Na última terça-feira, 20/11, comemorou-se em Franca e em várias outras cidades brasileiras o Dia da Consciência Negra, um feriado criado para se refletir sobre a condição dessa etnia em todo o país. Mas, como é comum acontecer nesses casos, nem todos concordam com a idéia.
Para alguns, essa data seria um exagero e ao invés de contribuir para amenizar eventuais conflitos interraciais, acabaria por endossá-los. Nessa linha de raciocínio, os preconceitos que ainda subjazem sorrateiramente nos meandros da sociedade, escondendo-se por trás da suposta cordialidade do homem brasileiro, poderiam se intensificar, encontrar um foco, um pretexto para emergir. A situação, defendem outros, poderia também se inverter. Fortalecida e em destaque, a cultura negra criaria um preconceito às avessas, dos negros em relação a outras etnias.
De forma geral, esse é o mesmo raciocínio que perpassa a idéia das políticas de inclusão social, como a política de cotas nas universidades públicas, por exemplo. Para esses críticos, além de privilegiar os negros em relação aos brancos e a outros grupos étnicos que também vivenciam os mesmos problemas sociais e econômicos, essas políticas contribuiriam para aumentar ainda mais a divisão entre essas etnias, minando inclusive os direitos constitucionais em termos de igualdade para todos, sem nenhuma distinção de cor, sexo, etnia e religião.
Para outros, porém, a idéia desse feriado e de todas essas políticas de inclusão voltadas para os negros seria uma espécie de acerto de contas do país com sua história. Se durante quase quatro séculos o país viveu sob uma política escravocrata que impôs aos negros uma vida confinada entre o campo e a senzala, sem direito a nada que não fosse o trabalho braçal para os homens e a exploração sexual para as mulheres, nada mais justo do que agora, em pleno século XXI, o país promovesse algumas políticas para acelerar a ascensão social dessa etnia, que por razões econômicas e sociais acabou por várias décadas encostada nos morros e nas periferias das cidades.
A questão, mais uma vez, traz uma boa dose de polêmica. Se a maioria dos negros ainda vive à margem do capitalismo brasileiro, como atestam vários dados do IBGE, não é menos verdade que essa mesma situação abarca também muitos brancos e índios, por exemplo. Portanto, privilegiar uma etnia em detrimento das outras pode parecer incorreto.
Nesse sentido, talvez essas políticas, bem como esse feriado, tenham sua importância no sentido de provocar uma reflexão sobre a convivência entre as várias etnias e de alavancar novas oportunidades de desenvolvimento para a população negra. Mas, de qualquer forma, é importante frisar que elas não deveriam se alongar em demasia, pois do contrário poderiam se transformar em um tiro no próprio pé, criando novas injustiças e mais conflitos interraciais.
Políticas públicas de inclusão precisam ter prazo de validade, senão viram assistencialismo.