A indústria calçadista de Franca vem sofrendo bastante nos últimos anos. Acuada pela concorrência internacional, a maioria de nossas empresas perdeu espaço no mercado externo e precisou da ajuda governamental para expandir sua presença no interno.
De forma geral, o motivo desse sofrimento se encontra dentro das próprias empresas. Sem um grande diferencial de mercado, com recursos humanos desmotivados e mal preparados, sem uma marca forte e estabelecida em todo o território nacional, com defasagem em termos de equipamentos, processos e procedimentos, e geralmente muito dependentes de seus representantes comerciais, muitas de nossas empresas começaram a enfrentar mais dificuldades para competir e para sobreviver. Como não se modernizaram e não se adequaram corretamente às novas práticas de gestão, tiveram que assistir à perda do lucrativo mercado internacional e começar a brigar pelas fatias mais concorridas do nacional.
No entanto, no que diz respeito ao design, parece que as nossas indústrias não têm do que reclamar. Mais uma vez, nosso polo calçadista voltou a se destacar no cenário nacional e classificou oito designers para a final em várias categorias do prêmio Top de Estilismo, uma grande vitória para a cidade nesses tempos ‘mais bicudos’ de competição acirrada e retração de mercados.
Como design atualmente é um dos principais diferenciais de qualquer produto ou serviço, entendendo esse atributo em toda a sua complexidade e não apenas enquanto embalagem ou formato do bem produzido, esse resultado prova que temos espaço e caminhos para fortalecer nossa indústria e destacá-la nos cenários nacional e internacional.
Se investirmos em um design próprio e arrojado, utilizando para isso toda a criatividade que nossa excessiva miscigenação e nossa história social e política nos proporcionaram, e que em outras áreas já tem encantado o resto do mundo, com certeza poderemos com o tempo nos tornar referência nessa área, agregando muito valor à marca de todos os calçados francanos.
Mas é claro que isso não virá de ‘mão beijada’. Será necessário investir em treinamento e em recursos humanos. Será preciso uma articulação política arrojada com toda a cadeia produtiva, com o governo em todos os seus níveis e com várias outras organizações da sociedade civil, como universidades e centros de pesquisa.
Em função disso, está na hora de nossos empresários e nossas autoridades acordarem para a realidade que vivenciamos atualmente. Se lembrarmos dos ensinamentos milenares contidos no ensaio ‘A arte da guerra’, do chinês Sun Tzu, vamos perceber claramente que o design é um importante caminho a ser seguido por todo o setor, já que, segundo esse livro, é sempre bom jogarmos a partir de nossos pontos fortes.
Se somos bons e criativos no desenho de novos produtos, está na hora de investirmos pesado nesse setor, transformando-o no principal diferencial de nossos calçados.