O Estado de S.Paulo, na página A18 de sua edição de 18 de novembro, noticiou que o Brasil é um Pais de monoglotas. Apesar dos oito anos de estudo de língua inglesa nos cursos fundamental e médio, nossos alunos não conseguem assimilar os ensinamentos ministrados.
Apresentando baixa proficiência da língua que atualmente rege a ciência, a cultura e os negócios do mundo, também não cultivamos e tampouco defendemos nossa portuguesa língua. Tudo aqui é batizado com o uso, às vezes incorreto, da língua de Shakespeare. Uma ligeira contradição, como se vê.
Para arrumar o cabelo, fazer as unhas e outros embelezamentos próprios do mundo feminino, as mulheres não procuram mais o salão de beleza; vão ao hair & lounge salon. Também não existe mais entregas em domicílio, foram substituídas pelo delivery. O condicionamento físico, igualmente, passou a ser fitness. Não sei se no conteúdo houve alguma mudança.
O cúmulo dos cúmulos é uma oficina mecânica do Itaim, em São Paulo, que se anuncia repair and paint, na realidade, o tradicionalíssimo funilaria e pintura. Customizar já é um termo praticamente incorporado à língua pátria. Esquecemos, por preguiça intelectual ou por pura babaquice, que o vocábulo em inglês é perfeitamente traduzível para o nosso ‘personalizar’. No futebol pipocam maicons, deivids e outros que tais.
Adotamos palavras como e-commerce, e-mail, DVD, RAM e ROM, pen drive, notebook, GPS, site. É comum o uso do termo ‘randômico’ que, em bom português, sem frescura ou subserviência, é aleatório, aleatoriamente. Os incorporadores imobiliários são mestres na ‘arte’ de nomear os prédios que colocam à venda. Lá em Santos, encontrei o Bay Side, Way; em São Paulo, o Top One, Maison d’Etoile, The Corner, Modern Life, e muitos outros nessa linha. Em Santo André está programada a construção do Century Plaza, com o chamado mixed use, que deve ser a junção do shopping, business, living etc. Na área empresarial, chegou a vez dos corporate offices. Será que o produto fica mais valorizado se oferecido em inglês?
Países de língua hispânica, mesmo sofrendo pressão cultural até mais intensa, zelam ardorosamente por sua língua. Defendem-na. Protegem-na. Valorizam-na. Sentem-se orgulhosos. Ao ouvir rádio nesses países, jamais escutei Garota de Ipanema, mas, sim, um sem número de vezes La chica de Ipanema. Lá, mouse é ratón mesmo.
A língua de qualquer povo é organismo vivo, sujeita à influências de variada espécie. Algumas delas são incorporadas visando enriquecer a língua nacional e facilitar a comunicação.
O desenvolvimento social, tecnológico, econômico também traz consequências, pois quem não faz o progresso não domina a língua. Lamentavelmente, inovações não parecem ser um negócio brasileiro.
A dominação de uma cultura por outra mais forte é aspecto do mesmo problema. No caso brasileiro, o fascínio por valores de fora, em diversos campos do conhecimento, da tecnologia, das artes, da moda, do entretenimento, vem de longe e só aumentou.
Mas, alto lá! Somos uma nação de valor, que tem história, cultura. Precisamos defender e valorizar o que é nosso. Orgulharmo-nos da nossa herança cultural, como fizeram Fernando Pessoa (“Minha pátria é a língua portuguesa!’) e Olavo Bilac (‘Amo-te, ó rude e doloroso idioma’). Um pouco de patriotismo nos faria (muito) bem.
Vicente de Paula Oliveira
Economista