Depois de muita pressão da imprensa e da sociedade civil, as CPIs do Congresso Nacional começaram a resultar em sabores mais diferenciados. A despeito do costume histórico de se produzir aquela famosa ‘pizza’ em que o gosto de acinte e provocação desafiava a paciência de toda a sociedade, nossos nobres deputados e senadores passaram a agir com mais cautela, até porque as provas produzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público estavam cada vez mais contundentes.
Nesse sentido, começamos a ver alguns resultados que ameaçaram trazer um pouco mais de credibilidade ao desacreditado Congresso. A CPI do bicheiro Carlinhos Cachoeira foi um bom exemplo. Líder de mais um dos esquemas de desvio de dinheiro público orquestrados por grandes empreiteiras brasileiras, ele foi preso e passou um bom tempo na prisão, assustando muita gente lá pelo Brasil afora.
Não que o delito fosse algo inusitado. Muito ao contrário, esse esquema que atualmente tinha na empresa Delta o seu grande articulador é algo recorrente em nossa vida pública. Ao longo do último século, várias empreiteiras que hoje posam como virgens imaculadas já se locupletaram com esse patrimonialismo histórico, que insiste em misturar os recursos públicos com os privados.
O que pareceu diferente era a impressão que dessa vez o ‘bicho’ ia pegar. Para os mais otimistas, parecia mesmo que a ‘pizza’ pública brasileira estava finalmente sendo enterrada pelos princípios democráticos que balizaram nossa República, pelo menos no discurso.
Como efeito dessa impressão, os recursos financeiros escusos desapareceram das campanhas municipais, obrigando os candidatos a gastarem, ao invés do dinheiro desviado, muito verbo e sola de sapato.
Os tradicionais doadores, ou melhor, investidores, porque nesse mundo não existe ‘almoço grátis’, recuaram seus bolsos e seus apetites vorazes sobre o patrimônio público. Preocupados com os desdobramentos da CPI do Cachoeira e também do mensalão que já se avizinhava na época em que começaram os trabalhos no Congresso, resolveram aguardar o desenrolar dos acontecimentos.
Infelizmente, porém, o início das campanhas políticas e do julgamento do mensalão, a despeito de sua enorme importância para o fortalecimento de nossa democracia, diminuíram o espaço da CPI do Cachoeira tanto na mídia como nas mentes de nossos cidadãos.
Nesse entreato, forças políticas conservadoras, o que no Brasil curiosamente diz respeito ao governo e, por incrível que pareça, também à oposição, acabaram aproveitando as brechas e na articulação de bastidores acabaram enterrando a CPI.
Mais uma vez, parece que vamos ficar com aquele gosto de ‘pizza’ na boca. Mas, se ainda não veremos esses antigos esquemas desbaratados, podemos pelo menos ter a certeza de que mais um passo foi dado. A julgar pelo dinheiro disponível nessas últimas eleições, os ‘doadores’ parecem ter se assustado, o que é muito bom.
Agora é torcer pela ação do Ministério Público.