil foi vice-campeão. Quatro anos depois, na Copa da China, mesmo com o terceiro lugar, o jogador teve o que comemorar: foi eleito pela Fifa como melhor jogador de futsal do mundo.
Ele iniciou a carreira aos 14 anos, defendendo um time da Zona Norte de São Paulo. Passou por vários clubes até ser contratado neste ano pela Intelli/Orlândia. Em seu primeiro ano em Orlândia, o ala conquistou o título da Liga Nacional de Futsal, sendo artilheiro com 19 gols, em 18 jogos disputados. Idolatrado pelo torcedor e de contrato renovado, Falcão se diz feliz e encantado com a cidade de aproximadamente 40 mil habitantes e sua região. Ele mora em Orlândia com a mulher Tatiana Mendes Vieira, uma ex-modelo que agora gerencia a carreira dele, e os dois filhos: Enzo, de 10 anos, e Luigi, de 7]
O craque do futsal esteve em Franca na semana passada para divulgar o “Jogo das Estrelas” - partida beneficente, que será no dia 28 de dezembro.
Comércio da Franca - O heptacampeonato veio com vitória na prorrogação diante da Espanha. Qual o sentimento de bater um grande rival e ficar com o título?
Alessandro Rosa Vieira, o Falcão - É um sentimento de alma lavada. Tínhamos perdido em 2000 e 2004, e vencemos em 2008. Não podíamos deixar nossa seleção em débito. Essa conquista foi ainda melhor por vencermos a Espanha, principal rival no futsal. A rivalidade é tanta que nos últimos 10 jogos entre as duas seleções as vitórias não foram por mais de um gol de diferença. Por tudo que passei naqueles dias, esse foi um campeonato muito especial.
Comércio - Como foi sofrer uma lesão na estreia contra o Japão e conviver com o risco de ficar fora da Copa do Mundo da Tailândia?
Falcão - Passaram muitas coisas na minha cabeça, pois lesão na panturrilha é complicada e dolorida. Achei que estava fora do Mundial. Fiz exames e eles comprovaram que eu tinha uma pequena chance de jogar. Fiquei, então, trancado no quarto fazendo sessões de fisioterapia para me recuperar e assisti ao esforço dos meu companheiros nos treinos e jogos. Logo depois desse estresse, sofri uma paralisia facial para piorar. Mas valeu a pena porque, quando levantamos a taça, tudo isso ficou para trás.
Comércio - O jogo pelas quartas-de-final, contra a Argentina, quando você marcou dois gols na vitória por 3 a 2, ficará marcado na sua vida?
Falcão - Foi um dos jogos mais especiais da minha carreira. Estávamos próximos do maior fiasco da história do futsal nacional. Mesmo sem treinar e recuperando de uma lesão, o treinador teve que arriscar, pois poderíamos ser eliminados nas quartas. Graças a Deus, minha estrela brilhou novamente, consegui marcar o gol de empate e, na prorrogação, fazer o gol da vitória. A partida contra a Argentina foi um “jogo chave” muito especial por tudo aquilo que passamos durante o confronto.
Comércio - A seleção brasileira era a que tinha maior média de idade neste Mundial e deve sofrer mudanças para o próximo campeonato. O que esperar dessa nova geração?
Falcão - De todas as seleções do mundo, o Brasil terá a maior mudança. Possivelmente, para a próximo Copa do Mundo, apenas 10 ou 20% deste grupo terão condições de jogar. Será uma mudança drástica e essa nova geração terá que assumir uma responsabilidade muito grande. Tenho medo que não tenhamos jogadores iguais aos da geração que está indo embora, pois sinto que falta uma qualidade a mais aos novatos. Mas isso eles vão adquirir em uma série de torneios importantes até 2016 [próxima Copa]. Acredito no potencial do jogador brasileiro e acho que tem tudo para dar certo.
Comércio - Após a conquista desse Mundial, você disse que pretende se aposentar da seleção. Tem uma data definida?
Falcão - Eu pedi dispensa de todas as convocações até o final deste ano, pois foi um ano muito puxado e sei que temos que abrir espaço para outros jogadores. Quero curtir esse título mundial mais um pouco, e vestir a camisa da seleção no próximo ano para passar ao lado do nosso torcedor esse momento. Já estou planejando uma despedida da seleção em 2013, provavelmente, para o final do ano que vem.
Comércio - A reportagem acompanhou sua apresentação em Orlândia, logo após sua contratação. Como foi ser recebido por aquela multidão na praça da cidade?
Falcão - Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Mesmo com chuva, as pessoas não deixaram a praça. Foi uma festa linda, com direito a trio elétrico, banda e tudo mais. Só tenho que agradecer e retribuir em quadra com gols, vitórias e títulos todo esse carinho que tenho recebido.
Comércio - Pela estrutura que tem o clube, Orlândia pode ser considerada o berço do futsal?
Falcão - Orlândia é hoje o grande centro do futsal. Você pega a seleção campeã do mundo, a maior base era de Orlândia, com quatro jogadores. Em um ano tudo mudou por aqui. O clube que era mais um no cenário nacional agora é a equipe a ser copiada - atual campeã brasileira, com jogadores de seleção. Estou feliz pela renovação do meu contrato.
Comércio - Como é sair da agitação dos grandes centros do país e viver em uma cidade pequena como Orlândia?
Falcão - A cidade em si é meio pacata, com apenas 40 mil habitantes, mas a região toda tem os atributos que você necessita. Embora Orlândia seja pequena, também tem sua gastronomia, claro que não se compara à dos grandes centros, mas não deixa a desejar. A escolha de vir jogar em Orlândia e morar na cidade não foi exclusivamente minha. Consultei meus familiares antes de tudo. Hoje, estamos muito felizes por ter conhecido Orlândia e toda a região.
Comércio - Depois de ser eleito melhor do mundo pela Fifa, você deixou provisoriamente o futsal para tentar a sorte no futebol de campo. O que deu errado em sua passagem em 2005 pelo São Paulo?
Falcão - Faltou oportunidade! Estava fazendo por merecer nos treinamentos, mas o treinador [Emerson Leão], que todo mundo conhece, sempre escolheu seus alvos e eu fui um deles. Não precisava passar por aquilo. Fui pelo futebol de campo, por opção de momento, pelo clube que era... Comecei a ter propostas dos meus patrocinadores pessoais para retornar às quadras e o fato de não jogar no São Paulo me ajudou a decidir. Não me arrependo das decisões que tomei.
Comércio - Você ficou decepcionado pela forma como foi tratado pelo treinador na época?
Falcão - Foi decepcionante para mim, para os torcedores do Brasil que queriam me ver jogar, para a imprensa, todos ficaram com a “pulguinha atrás da orelha” para saber como seria essa transição. Eu sinceramente sempre fui bem resolvido com isso, mas ficou essa frustração sim de todo mundo e minha também, de saber que poderia ter jogado e não joguei simplesmente porque estava no lugar certo, mas com o treinador errado.
Comércio - Com 35 anos - 22 deles como jogador de futsal - pretende seguir a carreira profissional até quando?
Falcão - Tenho plano hoje de jogar mais três anos. Para um jogador de alto nível a cobrança será sempre em alto nível. Quando perceber que não estou rendendo e a cobrança está grande, acho que é o momento de pensar em parar. Pois seria muito frustrante parar sendo criticado por não estar jogando bem. Vou deixar o tempo dizer o momento certo para encerrar a carreira.
Comércio - Com um histórico tão vencedor, quais são seus próximos desafios?
Falcão - Eu sempre penso em ganhar o próximo campeonato. Esse é meu grande diferencial, nunca achar que está bom. Sempre quero mais. Agora tenho as finais do Campeonato Paulista, quero ser campeão, melhor jogador. Tenho essas ambições, por isso estou tantos anos aí como referência no esporte, porque nunca me acomodei com meu nome e com tudo aquilo que conquistei na carreira. Quero sempre estar conquistando títulos e assim vai até o final da minha carreira.
Comércio - Ainda tem a ambição de conquistar mais um título de melhor jogador do mundo na premiação da Fifa?
Falcão - Na Copa do Mundo não estive apto a disputar o título porque praticamente não joguei. Se tivesse jogado em condições normais, provavelmente estaria disputando e teria grandes chances de ganhar. Mas, meu nome está escrito, os números já falam por mim. Sou o maior artilheiro com a camisa da seleção brasileira, recordista de títulos. Quero mesmo é curtir tudo isso que conquistei, pois a minha história já está escrita.