09 de julho de 2026

Bispo diz que Igreja precisa se envolver com problemas da cidade


| Tempo de leitura: 10 min
Dom Pedro Luiz Stringhini elogia a vitalidade da Diocese de Franca e diz que está entristecido com a transferência para Mogi das Cruzes

Dezembro de 2009. Até então desconhecido pelos fiéis de Franca e região, dom Pedro Luiz Stringhini, na época bispo auxiliar da região Belém na Arquidiocese de São Paulo, é nomeado pelo papa Bento 16 como o terceiro bispo da história da Diocese de Franca. Sua chegada em fevereiro do ano seguinte foi uma festa e lotou o Poliesportivo Pedrocão. Carismático, o senhor de 59 anos, sendo 32 deles de ordenação como padre e 12 de bispo, conquistou de imediato os católicos da diocese.

Novembro de 2012. Passados dois anos e 11 meses, dom Pedro se despede de Franca. O motivo: uma nova transferência. Desta vez para a Diocese de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. O comunicado saiu em setembro e a missa de despedida acontece hoje, a partir das 15h30, novamente no Poliesportivo. A expectativa é que os fiéis lotem mais uma vez o espaço para agradecer e demonstrar toda a afeição que o bispo conquistou nesse período.

Dom Pedro estava feliz com seu o povo e o “rebanho” feliz com o seu pastor. A notícia da mudança deixou os fiéis perplexos e entristecidos.

Como o próprio dom Pedro Luiz define, foram praticamente três anos intensos em que ele ordenou e transferiu padres de paróquias, desmembrou e inaugurou novas paróquias, criou áreas pastorais, realizou celebrações festivas e enfrentou problemas, de saúde e relativos ao clero. Também fortaleceu o setor da juventude e fez reacender as vocações.

Agraciado na última quarta-feira, dia 7, com o título de cidadão francano, dom Pedro Luiz diz que estará sempre ligado a Franca e agradeceu aos padres, diáconos, seminaristas, religiosos, leigos e ao povo que o acolheu. “Sobretudo meu carinho a dom Diógenes (Silva Mathes, bispo emérito de Franca), que me recebeu tão bem e tem segurado muita coisa. Quero dizer que, diante da saída de dom Caetano Ferrari [antecessor de dom Pedro Luiz, que foi para Bauru] e agora a minha saída, é muito importante a presença dele. Não como referência oficial, mas uma referência pastoral, humana e espiritual.”

Nesta entrevista, feita no prédio provisório da Cúria Diocesana, o já ex-bispo de Franca conta como recebeu a nomeação para Mogi, fala de sua empatia com os francanos e deixa um recado para o prefeito eleito, Alexandre Ferreira.

Comércio da Franca - Por que o senhor ficou tão pouco tempo em Franca?
Dom Pedro Luiz Stringhini -
Entendo que houve um processo forte de indicação dos bispos daquela região de São Paulo. Bispos com quem eu trabalhei, bispos das dioceses em torno, como São Miguel, Guarulhos e também dos bispos auxiliares de São Paulo e do antigo bispo de Mogi das Cruzes, dom Airton José dos Santos. Ou seja, a província eclesiástica de São Paulo, acredito, fez uma forte indicação do meu nome. Coincidiu também com a nomeação do novo núncio apostólico, dom Giovanni d’Aniello. Tudo começou na época em que fiquei doente e passei uma semana internado em São Paulo, no Sírio Libanês. Penso que o mais pesou foi o fato de eu conhecer aquela região periférica de São Paulo. O motivo principal certamente foi esse, de responder a uma necessidade de uma grande porção do povo de Deus, que é a Diocese de Mogi das Cruzes.

Comércio - Não seria mais fácil preparar um padre para ser bispo de Mogi ao invés de tirar o bispo de uma diocese, como ocorre agora?
Dom Pedro Luiz -
É vestir um santo e desvestir o outro. É a pergunta que todos nós fazemos. Já que tinha de providenciar lá que providenciasse um novo, nomeasse um padre. Quando eu vim da região Belém, para o meu lugar foi nomeado um bispo do Paraná, lá de Maringá e também houve esse questionamento. Também me fiz essa pergunta.

Comércio - E não há resposta para ela?
Dom Pedro Luiz -
Eu, pelo menos, não tenho. Quando fiz o convite para o núncio vir à Franca, era para ele ver que aqui é uma diocese muito viva e muito necessitada de continuidade e que eu estava muito bem. Vendo minhas fotografias do dia em que o núncio veio e as de agora, vejo que hoje estou entristecido e abatido. Percebo isso pelas fotos, mas não tem outro jeito. Depois dessa fase, quero amar muito aquele povo de Mogi. O mesmo amor que dediquei aqui, quero dedicar lá. Espero até melhorar, porque aprendi muito. Agradeço Franca por isso também. Foi minha primeira diocese, nesse sentido levo de Franca um grande aprendizado e penso que em Mogi posso até corrigir algumas coisas.

Comércio - O senhor podia dizer não ao convite?
Dom Pedro Luiz -
Sim, objetivamente, poderia dizer “não”, pois o senhor núncio, ao me comunicar que o papa estava me transferindo de diocese acrescentou: “O Senhor aceita?”. Eu respondi: “Estou assustado, mas aceito”. Então ele me pediu que, naquele mesmo dia, escrevesse dando a anuência, assinasse e mandasse por fax. Eu disse sim, sem titubear, pois é assim que funciona na Igreja, a partir do princípio da obediência.

Comércio - O senhor esperava por essa transferência?
Dom Pedro Luiz -
Por uma transferência a gente sempre espera. Porque Ribeirão Preto também está sem bispo, São José do Rio Preto também estava sem bispo. A gente espera sim, a nunciatura sempre conta. Alguém que tem 12 anos de bispo tem mais experiência do que alguém que vai começar. Esperava sim que em algum momento pudesse ser transferido, mas não que fosse tão rápido.

Comércio - Qual o balanço que o senhor faz desse tempo que passou na Diocese de Franca?
Dom Pedro Luiz -
A partir do momento em que fui transferido passei a me dar conta de duas coisas. Primeiro, o quanto o povo, na verdade eu já sabia, mas o quanto o povo é ainda mais afetuoso do que eu pensava. Outra constatação é o quanto inconscientemente eu ainda tinha tantos outros projetos para implantar em Franca...

Comércio - O que marcou mais o senhor durante essa passagem pela diocese?
Dom Pedro Luiz -
Foi a vivacidade da Igreja. O entusiasmo dessa Igreja de Franca. Percebi desde o começo, penso que não é toda a diocese que tem essa vitalidade. Nesse sentido, acho que me dei bem também porque me sinto uma pessoa com entusiasmo, gosto do que faço e vejo o quanto o povo de Franca é cristão, é católico e gosta de ser cristão, gosta de ser católico. Esses dias participei na Capelinha de uma noite organizada pelo grupo Incendeia a Minha Alma. É um novo grupo que está nascendo, além de todos os que já existem. Sempre me convenço mais da vitalidade dessa Igreja de Franca, bendigo a Deus por isso e peço que continue assim.

Comércio - Durante esses três anos o que mais chateou o senhor?
Dom Pedro Luiz -
Os problemas que enfrentei sempre me preocuparam, a começar pela minha saúde. Problemas no clero, problemas na diocese, eles sempre me preocuparam, mas digo que não foram nada perto de tudo o que foi bom para mim aqui na Diocese de Franca. Problema a gente enfrenta, resolve e, como diz o ditado popular, o que não dá para resolver, resolvido está. Disse o quanto fui feliz com os padres, mas não posso deixar de ressaltar também a grande participação dos leigos na vida de nossas comunidades institucionais, que são as paróquias e comunidades e também em todas essas experiências que surgiram e são de Franca como o Hallel, o Cenáculo, o Tenda e mais recentemente o Incendeia Minha Alima e a Comunidade Hodie. E não posso esquecer de ressaltar também o vigor da juventude, que procurei apoiar, mas por mim mesmo eu não conseguiria ter dado toda essa vitalidade que vem mesmo da busca desses jovens, da fé.

Comércio - Após a anúncio da transferência do senhor surgiram boatos de que haveria muitos padres descontentes com sua atuação...
Dom Pedro Luiz -
Não acredito que haja padres descontentes. Sinto que os padres estão felizes com o ministério deles. De mim, claro, não só os padres, mas todo mundo pode discordar. Não sou a unanimidade. Quando a gente dá opinião na vida da Igreja, da sociedade, a nossa opinião não precisa ser unânime. Nem tinha essa pretensão. No geral, me relacionei bem com os padres e eles também comigo. Muitos padres expressaram pessoalmente a tristeza que estão sentindo com a minha saída. Por isso não sinto que o presbitério esteja descontente, está caminhando bem e eu pessoalmente estou muito contente com isso.

Comércio - Como o crescimento das igrejas evangélicas influencia no trabalho e planejamento das paróquias?
Dom Pedro Luiz -
As paróquias têm que se preocupar em ser acolhedoras e missionárias, isto é, acolher bem quem chega e ir atrás dos que estão afastados. Tenho dito aos padres que eles têm que ser os primeiros a acolher bem as pessoas e responder aos apelos das pessoas, a usar mais a palavra “sim” que a palavra “não”.

Comércio - Franca tem enfrentando um aumento de criminalidade constante (neste ano, por exemplo, os assassinatos subiram de 6 para 16). O que a Igreja pode fazer para combater essa criminalidade?
Dom Pedro Luiz -
A evangelização feita pela Igreja deveria incidir nas pessoas levando-as a um comportamento melhor e menos violento, mais solidários. A vizinhança tem que construir menos muros e mais amizade, proximidade, solidariedade. A evangelização tem que ser intensa e forte para mudar o coração das pessoas. Ao mesmo tempo a Igreja precisa se envolver, através das pastorais sociais, com os problemas da cidade, como fazemos quando trabalhamos com os menores infratores, povo de rua, a presença nos cárceres, o auxílio aos pobres.

Comércio - Voltando à questão do bispo de Franca, o senhor participará da escolha?
Dom Pedro Luiz -
Devo participar. Não só eu, mas todos os bispos que forem consultados. Aliás, para Mogi também fui consultado e, quando recebi a consulta, indiquei três bispos e para cá terei que indicar algum nome sim. No dia seguinte da minha nomeação, a nunciatura pediu um relatório. Já fiz. Gastei aqueles primeiros dias fazendo um relatório do que vivi, das minhas impressões da diocese e mandei indicações.

Comércio - O senhor indicou algum padre de Franca?
Dom Pedro Luiz -
Nesse momento, não posso entrar em detalhes sobre as indicações que fiz à nunciatura em relação ao futuro bispo diocesano de Franca.

Comércio - Franca pode ficar muito tempo sem um novo bispo? A espera pode passar de um ano?
Dom Pedro Luiz -
Espero que não demore demais. Aliás, foi um pedido que fiz no relatório. Como a minha permanência foi curta, que a espera seja curta. Sobretudo porque a Diocese de Franca está vivendo o Ano da Fé e, a partir do dia 8 de dezembro, começa a viver a preparação para o centenário da Catedral, que será um momento bonito para a diocese. Eu cheguei na celebração dos 40 anos da diocese e o novo bispo chegará na celebração dos cem anos da Catedral.

Comércio - Tem como prever quem será o novo bispo da Diocese de Franca?
Dom Pedro Luiz -
Como prever não há. Imagino que, antes de sair o novo bispo de Franca, será nomeado o novo arcebispo de Ribeirão Preto. Saiu Mogi, depois São José do Rio Preto, agora deve sair Ribeirão Preto e, então, Franca.

Comércio - Franca acabou de eleger um novo prefeito. Qual o principal conselho que o senhor daria para o prefeito eleito, Alexandre Ferreira, do PSDB?
Dom Pedro Luiz -
Desejo ao novo prefeito, doutor Alexandre, e seu vice, Fernando, muita luz e inspiração de Deus e a necessária colaboração por parte dos munícipes. Na minha opinião, é importante que o prefeito continue a cuidar bem da cidade, tenha uma boa assessoria, mantenha um bom diálogo com a sociedade, acolhendo as demandas vindas da população, e tenha um olhar preferencial para os mais pobres.