09 de julho de 2026

Qualidade da Industrial é garantida pela estrutura, docentes e alunos


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O professor Mauriel dedicou 46 anos de sua vida à educação: “Foi paixão à segunda vista”

Mauriel Arley Abib tem 66 anos de idade. Desses, 46 anos foram dedicados ao magistério, 32 deles à Escola Industrial Dr. Júlio Cardoso, um estabelecimento de ensino criado em 1924 e que nos últimos anos vem adquirindo cada vez mais importância em nossa cidade, salvando a reputação de nossas escolas públicas.

Nascido em Pedregulho, Mauriel passou toda a sua infância e juventude por lá. Nessa época, conheceu Franca, mas apenas por conta dos jogos de futebol que fazia em nossos campos de várzea, ocasiões em que invariavelmente ou perdia na bola ou apanhava no braço, como se recorda sorridente.

Caiu no magistério por completa falta de opção em sua Pedregulho. Naquela época, a dificuldade de transporte se impunha a quem não queria ou não podia sair da cidade, deixando apenas a opção do magistério para aqueles que não queriam trabalhar na roça ou no pequeno comércio que então existia.

Entre 1963 e 1965, fez a escola normal e se tornou professor do ensino fundamental 1. Depois de formado começou a dar aulas em fazendas. A despeito das dificuldades, aos poucos foi percebendo que apesar de ter entrado pela porta “dos fundos”, havia acertado a profissão.

Em 1967/68, lecionou na Usina de Estreito. No ano seguinte foi para São Sebastião, no litoral paulista, onde quase se acostumou à vida fácil da praia. Mas essa “festa” não durou muito. Naquele mesmo ano passou por São Paulo e, como um bom “quase” mineiro, voltou à região, sendo efetivado na Usina de Estreito, local onde ficou dez anos.

De 1974 a 1977, resolveu reciclar seus conhecimentos. Começou a cursar história na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca, que posteriormente seria encampada pela Unesp. No ano seguinte, seguiu com seus estudos e fez a complementação nas Claretianas, em Batatais.

Finalmente, no dia 2 de fevereiro de 1980, como faz questão de lembrar, entrou para aquela que seria a mais importante experiência de sua vida: a Escola Industrial Dr. Júlio Cardoso. Começou como professor e ao longo desses 32 anos passou por vários cargos dentro da escola, chegando finalmente ao posto de diretor da instituição, função que desempenhou por oito anos.

Depois de todos esses anos dedicados ao ensino, Mauriel se aposentou no ano passado. Apesar de ter passado o bastão, ainda não se acostumou totalmente com o novo status, tanto que invariavelmente se utiliza do pronome “nós” quando se refere à escola.

Casado com Heliet Cintra Abib, pai de três filhos já criados, Janaína, Daniel e Eduardo, Mauriel pretende agora descansar, recuperar-se de um câncer que o acometeu recentemente e continuar torcendo pelo sucesso dessa escola que ele julga uma das melhores do Brasil, comparando-a, inclusive, com as particulares que atuam no ensino médio e fundamental e hoje se destacam de forma mais positiva no cenário da educação brasileira.

Comércio da Franca - Como foi entrar no magistério meio por acaso e depois dedicar-se a ele por quase 50 anos?
Mauriel Abib -
Foi paixão à “segunda” vista (risos). É que em Pedregulho não tinha opção em estudos. Ou se fazia o magistério ou se fazia o magistério. Não havia nem o clássico, nem o científico. Quem quisesse fazê-los precisava vir para Franca, o que para mim era impossível naquele momento. Então não pensei duas vezes. Fiz o magistério e fui trabalhar. Com o tempo, não apenas me acostumei, mas também passei a gostar cada vez mais da escola, do ensino. E quando você gosta do que faz, aí não tem saída.

Comércio - De seus 46 anos de magistério, 32 foram dedicados à Industrial. O senhor vê diferença entre esse tipo de escola e as escolas públicas tradicionais?
Mauriel -
Sem nenhum desmerecimento às escolas tradicionais, até porque também fui professor do Estado, a diferença é muito grande, tanto em termos de qualidade de ensino, como de estrutura e organização.

Comércio - O senhor acredita que a razão dessas diferenças esteja na ligação das escolas industriais com o Centro Paula Souza?
Mauriel -
Com certeza. O Centro Paula Souza faz uma enorme diferença. Obviamente, não podemos negar que essas escolas já eram diferenciadas quando surgiram. Talvez por lidarem com o ensino profissionalizante, elas sempre foram vistas como uma espécie de esperança para o emprego futuro por boa parte dos pais de nossa comunidade. Mas é fato que depois de 1994, quando a Paula Souza assumiu essas escolas em todo o Estado, o ensino nessas instituições experimentou um incremento em sua qualidade. Em relação à Secretaria da Educação, a Paula Souza tem muito mais abertura e recursos, o que facilita nosso trabalho.

Comércio - E quais são essas diferenças que fazem com que duas escolas públicas consigam ser ao mesmo tempo tão diferentes em termos de resultados?
Mauriel
- São vários fatores. Em termos de estrutura, é preciso citar a existência de excelentes laboratórios. Eu garanto que não existe nenhuma outra escola em Franca com tantos computadores quanto a Industrial, nem as universidades e nem as particulares que atuam no ensino médio e fundamental. Pode até ser que elas tenham uma sala modelo muito bem equipada, aí sim melhor do que as nossas, mas não têm tantos laboratórios montados e funcionando quanto a Júlio Cardoso. Para você ter uma idéia, nosso laboratório de enfermagem já foi emprestado para a Secretaria Municipal de Saúde desenvolver treinamento com seus funcionários. Já foi emprestado para a Santa Casa, para a Unimed e até mesmo para a Unifran, que tem muito mais poder econômico do que a gente, quer dizer, a Industrial, porque eu não estou mais lá... (risos). E isso sem falar na biblioteca e em outros espaços totalmente informatizados que ficam constantemente à disposição dos alunos.

Comércio - Há diferenças em termos pedagógicos?
Mauriel -
Em termos de conteúdo eu penso que não existem grandes diferenças, mas no que diz respeito aos processos, e a gestão desses processos, não tenho dúvida. Por exemplo, todos os alunos do ensino técnico têm um “pen card” com todas as disciplinas de cultura geral, um convênio que a Paula Souza fez com a Fundação Padre Anchieta. Por meio dele, os alunos acessam os mais diversos conteúdos ligados aos bens culturais produzidos pelo homem, o que serve como um excelente complemento ao que foi trabalhado em sala de aula. Ainda dentro desse convênio, existe o programa Clic Idéia. Nesse programa, os alunos recebem uma senha e com ela têm acesso a um variadíssimo material para estudar física, matemática, química, história e todas as outras disciplinas. Outra coisa interessante em nossa escola é o projeto de teatro que une os professores de artes e português. São formados vários grupos que ensaiam e apresentam adaptações dos livros indicados para o vestibular, uma forma diferente e mais lúdica de aprender, mas não menos eficaz.

Comércio - E os processos de gestão, como o senhor falava, como eles se diferenciam?
Mauriel -
Em relação à gestão, nós somos obrigados a planejar o ano letivo de acordo com os resultados de uma avaliação que é feita pelo Centro Paula Souza, o SAI (Sistema de Avaliação Institucional), que foca os atuais alunos, e o SAIE, que se concentra nos egressos. Se o aluno diz que não aprendeu tal coisa, ou aponta qualquer outro problema, nós vamos avaliar junto com o coordenador pedagógico e todos os professores para eliminá-lo no próximo ano ou corrigi-lo imediatamente, se for possível. Mas, além dessa avaliação geral, fazemos também uma avaliação interna.

Comércio - Apesar de a escola ser diferenciada, o salário deve estar no mesmo nível daquele recebido pela maioria dos professores, o que os obrigaria à dupla jornada. Em função disso, os professores não reclamam de tanto trabalho em termos de planejamento e avaliação?
Mauriel -
No começo, o pessoal resiste um pouco, mas depois percebe que a sistemática funciona, que ela não existe com o intuito de punir, mas sim de prevenir, planejar e melhorar. Percebe, também, que o aluno e a escola crescem e que no final todos acabam ganhando. Para se ter uma idéia, desde que a Paula Souza instituiu esse sistema de avaliação, ou seja, nesses últimos cinco anos, a Industrial de Franca esteve sempre liderando o ranking das melhores do Estado, o que tem rendido bônus e um pouco de status, mas não muito, que professor já não tem mais status hoje. Além do dinheirinho que entra, deve fazer bem ao ego, porque essa conquista é resultado principalmente do trabalho docente.

Comércio - Como o senhor conseguia manter esse clima positivo dentro da escola, motivando professores que atualmente estão bastante desvalorizados e desmotivados?
Mauriel -
Você disse a palavra certa. Acho que é o clima que se respira lá dentro. A organização, as condições de trabalho, as avaliações, o planejamento, os bônus, os projetos complementares, tudo isso junto ajuda a criar um clima de trabalho muito bom. É claro que não estou falando de um paraíso. Nós também temos muitos problemas. A maioria dos professores tem dupla jornada. Eu mesmo, durante quatro anos, cheguei a dar 64 horas de aula por semana, trabalhando aqui e no Estado. Na área técnica, muitos de nossos professores têm seu próprio negócio ou são autônomos. Mas, ao mesmo tempo, temos professores que vão à escola fora do horário para dar reforço ou desenvolver qualquer outra atividade sem ganhar nada por isso.

Comércio - Em relação aos alunos, também existe essa diferenciação e essa motivação?
Mauriel -
Sem dúvida. Aliás, entre todos esses fatores que mencionei, é preciso destacar que a qualidade e a disposição dos alunos são os principais diferenciais da escola. De nada adiantaria laboratórios, estrutura, organização, professores motivados e processos de gestão se não tivéssemos alunos comprometidos e com muita vontade de aprender. Lá, os professores não podem bobear porque os alunos cobram mesmo. E se temos alunos diferenciados, temos consequentemente pais também diferenciados, que cobram na mesma proporção e participam mais ativamente da vida escolar de seu filho, o que é muito importante para o resultado final do processo.

Comércio - A que o senhor atribui essa qualidade superior dos alunos da Industrial?
Mauriel -
Principalmente ao vestibulinho. No ano passado tivemos 860 candidatos para 160 vagas. Ficamos apenas com os melhores. Além disso, na Industrial tem reprovação. Se o aluno reprovar em três disciplinas, ele precisa cursá-las novamente. Até duas ele pode levar como dependência, mas três não tem jeito. Tudo isso faz com que ele se disponha com mais vontade ao aprendizado. Ele tem vontade de aprender, o que é bom em dois sentidos. Por um lado, ajuda o professor, já que este experimenta todos os dias uma sala de aula receptiva e confiante em seus ensinamentos. Por outro, também cobra desse professor uma reação a qualquer sinal de acomodação.

Comércio - Como o senhor vê o futuro da Industrial?
Mauriel -
Com muita tranquilidade. A equipe é muito boa. Quase não muda, porque ninguém quer sair. Isso cria cumplicidade e ajuda na manutenção desse clima e na busca por resultados.