Esse é o tema principal das leituras da Palavra de Deus que serão proclamadas nas missas deste domingo
De modo muito simples vamos conseguir aprofundar o sentido de todas as coisas que estão no mundo e se encontram à nossa disposição. A sabedoria, junto com os demais dons do Espírito Santo, nos possibilita orientar a nossa vida segundo os desígnios de Deus.
PRIMEIRA LEITURA — SABEDORIA 7
O livro da Sabedoria é resultado da reflexão dos judeus que se encontram em Alexandria, no Egito, ao redor do ano 50 A.C. Para dar importância e credibilidade à proposta da sabedoria, o escrito é atribuído a Salomão, considerado rei sábio, mesmo que, historicamente, não tenha sido tão sábio e tão justo como se apregoava.
A sabedoria é contemplada como o maior bem que uma pessoa possa adquirir, acima de todo poder e de toda riqueza, “pois todo o ouro, ao lado dela, é como um punhado de areia”. Deve ser amada “mais que a saúde e a beleza”. Essas coisas passageiras somente adquirem valor verdadeiro quando iluminadas pelo brilho da luz sem ocaso, que é o da sabedoria, “a mãe de todas as coisas”. Quando o livro foi escrito, o povo de Israel tinha conhecimento de que a sabedoria fazia parte dos dons do Espírito de Deus. É dom de Deus e deve-se pedir com confiança.
SEGUNDA LEITURA — HEBREUS 4
A leitura nos ensina que a Palavra de Deus é muito diferente de divagações ocas. Tem cinco características: antes de tudo, é “viva e eficaz”. A partir do momento qye sai da boca do Senhor, sempre produz resultados porque possui dentro de si a vida e a força de Deus. O profeta Isaías a compara à chuva que não cai em vão: não volta para cima sem ter fecundado a terra e produzido frutos. Além disso, é “cortante e penetrante” mais do que uma espada afiada, rija, inflexível. Penetra até o âmago de quem a escuta. Não é uma pluma que acaricia as orelhas. Por fim, é também “juiz” de todas as nossas ações. A palavra que nos deixa tranquilos e sossegados, que não perturba, que nos permite mantermos intactos todos os nossos hábitos, que não transforma a vida da comunidade, esta, com certeza, não é a palavra de Deus, é pura conversa.
EVANGELHO — MARCOS 7
Na parte central do Evangelho de Marcos, Jesus mostra aos discípulos a conduta exigida para poder segui-lo. A primeira parte da narrativa nos traz o diálogo de Jesus com um jovem rico que se apresenta, prostra-se de joelhos diante dele e lhe pergunta: “Bom Mestre, o que devo fazer para conseguir a vida eterna?” O jovem não fala de “conquistar, merecer, ter direito”, mas de “herdar” a vida eterna. Não obstante tenha entendido que a vida eterna é uma herança, o jovem rico pergunta a Jesus: “ O que devo fazer?” Como resposta Jesus o estimula a observar os mandamentos. Muitos cristãos pensam que os mandamentos sejam uma prova, uma verificação à qual o Senhor submete os homens para testar fidelidade. A lei de Deus não é um exame severo, mas é a palavra de um Pai devotado, que sinaliza para os filhos o caminho da liberdade e da felicidade. A resposta do jovem rico é surpreendente: causa-nos um certo espanto que ele afirme com tanta convicção que observou todos os mandamentos desde sua infância. Provavelmente também não estivesse isento de alguma falta; também ele poderá ter cometido alguns erros como acontece com todos. O seu julgamento sereno e tranquilo, porém, deve servir para todos nós como inspiração para uma avaliação mais otimista, menos aflita e rigorosa da nossa vida. Jesus, ao ouvir a resposta do jovem rico, “fixou nele o olhar e o amou”. No jovem rico ele fixa um olhar carinhoso, afetuoso, porque percebe que o seu coração está preparado para um voo mais alto e então lhe dirige um convite decisivo: “Vai, vende tudo o que tens e distribui aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me”.
Não é possível tornar-se discípulo se o coração não estiver desprendido de tudo o que se possui: sucesso, diplomas, objetos, amigos influentes, honras, posição de prestígio... Observe-se com atenção: não é imposta a obrigação de dar alguma coisa como esmola, mas é feita a solicitação para renunciar a tudo; e isso não é brincadeira! Jesus não condena a riqueza, mas a ansiedade de acumular fortuna de forma gananciosa. Encerra-se o episódio com a opção do rico em continuar com os seus bens. Não tem a coragem de aceitar a proposta de Jesus, não confia, não se anima a arriscar, tem medo de perder, afasta-se acabrunhando. Está angustiado porque não tem a coragem de desapegar-se dos bens. Não consegue entender que o coração do homem foi criado para o amor infinito, e enquanto permanecer escravo de coisas materiais só lhe restam o desencanto e a infelicidade.
A segunda parte nos relata as considerações de Jesus sobre os perigos da riqueza. Quanto mais riquezas alguém possui, mais forte se faz sentir a tentação de amarrar o próprio coração aos próprios tesouros, a ponto de se tornarem um obstáculo quase insuperável para quem pretende entrar no Reino dos céus. Na última parte é apresentada a relação das pessoas e das coisas das quais o discípulos deve desapegar-se. Quem pensa somente em si mesmo, na própria mulher e nos próprios filhos, quem afirma que não quer se intrometer nos assuntos dos outros porque não lhe interessam, talvez até possa sentir-se prudente, precavido, diferente, mas na verdade é somente um egoísta, incapaz de enxergar qualquer coisa além da soleira da sua casa.
Quem não se preocupa com ninguém mais do que com os próprios parentes e com os próprios amigos e não abre o coração às dores e às alegrias dos irmãos da sua comunidade, quem não é sensível aos problemas do seu povo e da humanidade, permanece escravo de um camuflado egoísmo e está separado do amor universal que Jesus propõe ao seu discípulo.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br