08 de julho de 2026

Lembranças da Nidy


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Nidy Latuf veio de São Paulo morar em Franca, depois de casada com Alberto Latuf, que era amigo de meus pais. Tornou-se vizinha no Prédio dos Bancários, depois de morar na casa da rua Padre Anchieta onde, bem na porta de entrada da sala ela colocara dois imensos vasos de antúrios, que eram seu orgulho. Estavam maravilhosos, cheios de flores vermelhas que contrastavam com o verde escuro das folhas.

Nidy, que adorava receber pessoas em sua casa, convidou amigas e a sogra, libanesa de origem, para lanchar e ver suas plantas. As convidadas saíram tarde, ela só notou o estrago depois: todas as flores estavam sem o pistilo característico e marca registrada dos antúrios. Ficou fula ao descobrir o motivo: a sogra, horrorizada com a visão das espádices centrais em forma de bastão, retirou-as uma por uma, por considerá-las “indecentes”.

Já morando no Prédio, ela apareceu no nosso apartamento, roxa de raiva, contando que saíra e deixara faxineira encarregada de limpar seu apartamento e lustrar os enfeites da sala de estar. Recomendou que ela desse especial atenção à coluna de mármore, suporte de valiosa estátua de cobre, zinavrado pelo tempo, sua paixão. Ao chegar, deu com a faxineira esbaforida e sorridente. “D. Nídia, ela disse, já terminei. Quase não deu tempo, mas consegui até limpar a sujeira do São Jorge: tá que tá brilhando!”. Nidy quase desmaiou quando viu o Napoleão, montado no cavalo, brilhando feito tacho sobre o pedestal de mármore preto. Depois riu muito.

Nidy, dona de rosto de excepcional beleza, morreu cedo, deixou três filhos, entre eles Cristiana Kiki - que é a única remanescente da outrora feliz, barulhenta e alegre família francana.

(Lúcia H. M. Brigagão)

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