09 de julho de 2026

Cine Teatro Santa Cruz


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Aproveitei o feriado prolongado de Finados e fui para Cássia, minha cidade natal, visitar familiares e amigos vivos e outros que, na expressão de Rolando Boldrin: ‘viajaram além do combinado’.

No sábado pela manhã, debaixo de sol escaldante, resolvi fazer uma caminhada pelas principais ruas, avenidas e praças da cidade, relembrando, com saudades, da minha infância e adolescência vivida naquela pacata e hospitaleira cidade mineira. Subi a rua Major Stockler, depois virei para a rua Saturnino Pereira, passando em frente ao terreno onde, antigamente, localizava-se o Clube Pica-Paus.

Caminhei até o bairro do Patrimônio e cheguei ao Estádio Pinto Neto. Depois, desci pela avenida Antônio Lemos, margeando o bairro Cassialar. No prolongamento da avenida segui pela rua Comendador Antenor Machado, passando em frente ao Fórum, que se situa na Praça JK. Terminei a caminhada na Praça Barão de Cambuí, a principal da cidade.

Durante todo o trajeto encontrei vários amigos e familiares com os quais não mantinha contatos há muitos anos. Também durante o percurso, naufraguei em memórias gostosas do Jardim da Dona Nenê, do Grupo Escolar Melo Viana e do Colégio São Gabriel.

Parei mais detidamente em frente ao prédio do Cine Teatro Santa Cruz. O prédio é, atualmente, de propriedade da FAMA – Fundação Ana de Melo Azevedo. Continua praticamente o mesmo embora o cinema já não exista mais. Lembrei-me dos primeiros namoros no ‘escurinho do cinema’, a música Tema de Lara do filme Dr. Zhivago, que era tocada sempre minutos antes do início da projeção. Também, veio à memória o saudoso Sr. Luizinho Sampaio com a sua lanterna, coibindo os excessos.

Em minha infância e adolescência o Cine Teatro Santa Cruz pertencia aos irmãos Ami e Antônio, ambos moradores na vizinha cidade de Capetinga.

Os proprietários do cinema, grandes amigos do meu pai, acabaram me concedendo o privilégio de assistir as sessões do cinema sem ter de pagar ingresso.

No final da década de 60 e na seguinte, os bang bangs italianos e os westerns americanos eram sucessos garantidos.

Lembro-me bem de Django, Keoma, O Dólar Furado, Sete Homens e um Destino, Quando é preciso ser homem, e tantos outros do gênero. Nas produções nacionais, os filmes de Mazzaropi lotavam as salas de cinemas da época. Nos filmes de Mazzaropi eu tinha que pagar o ingresso, pois ele, sabiamente, só alugava a fita para o cinema mediante participação na renda. E para não haver evasão de receita, Mazzaropi colocava sempre um fiscal na porta do cinema para controlar a frequência.

Tempos bons aqueles, onde os recursos eram poucos, porém sobrava disposição e também ideias e ideais. Compreendi, mais uma vez, que é feliz o ser humano que tem histórias para contar e fatos para reviver com saudade.

Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca