08 de julho de 2026

Sujeito mau


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Li a Gazetilha ‘Garoto do Cambuí’ e posso afirmar: é uma reflexão profunda, bem fundamentada, que deve servir para várias indagações e possíveis condutas particulares e públicas. Trata-se da história real de um garoto de 15 anos de idade, considerado como ‘mau’ em razão da prática de diversos delitos: liderança de gangues, autoria de agressões, suspeição de envolvimento com furtos e acusações de invasão e depredação da escola onde estudou, além de tráfico de drogas.

A comunidade do Jardim Cambuí – bairro de Franca – está aliviada com a restrição da liberdade desse sujeito mau. Afirma o jornalista Corrêa Neves Júnior, autor da Gazetilha, que ‘há seres humanos ruins, maus, com péssima índole e deficiências de caráter tão grandes que terapia ou política pública nenhuma vão dar jeito’. É aqui que pretendo entrar mais fundo.

Concordo, em parte, que existam seres humanos ruins e que terapia ou política pública nenhuma darão jeito. Digo em parte pelo fato de ter certeza de que boa terapia, aliada a política pública, se não curar, pode amenizar a maldade que existe em alguém. Explico: seres humanos são formados gradativamente, desde o encontro do espermatozoide com o óvulo e até sua morte. Desde a fecundação inúmeros fatores biológicos e genéticos interferem na formação desse ser. Após o nascimento, fatores externos, como família, instituições e a sociedade, como um todo, desempenham papel fundamental na formação do caráter do ser. Praticamente todos os desvio de caráter têm origem na infância e adolescência, fases estruturantes do ser humano. O homem é um ser complexo, desejante, mas que precisa desde cedo aprender os limites de seus desejos, precisa sofrer castrações para entender que nem todo desejo pode ser realizado. Precisa entender que há uma ‘lei’ universal que deve ser observada sempre: é necessário deparar com a falta, com
a frustração, mas de forma equilibrada. O problema reside na fórmula para encontrar o equilíbrio.

Pais superprotetores ou ausentes geram filhos inseguros, com fobia de tudo. Seres assim sempre tiveram quem resolvesse por eles, ou sempre tiveram que resolver por si mesmos. No caso dos ausentes, o sentimento de abandono pode fazer com que tenham condutas inaceitáveis, consideradas más, apenas para receber afeto, atenção, carinho, ainda que esse afeto venha de forma mais bruta – a punição. Quantos filhos não iniciam comportamento estranho apenas para chamar a atenção dos pais, dos professores, dos educadores e de pessoas que podem lhe dar limites?

Tenho absoluta certeza de que o ser humano, em sua essência, é bom. Torna-se mau em razão de formação deficitária, por não ter tido um ser humano bom que lhe servisse de exemplo nas fases inicias de sua construção, formação ou desenvolvimento. Quanto falo em formação deficitária não me refiro à ausência de condições financeiras, mas sim, de formação humana, psicológica, moral, ética, de caráter, do certo e do errado para viver em sociedade.

Os pais atuais têm dificuldades para impor limites a seus filhos. Quando há poder aquisitivo, quase sempre não há tempo para conviver com os filhos. Em resultados, educa-os terceiros. O ter, hoje, é mais importante do que o ser. Com o dinheiro, ensina-se, demonstra-se por palavras e atos, compra-se tudo, mas, errado!, dinheiro não forma e não compra caráter! Caráter só se forma gradativamente, com convivência saudável e respeito ao outro.

Quando se tem pouco, em razão da sociedade consumerista, cria-se frustração. Não há como chegar-se aos bens desejados, às necessidades materiais, mas não há quem ensine que as reais necessidades dos seres humanos são outras, são pessoais, de relacionamento.

Para mim, todo ser humano é bom. Torna-se mau em razão da ausência de cuidados, seja da família, da sociedade, do Estado. Esses cuidados deveriam ser destinados com competência às suas fases de formação, principalmente na infância e adolescência. Então, terapia e políticas públicas podem, sim, ajudar nas escolhas das veredas, boas veredas, do ser humano.

Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário