Para Regina Bastianini, que lança hoje o seu “Mar em canto”.
A língua que nos embala, assim que nascemos, conforma uma anatomia cerebral. Fiquei assombrada ao saber que todos os bebês nascem com o funcionamento cerebral pronto para aprender qualquer língua, e que essa disposição (para toda e qualquer língua) acontece dentro de um tempo curto, alguns meses, no recém-nascido. Depois cada bebê segue adiante, conformada com sua língua-mãe.
Há mães que gostam de embalar seus filhos com música. Eu imagino que os nenezinhos possam, assim, guardar em algum circuito cerebral -ou na alma fragmentos das línguas estrangeiras se as músicas tiverem letras, a depender da qualidade estética e emocional que mantiverem com suas respectivas mães.
A língua-mãe é a nossa melodia imortal. Língua-pátria, também dizemos. Há pessoas que sonham com cantos de ninar em língua (que nunca tiveram oportunidade de estudar), por terem tido babás, quando pequeninos, em país estrangeiro, do qual seus pais precisaram emigrar.
Nas viagens que tenho feito a diferentes países tenho me observado no contato com línguas que não aprendi e tenho desenvolvido um interesse em saber quais línguas gostaria (ainda) de aprender (uma pergunta visceral). É possível ter com a língua um tipo de ligação utilitarista (tenho, em parte, com o inglês, mas não só). Há na busca do aprendizado de uma língua um tipo especial de vínculo, mais musical (estético e original, de origem).
Sempre considerei meu desejo de aprender alemão, por exemplo, como ligado à vontade de ler Freud, Goethe, Hermann Hesse na língua de origem. Ou seja, um desejo ligado à Arte, essa que é o espelho da alma. No entanto, viajando pela Alemanha, recentemente, me vi atordoada. Os alemães me pareceram ruidosos. Como a Dona Baratinha da historinha infantil, eu me vi cantarolando “sou, porém, muito sensível e medo tudo me traz, diga primeiro (...) como é que você faz?”. Dona Baratinha, na historinha, queria discriminar o som da voz do animal, na escolha do futuro marido.
Ao final dos 15 dias de viagem, como Dona Baratinha, eu ansiava pela música da minha terra brasiliense, pelo sotaque francano, pelos “r” puxados, pelas vogais todas, essas menininhas coloridas e felizes que estão presentes em todas as palavras, mãos dadas, juntinhas, ou levemente separadas por uma, no máximo duas consoantes (ou, em um excesso, na palavra “embrulho”, por exemplo, três consoantes!).
Tive saudades da doçura fluida de algumas expressões brasileiras, o molejo, o ritmo, as sutis, as variadas sombras, assim como as cores fortes das palavras. Tive saudade da minha querida professora de português. Vislumbrei o que me levou a escolher para melhor casar, para aperfeiçoar, a Língua que me definiu brasileira, e a renunciar (por absoluta falta de tempo) a aprender, por enquanto, outras línguas. Escolhi, para me “abensonhar” no casamento com a língua brasileira, uma poeta.
A língua portuguesa é a minha melodia imortal e, se ela foi meu primo canto, espero fazer de sua melodia o meu virtuoso canto derradeiro.