Há quatro dias famílias estão acampadas em barracas e “morando” dentro de carros na entrada de um novo loteamento na zona oeste de Franca. A fila é para garantir as senhas para compra dos lotes que serão distribuídas apenas na sexta-feira, mas os interessados começaram a chegar no domingo passado para garantirem seus números. Eles estão em barracas e usam sombrinhas e guarda-sóis para se protegerem da chuva e do sol e levaram cadeiras plásticas e banquetas para poderem descansar. As refeições são feitas no local. Familiares e amigos se revezam na fila e há quem pague até R$ 100 por noite para alguém dormir e guardar a vaga. Até a manhã de ontem, havia sete barracas montadas na área e 16 veículos enfileirados, todos à espera das senhas.
A distribuição de cerca de mil números será feita a partir das 8 horas de sexta-feira e as vendas dos lotes começarão no sábado, 17, quando o loteamento será lançado oficialmente (leia mais nesta página). Os terrenos, com áreas entre 200 e 250 metros quadrados, custam a partir de R$ 43,5 mil. As condições de pagamento, a localização, a promessa de valorização das áreas e menores exigências para compra do que as de financiamentos bancários são apontadas como razões para o tamanho interesse.
O pespontador Danilo César Malaquias, 30, a mulher dele, Franciele, 26, que é coladeira de peças, e o filho de um ano e oito meses ocupam o décimo lugar na fila. A família está dormindo no carro desde segunda-feira. O casal vive com o filho numa casa alugada por R$ 200 no Jardim Luiza, e Danilo está sem trabalhar na banca de pesponto própria para garantir a senha e comprar um lote. “É a oportunidade para a gente comprar alguma coisa e fazer uma casa, porque ninguém merece ficar pagando aluguel. Já tentei financiar, mas o banco exige muita coisa. Eu trabalho por conta, então não tem como, eu não consigo financiar no banco.” Ele disse que trabalhou durante fins de semana para ficar parado por quatro dias neste mês e tentar adquirir o terreno.
A faxineira Lidiane da Silva, 28, mora no Sítio Santa Inês, em Franca, e sonha ter a casa própria e morar na cidade. “É um sonho que tenho já faz tempo. Para conseguir a senha, vim para a fila porque são poucos lotes. Hoje é quarta e já está cheio assim, imagine na sexta-feira quando vão entregar as senhas, não teria lugar, então fiz bem ter vindo antes.” Lidiane acha que as condições oferecidas vão facilitar a aquisição. “Quero tentar comprar aqui porque é mais fácil a compra, pela entrada que pedem e as parcelas que vou pagar. Devo dar a entrada em seis vezes de R$ 1.200 e depois cerca de R$ 500 de prestação.”
Lidiane e a mãe estão instaladas em uma barraca. “O sacrifício vale a pena para ter a casa própria, ter o que é meu e nunca mais pagar aluguel. Vou estar pagando o que é meu e quando minha filha tiver uns dez anos já vou ter terminado de pagar e vai ficar para ela.”
O modelista Anderson Souza, 27, pretende se casar e quer comprar o terreno para construir uma casa. Com receio de não conseguir uma área no novo loteamento, resolveu fazer “plantões” na fila para retirada das senhas. Ele, a mãe, a sogra e um amigo se revezam a cada seis horas no local faz três dias. Anderson fica em frente ao loteamento depois que sai do trabalho, às cinco da tarde, e deixa a vaga meia-noite, quando um conhecido dele assume o posto para dormir lá. “Ele paga R$ 50 por noite para um rapaz dormir na barraca. Se não viesse antes, ia acabar ficando sem senha porque tem um tanto de gente. Ele quer ter um lugar onde morar e o preço aqui não está tão ruim”, disse a comerciante Arlete Souza, 43, mãe dele, que é a terceira da fila.