09 de julho de 2026

Tecnologia e criatividade são as armas para combater a violência


| Tempo de leitura: 9 min
Sérgio Kodato, que acaba de lançar livro com experiências dos professores no combate à violência nas escolas

Sérgio Kodato é filho de japoneses. Como essa etnia preza bastante os estudos. Aos cinco anos já frequentava a escola japonesa, sendo alfabetizado na língua dos pais. Aos sete, já entrava para a vida escolar brasileira, de onde, de certa forma, nunca mais saiu. Hoje, aos 58 anos de idade, separado e pai de dois filhos, além de professor do Departamento de Psicologia da USP, em Ribeirão Preto, é também coordenador do Observatório de Violência, um núcleo de pesquisadores que busca entender e traçar estratégias para prevenir o problema da violência nas escolas públicas e também reduzir sua incidência.

Como quase todos os descendentes de japoneses, Kodato afirmou que sua vida foi bem “certinha” até os 16 anos. Convivendo quase que exclusivamente com jovens de sua comunidade, ele vivia dentro dos rígidos padrões de seus pais, desenvolvendo-se nos estudos e em outras atividades que hoje considera importantes para sua formação.

Aos 16 anos sua vida deu uma guinada. “Eu passei a estudar no período noturno e conheci várias pessoas diferentes, vindas de todos os lugares, o que mudou muito o meu comportamento.”

A partir desse momento, colocou o pé no freio da vida certinha e pisou mais fundo no acelerador da boemia e da vida mais alegre dos bares e festas da cidade. Foram dois anos de muita “gandaia” e alegria, como ele mesmo diz. Aprendeu a beber pinga, tomou vários “pifões” e preocupou-se quando se descobriu virgem aos 16 anos de idade.

Logo veio o vestibular e ele não passou na primeira tentativa. O sinal de alerta começou a piscar e a “gandaia” precisou ceder espaço ao cursinho, que ele então resolveu levar a sério.

A primeira idéia era prestar psicologia. Mas um professor o aconselhou a tentar a medicina, uma profissão até certo ponto próxima e que seria, no mínimo, mais rentável. Ele ouviu e acabou prestando vestibular para medicina. Conseguiu entrar na cobiçada USP-Pinheiros, mas logo se arrependeu.

“Não consegui me adaptar. O pessoal era muito ‘CDF’ e não tinha movimento estudantil. A direita era pesada.”

Com quase 20 anos de idade, resolveu trocar de curso. Prestou psicologia na mesma USP e, em meados dos anos de 1970, em plena ditadura, se mudou para a Cidade Universitária, onde havia um forte movimento estudantil.

Depois de formado, trabalhou como psicólogo da LBA (Legião Brasileira de Assistência) e, em 1982, foi aprovado em concurso para dar aulas na Universidade Federal de Uberlândia, onde ficou 16 anos.

Mestre e doutor em psicologia escolar e desenvolvimento humano pela USP, esse pesquisador da violência nas escolas esteve em Franca no último dia 2, a convite do Centro Universitário Unifacef e do Conselho Municipal de Educação. Veio para falar dos resultados das pesquisas realizadas pelo Observatório da Violência e para divulgar o livro que resultou dessas experiências.

Comércio da Franca - O senhor disse que até os 16 anos foi um descendente de japonês clássico, compenetrado e quieto. Depois descobriu a boemia, a diversão. Em que isso influenciou sua trajetória profissional e o trabalho que desenvolve hoje em dia?
Sérgio Kodato -
Acho que me abriu a cabeça e me deu novas perspectivas. Pude, dessa forma, experimentar ainda mais a questão da convivência e da tolerância em uma comunidade plural como a brasileira, cheia de etnias, religiões e culturas diferentes. Naquela minha nova turma tinha turco, negro, brasileiro e até coreano, uma ótima experiência para quem até então convivia apenas com japoneses. Com aquela turma descobri a alegria de ser jovem e a equilibrar melhor os prazeres e os deveres que precisamos enfrentar na vida. Isso obviamente influenciou nas escolhas que fiz posteriormente na vida profissional.

Comércio - O senhor prestou concurso para dar aulas na Federal de Uberlândia e ficou lá por 16 anos. Por que saiu?
Kodato -
O curso de psicologia da UFU foi formado a partir de um curso de pedagogia herdado das freiras e isso acabou trazendo sérios problemas. De forma geral, o pessoal era muito conservador. Ali só havia aulas e conchavo político. Não tinha pesquisa nem nada fora disso. Eu queria jogar na “primeira divisão” das universidades, onde se faz pesquisa de verdade. Aí surgiu uma oportunidade na USP. Mas fiz muita coisa em Uberlândia e também fui feliz por lá. Ajudei a desenvolver o departamento e trabalhei na reforma curricular. Casei com uma aluna e tive dois filhos. Mas depois me separei e vim para Ribeirão.

Comércio - Como surgiu esse trabalho ligado à violência nas escolas?
Kodato -
Quando cheguei em Ribeirão Preto, o promotor Marcelo Goulart estava preocupado com o número de mortes entre jovens e adolescentes na cidade. Por intermédio da Promotoria da Infância e Juventude, ele já havia conseguido reunir entidades sociais e instituições públicas em torno dessa questão, buscando discutir e adotar estratégias para diminuir essa violência. Como eu já pesquisava nessa área e a USP estava envolvida no projeto, fui convidado pelo promotor para desenvolver uma pesquisa e tentar entender melhor o que estava acontecendo. Depois de algum tempo, descobrimos que a maioria dos adolescentes era morta por outros adolescentes e que quase todos tinham passagem pela antiga Febem, hoje Fundação Casa. Daí o promotor entrou com processo contra a Prefeitura e a Febem, porque na visão dele esses órgãos estariam se omitindo do problema.

Comércio - E foi daí que surgiu a idéia do Observatório de Violência?
Kodato -
Lembro que meu pai me dizia uma coisa: “Brasileiro fala muito, portanto fala muita bobagem; japonês fala pouco, portanto não fala bobagem”. Digo isso porque com essas ações da Promotoria o caso acabou ganhando uma grande repercussão na mídia. E com meu jeito objetivo de falar acabei sendo muitas vezes requisitado pela imprensa. Com toda essa repercussão aproveitamos o momento e então entramos com um projeto de pesquisa junto à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Conseguimos uma casa, equipamentos e 10 bolsas para que professores da rede pública, supervisionados por docentes da USP, começassem a desenvolver pesquisas com a finalidade de reduzir os níveis de violência e agressividade dentro das escolas e de tentar melhorar a qualidade do ensino. Hoje já estamos com 30 professores pesquisadores e lançamos um livro com o resultado dessas pesquisas.

Comércio - Em sua opinião, pelos resultados obtidos até agora, ainda é possível salvar a escola pública brasileira, que nos últimos anos está indo de mal a pior?
Kodato -
Com certeza. O problema da educação brasileira é que ficamos praticamente 30 anos sem os investimentos necessários. Se você for ver, o que temos por aí são escolas deterioradas, lousas caindo, prédios mal conservados e professores desmotivados e mal pagos. Nessa situação, fica difícil melhorar qualquer coisa. Mas se mudarmos essa postura, tenho certeza de que podemos fazer muitas coisas. Veja o exemplo da Coréia. Há 30 anos, o país estava em uma situação muito pior do que a nossa. Investiu pesado em educação e agora está aí exportando carros, celulares e outros produtos de alto valor agregado. Veja também o caso da China, onde estive há pouco tempo. Foi lá que eu entendi o problema da escola brasileira. Apesar de ter mais crianças do que nós temos de população, lá a escola funciona em período integral. Durante um único período, os alunos estudam somente mandarim e matemática. A solidariedade entre eles também é muito forte. As escolas boas ajudam as ruins e a partir da quarta série eles batem pesado na autonomia e na auto-organização do aluno...

Comércio - Mas como fica essa autonomia em um regime praticamente ditatorial, de partido único?
Kodato -
Uma coisa não se mistura com a outra. Essa questão de autonomia e auto-organização é algo filosófico, ancestral. Vem desde Confúcio e faz parte da cultura e do estilo de vida deles. Não significa que eles tenham autonomia para desafiar o poder do partido, por exemplo. É mais uma questão de autonomia para os estudos e para a vida cotidiana.

Comércio - Voltando à questão da violência nas escolas, o senhor não acha que sua origem está na sociedade e não na escola?
Kodato -
Está na sociedade, mas está na escola também, nas relações que se estabelecem entre professores, alunos, dirigentes e a comunidade. Em Ribeirão, mais precisamente na Vila Carvalho, temos duas escolas, uma próxima da outra. O bairro é complicado, com tráfico de drogas forte e atuante. Como explicar que uma funciona e a outra não? Se a violência fosse um fenômeno de fora para dentro, então ela deveria acontecer da mesma forma em todas essas escolas de periferia e isso não é verdade. Pode ter certeza de que a sua incidência também tem correspondência na atitude dos diretores e dos professores junto à comunidade.

Comércio - Depois de todo esse tempo pesquisando, o que o senhor acha que poderia ser feito para acabar com essa violência e melhorar a qualidade do ensino?
Kodato -
Em primeiro lugar, é preciso colocar tecnologia dentro das escolas. O aluno de hoje é um “nativo digital”. Nasceu e conviveu em uma era tecnológica, mesmo que seja de baixa renda. É preciso equipar as salas com lousas digitais e outros equipamentos modernos, para que eles se sintam importantes. Também os professores precisam ter notebook, iPad ou qualquer outro aparelho. As salas de informática não podem ser montadas com computadores ruins, ao contrário, precisam ser os melhores.

Comércio - O senhor acha que tecnologia irá resolver o problema?
Kodato -
Não só tecnologia, mas tenha certeza de que ela é muito importante. Mas também precisamos reinventar a própria aula e o sentido da profissão de professor, que aliás é a base de nossas pesquisas e do próprio livro. É preciso criar um clima para que a aula transcorra com tranquilidade, seja com uma piada, com um relaxamento yoga, como faz um de nossos professores, com um filme ou com qualquer outra metodologia que funcione. Erroneamente, estamos começando a acreditar que os alunos das escolas públicas são pequenos bandidos, mas quando você consegue captar a atenção deles você percebe claramente que são apenas crianças.

Comércio - Mas o senhor acha que tudo isso é possível com professores que precisam trabalhar em duas escolas ou em dois empregos para compor seus rendimentos?
Kodato -
Não, claro que não. É preciso que o professor seja contratado em período integral. Ele precisa fazer parte daquela escola, trabalhar dentro e fora da sala de aula, pois só assim ele poderá reinventar sua metodologia e desenvolver projetos que dinamizem o conteúdo e a forma das aulas atuais, todas elas sabidamente muito chatas para o tipo de jovem e adolescente de hoje.

Comércio - O Observatório tem algum modelo do que pode ser feito para essa melhoria?
Kodato -
Existem alguns. Tem professor de física utilizando a linguagem teatral para passar seus conteúdos. Tem professor de história fazendo uma espécie de júri para discutir e refletir sobre os acontecimentos passados e assim por diante. Mas não vai nisso nenhuma novidade radical. É só uma questão de ter mais tempo, de treinamento para os professores, disposição, tecnologia e solidariedade entre todos os envolvidos.

Comércio - O livro “O Brasil Fugiu da Escola” que o senhor acaba de lançar mostra tudo isso?
Kodato -
Ele é o resultado dos relatórios feitos para a Fapesp pelos 30 professores bolsistas. Eu apenas reescrevi essas experiências porque em forma de relatório seria praticamente impossível publicá-las. Ninguém leria. Mas o conteúdo são as experiências desses professores. E são ótimas e promissoras.