09 de julho de 2026

Uma verdadeira experiência gastronômica


| Tempo de leitura: 4 min

O arremedo de restaurante até que ficou bem elegante, embora muito pequeno, apenas quatro mesas com cadeiras de palhinha de espaldar alto e almofadas de linho cru com laços, que caem até quase o chão, muito confortáveis. Na verdade, não é esse o lugar original do restaurante Japengo, no Hyatt de Aruba. Ele é um dos três restaurantes do hotel que estão fechados para reforma. Creio que os melhores pratos de toda a Aruba estejam ali, guardados, à espera do término das reformas, ávidos por trocar pó por comida.

Por isso, deram um jeito para que o restaurante Japengo continuasse existindo: uma pequena parte do enorme corredor principal do hotel foi delicadamente dividida por voils, que ao sabor da brisa marinha inflam e murcham como se guardassem segredos marinhos que desaparecessem com o recuar das ondas.

Passei quase uma semana ensaiando me sentar ali para saborear um sushi ou sashimi de inspiração asiática além Japão. Mas, como foi uma viagem para mergulhar, a bebida alcoólica, ao menos pra mim, fica vetada, porque levantar cedo, enfrentar barco, mar, cilindro e medo requer lucidez total. Pois bem, sendo o Japengo a opção mais chique da viagem guardei para ele o único vestido, dei uma ajeitada nos cabelos, colar, brincos, batom, rímel. Tô bonita? “Tá linda!” Lá vamos nós.

O garçom, de aparência asiática, é extremamente gentil, sem ser intrometido, descobre logo que somos brasileiros e solta aquela interjeição - oh, brasileiros! - que o mundo inteiro faz quando nos descobre andando por aí. Entrega-me o menu, vejo que as opções são reduzidas, o que me agrada. Decido começar pelo básico, uma porção de sashimi, outra de niguiri. Daí, só por curiosidade, olho o canto direito do cardápio e vejo: “two pieces” U$ 8,00 e medito. Como assim? Acho que sei o significado da palavra pieces, mas o que vem a ser uma peça aqui e agora? Seria uma peça de 20 cm? De 10 cm? Mostro o preço ao meu marido e ficamos os dois romanticamente discutindo sobre fatias e preços de peixes crus.

Incrédulos, chamamos o garçom. A simpatia em pessoa nos explica, sorrindo, que cada fatia de salmão cru custa 4 dólares! Em português claro, o garçom estava nos dizendo que cada fatia de salmão cru custava mais ou menos 8 reais. O mesmo valendo para o niguiri. Ainda assim, não acreditei muito, vi passando um prato lotado de vários desses exemplares para a mesa ao lado e as pessoas pareciam normais, não se horrorizavam com o que pagariam.

Meia hora depois, algo tinha que ser feito. Meu drink, pela metade, exigia comida no estômago. O garçom se aproximou, quis saber se havia Hotel Hyatt no Brasil e como era, nos informou sobre a grandiosidade dos hotéis no Oriente Médio e do dinheiro que corre por lá... Seria uma provocação?

Bem, era o fim, ou pedíamos ou íamos. Pedimos duas peças de niguiri, duas peças de sashimi. O rapaz anotou o pedido, fez uma cara de satisfeito, como se fôssemos comer bem e bastante, o que me deu certa esperança.

De onde eu estava podia ver o sushiman trabalhar - e como trabalhou. Cortava, picava, derramava, trocava de faca, não era possível que aquele rapaz demorasse tanto pra cortar dois míseros pedaços de salmão. Apostávamos que aquela história de peças fosse apenas uma medida que não se aplicava ao nosso pedido. Então, vi o rapaz colocar em cima dos pratos algo como uns brotinhos de alfafa, parecia o enfeite final. Confesso que minha curiosidade era maior que minha fome. Por cima do meu ombro esquerdo, vi o garçom pegar o prato imenso e caminhar em direção a nossa mesa. Novamente sorrindo, ele depositou na nossa frente duas finas e róseas fatias de salmão e dois magrinhos niguiris (16 dólares!), abaixou-se e disse que tudo estava regado com um molho especial feito de melão.

E eu nem gosto de melão...

Dica da semana
O calor insuportável dos últimos dias pede pouca comida e leve. Daí que os peixes crus se encaixam muito bem nesse perfil e dá pra fazer em casa. Com um bom pão para acompanhar teremos uma refeição deliciosa e balanceada com um toque de sofisticação.

Vocês podem comprar salmão cru e pedir para fatiar. Mas é mais simples e barato comprar o peixe branco, uma tilápia, por exemplo, e pedir para o vendedor cortar em filezinhos com o peixe ainda congelado. Só descongele na hora de servir mesmo.

A receita tem perfil oriental, então não pode faltar molho de soja e gengibre. Faça um molho com as mesmas quantidades com vinagre e molho de soja e emulsione bem. Depois acrescente o gengibre ralado. Quanto à gordura pode-se usar o azeite extravirgem ou óleo de gergelim. Eu prefiro o azeite, mas, o óleo de gergelim é mais original.

Espalhe os filezinhos num prato raso sem sobreposição e jogue o molho por igual depois cebolinha verde cortada bem fininha. Esse molho cozinha o peixe, por isso, só finalize na hora de servir.

Você pode deixar o prato ainda mais sofisticado com um creme azedo: pegue o creme de leite, pingue umas gotinhas de limão e deixe descansar em temperatura ambiente por algumas horas e terá um creme azedo. Sirva com pão preto.