A prática da Medicina tradicional, aquela na qual um médico acompanhava você na busca de cura para a doença, acabou
Puxe o assunto e fique atento ao que as pessoas vão contar a você: a maioria dos que procuram prontos-socorros públicos ou privados, estão sendo submetidos à Medicina de agora, que vou chamar aqui de lenitiva – calmante, se usarmos o termo como adjetivo; supressora de dores sem tratar a causa da doença, se a entendermos com substantiva.
Você tem dor e, não suportando, procura ajuda nos serviços de urgência e emergência. Preste atenção nos termos que usei – ‘serviços de urgência e emergência’. Servem, dizem, exatamente para o que as palavras significam: ‘se tenho dor, esses locais e seus plantonistas acabam com ela’. Usam os medicamentos que farmacêuticos têm dito, são as vedetes das vendas modernas: analgésicos – dependendo das dores, mais fracos ou mais poderosos –, antitérmicos, anti-inflamatórios e relaxantes musculares.
Os plantonistas, aliás, estão disponíveis e presentes, mas, não tente contar a eles o que você sente. Não adianta. Têm, como se recomendados, que acabar com a dor. Dor, ninguém merece, ensina a sabedoria popular. Se o caso se afigura mais grave, vamos lá: ‘Sai uma radiografia!’. O emergencialista olha, analisa, infere. Dai, manda o paciente procurar um especialista. É gentil. Resolve a dor. Devolve alguma qualidade de vida ao paciente. Pronto. Medicina lenitiva.
O paciente se vai. Passado o período de atuação do medicamento, lá está ela, a dor, de novo. É impressão ou volta ainda mais intensa? O paciente aguarda o dia seguinte e sai em busca do especialista recomendado. Bate aqui: não há datas de consultas disponíveis. Bate ali: não há datas de consultas disponíveis, só daqui a um mês. Bate acolá e – aleluia – consegue marcar para dai a dias. Enquanto espera, a dor persiste. Volta ao plantão. É, novamente, recebido pela Medicina lenitiva: ‘o efeito do remédio passou? Vamos ministrar um remedinho mais forte um pouquinho’. A dor cede de novo. Um sorriso quase se esboça no rosto do sofredor. Volta o conselho: “Vá ao especialista”. “Não dá, doutor. Só na semana que vem”. A solicitude é plena: ‘volte tantas vezes quantas precisar. Dor, ninguém merece’.
O dia seguinte, e o outro, e os vários que ainda separam o sofredor – você já pensou bem nesta palavra, formada por sofrimento e dor, casamento difícil de suportar? – do olhar especialista do especialista, afastam o paciente de seu trabalho, rouba-lhe o bom humor, estraçalha suas rotinas, o faz considerar que essa vida, o prefeito, o pronto-socorro, o plano de saúde caríssimo, os médicos todos, a mulher, os filhos, o patrão, este País, são tudo uma grande merda.
Chega o dia da consulta. As dores se foram. dores. O organismo debilitado deu um jeito em si mesmo para o bem – a crise passou, ‘então não preciso ir mais’ – ou para o mal – a causa da dor era grave, a doença não investigada piorou... não havia mais jeito.
Certamente, Medicina curativa se foi. As multidões que demandam lenitivo para as dores do momento – segundo médicos antigos, ‘sinais mais do que suficientes para indicar onde é que estava o problema’ – lotam os serviços de urgência e emergência. Tudo, então, precisa ser rápido. As salas de espera estão lotadas. Profissionais de Medicina lenitiva pontificam. Penso que sejam eles, tudo o que nos resta. Valha-nos Deus.
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Uma senhora, com dores atrozes no nervo ciático de uma das pernas, vai a um serviço de emergência. Dão-lhe lenitivos. Aconselham: ‘procure um ortopedista’. Ela sai direto a consultórios. Consegue agendar. Era um início de mês. Marcam para dia 17. Três dias após marcar, não suportando mais as dores, liga a seu plano de saúde e pede socorro. Ouve ‘vamos ajudar’. Continua enfrentando seu calvário. Nada. Dia 15, o telefone toca. Atende e ouve: ‘conseguimos sua consulta. Será dia 28, com a doutora fulana de tal’, coincidentemente a mesma médica com a qual iria se consultar dai a dois dias. Ela ri. Agradece e engole o palavrão que teve vontade de gritar...
HÁ SOLUÇÃO?
‘Pronto-Socorro é para atendimento de urgência e emergência, não para a cura’. Local de diagnóstico e cura é a Unidade Básica de Saúde, que tem que se relacionar com a população, registrar as histórias de quem atende, conhecer seu público. Está tudo certo. As pessoas deviam se conscientizar disso, mas há um porém. Tanto cá – na rede de saúde pública –, quanto lá – nos caríssimos planos de saúde – faltam especialistas capazes de oferecer a Medicina Curativa que a Constituição define como direito ao povo do SUS, ou o dinheiro deveria garantir aos conveniados que podem pagar. Aliás, tem, mas estão em plantão ‘externo’. Você passa a depender de idas a consultórios. Nesses, não há datas para a ‘sua’ doença. Moças bem treinadas não deixam dúvidas: ‘sinto muito. A agenda está lotada’. Não experimente perguntar se há vagas para consultas pagas. Pode ser que você infarte...
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br