Votar é o mais puro exercício da cidadania, a maneira mais eficiente e cristalina por meio da qual o povo exerce sua soberania. No entanto, a obrigatoriedade do voto não chega a ser uma unanimidade entre nossos mais eminentes pensadores. Para alguns ela seria antidemocrática e portanto deveria ser expurgada de nossa Constituição. Mas para outros essa obrigatoriedade ainda seria importante e necessária para aproximar parcelas consideráveis de nossa população da vida política e cidadã.
Para esses últimos, acabar com a obrigatoriedade do voto seria bastante perigoso, já que muitos poderiam se abster desse direito e abrir caminho para que grupos poderosos se organizassem mais facilmente para galgar e permanecer no poder.
No entanto, a julgar pelo resultado do primeiro turno das eleições municipais em Franca, essa obrigatoriedade não está fazendo muito efeito. Pode até obrigar a presença, mas não obriga a escolha, nem mesmo a participação política. De acordo com levantamento da Justiça Eleitoral, publicado por este Comércio no sábado, 20/10, Franca contabilizou quase 55 mil votos desperdiçados por nossos eleitores, considerando-se os nulos, os que foram deixados em branco e o total de abstenção.
Para se ter uma idéia do tamanho do desperdício, o número supera a votação do segundo candidato mais votado e a somatória de votos dos candidatos que ficaram em terceiro e quarto lugares. Dos 224 mil eleitores cadastrados na cidade, quase 25% preferiram abdicar do sagrado direito de eleger seus governantes.
A leitura mais provável desse cenário, obviamente, é que as pessoas estão bastante desiludidas em relação à política e aos políticos brasileiros. Além da descrença em relação a mudanças substanciais que possam acontecer em nossa sociedade em um curto espaço de tempo, é bastante provável que a série de escândalos e falcatruas que envolve políticos (vide o mensalão) e que se sucede ininterruptamente em nossos noticiários esteja influenciando essa atitude mais apática por parte de nossos cidadãos.
Dentro desse contexto, talvez já esteja na hora de avaliarmos a obrigatoriedade do voto. Mesmo considerando a baixa escolaridade do povo brasileiro, é muito improvável que grandes parcelas de nossa população sejam manipuladas por interesses de grupos poderosos, uma vez que o fluxo de informação nos dias de hoje está bastante disseminado mesmo entre os extratos populacionais de mais baixa renda, uma situação que é bem diferente do que acontecia no final dos anos de 1980, quando a chamada Constituição Cidadã estabeleceu essa obrigatoriedade.
Mesmo que sem essa obrigatoriedade o percentual de votos válidos venha a cair ainda mais nas próximas eleições, já está na hora de devolver ao cidadão o livre arbítrio em relação ao voto. Talvez sem essa obrigatoriedade, com o tempo o cidadão se sinta mais livre para votar.