A solenidade de Cristo Rei, deste domingo, encerra o Ano Litúrgico
A celebração deste dia é uma grande profissão de fé no Senhor da história que caminha com seu povo. A Eucaristia que celebramos é memorial daquele que nos ama e nos libertou dos pecados em seu sangue. Na Eucaristia, a Palavra de Deus tem alguns ensinamentos para nós. Meditemos nas palavras sagradas escolhidas para hoje.
PRIMEIRA LEITURA — DANIEL 7
O capítulo 7º, do qual é extraída nossa leitura, diz que Daniel, numa dramática visão noturna, contempla saindo do mar (símbolo da desordem, do caos), quatro grande animais: um leão, um urso, um leopardo e por fim um quarto animal, assustador, medonho, dotado de força descomunal, que tritura tudo com seus dentes de ferro.
O autor explica: trata-se dos grandes reinos que se sucederam no mundo e que oprimiram o povo de Deus. O leão é Babilônia, a cidade sanguinária; o urso e o leopardo representam outros povos dominadores (a Média e a Pérsia). A quarta fera, a mais terrível de todas, simboliza o reino de Alexandre Magno e de seus sucessores; entre esses, um extraordinariamente perverso: Antíoco IV, o perseguidor dos israelitas fiéis ao seu Deus. O vidente contempla outra cena grandiosa: no céu são instalados alguns tronos e um ancião (que simboliza o próprio Deus) senta-se para o julgamento. E a sentença é esta: os animais são privados do poder e a última é trucidada, destruída e atirada na fornalha.
O que acontece depois? Depois de tantas “feras”, eis que finalmente aparece um homem. Quem é ele? A quem representa? Ele não representa um indivíduo singular, mas todo o povo de Israel que, depois da grande tribulação da qual foi vítima sob o reinado de Antíoco, recebe de Deus um reino eterno, um reino que não conhecerá ocaso, que nunca será destruído.
Quando se cumpriu essa profecia? A profecia se realizou em toda a sua plenitude só com a vinda de Jesus. É ele o “Filho do Homem” que dá início ao Reino dos Santos do Altíssimo. Antes dele os reinos que se sucederam sempre se inspiraram no mesmo e brutal princípio: o domínio do mais forte.
Ele inverteu os valores: colocou no vértice não o poder, mas o serviço, introduziu no mundo uma nova mentalidade, a do coração do homem, oposta à cruel lei das feras. Ocorre-nos uma pergunta: mas essa corrente nunca será quebrada? O mundo continuará sempre à mercê destas forças de morte? Não!, responde a leitura de hoje. O reino do mal não terá duração eterna.
SEGUNDA LEITURA — APOCALIPSE 1
O livro do Apocalipse foi escrito numa pequena ilha do mar Mediterrâneo por um cristão confinado lá por ter anunciado, com a pregação e com a vida, o evangelho. Com essa obra ele tem a intenção de infundir coragem para os irmãos de uma comunidade da Ásia Menor (talvez a mesma à qual ele pertencia), que está ameaçada de dispersão por causa da cruel perseguição.
Começa lembrando aos cristãos uma verdade fundamental da sua fé: “Cristo é o príncipe dos reis da terra”. Quem são os membros que compõem esse reino? Os sacerdotes. Cada cristão é sacerdote porque apresenta a Deus o único sacrifício que lhe agrada: a vida doada aos irmãos. Cada gesto de generosidade é um exercício do próprio sacerdócio. Sacerdote é principalmente aquele que é perseguido pela sua fidelidade ao evangelho: oferece a Deus o seu amor heroico em benefício dos seus próprios algozes que o fazem sofrer injustamente.
Os cristãos nunca devem se deixar dominar pelo desejo de vingança, pelo impulso de querer dominar pela violência, ainda que só verbal, aqueles que, talvez por simples ignorância, se opõem a Cristo.
EVANGELHO — JOÃO 18
Todos nós já vimos quadros antigos que representam Cristo como rei. Ao longo dos séculos confundiu-se o Reino de Cristo com os reinos deste mundo. É nesse sentido que Cristo é rei? O Evangelho de hoje descreve.
Jesus está entregue nas mãos da autoridade romana, sozinho, desarmado, não tem soldados que o possam defender. É um prisioneiro, abandonado até pelos seus próprios amigos, está sendo esbofeteado, vilipendiado. Certamente não está em condições de constituir-se em perigo para o poder de Roma.
Os reinos deste mundo apresentam algumas características bem definidas: são conduzidos por homens movidos pela ambição das riquezas e do poder, têm suas bases no emprego da força, são defendidos pelas armas. O reino de Jesus não se identifica com nenhum destes princípios. Jesus não elimina ninguém, é ele que se apresenta para morrer; não manda nos outros, obedece; não faz alianças com os grandes e poderosos, mas põe-se ao lado dos humildes, daqueles que não têm valor nenhum .
Possuir, conquistar, exterminar são, para os homens, provas de força; para Jesus são fraqueza e derrota. Grande, para ele, é aquele que serve.
A festa de Cristo rei pode facilmente ser interpretada de uma forma ambígua; pode até mesmo ser apresentada no sentido contrário daquilo que ela significa. É fundamental esclarecer que a realeza de Cristo é exatamente o oposto da realeza deste mundo.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br