Sempre defendi com unhas e dentes o voto consciente e a valorização das eleições como uma celebração da democracia, mas tá difícil, viu? A cada ano eleitoral reparo que as coisas vão perdendo a seriedade. Quer ver? Visitei o site www.eleicoes2012.info para pesquisar sobre os candidatos da cidade na qual voto e encontrei estes aqui, apenas uma fração dos candidatos com nomes, digamos, diferentes. Peço a você paciência:
Bahia do Bar, Ligeirinho, Gordão do Engenho, Mão de Ouro, Tarzan, Toninho Chapelleta, Kascata, Bau, Bedeu do Fogão, Baixinho, Coquinho, Gigante, Indio Keka, Coxinha.com, Didi da Ambulância, Ratão, Nego Drama, Fumaça, Danone, Edson Beiçola, Edson Perereca, Formiguinha, Beth Simpatia, Enecy de Bem com a Vida, Gabiru, Canarinho, Vaca, Lélé, Alemão Pirulito, Helio Linda Meu Bem, Cheirinho, Joana do Sameb, Chuchu, Jorge Lacraia, Pardal, Zeca Urubu, Sukita, Barney, Jurandy Pilekão, Tia da Cozinha, Buda, Zeza Zerada, Lidia Beleza Negra, Odete Roitman, Regiane do Pagode, Cipó, Rogéria Colchão, Perna, Sandra Valeria do Almoço, Tiago Cowboy...
E se nas eleições de 2012 se apresentaram 15.641 candidatos para prefeito e 449.749 para vereador, imagine o que mais não apareceu por aí. Você entra na cabine para exercer seu direito sagrado, digita um número na urna eletrônica e vê surgir a foto do Chulé. Da Vilma do Umbigo Roxo. Do Chico Cachaça.
Tá bem, esses nomes estranhos sempre existiram, mas houve um tempo em que eram apenas pitorescos. Hoje já representam no mínimo 30% do total dos candidatos, e nada vejo de pitorescos. São a avacalhação de um momento que deveria ser sagrado.
Ainda na minha cidade, um dos mais ativos na propaganda de rua é o candidato que se parece com Agostinho, personagem vivido por Pedro Cardoso em A Grande Família, a comédia famosa da Rede Globo. Nas fotos dos cartazes ele surge com a característica roupa quadriculada, sentado num taxi.
Atordoado, ligo a televisão e assisto no horário político a uma bela moça dizendo: “Sou a mulher que foi trocada pela Bruna Surfistinha. De traição eu entendo. Chega de traição. Vote em mim...”.
Pois é... Dá para levar a sério um candidato que expõe como atributo para ser votado o fato de se parecer com um personagem de comédia ou de ter sido chifrado? Dá para levar a sério uma eleição que tem o Lesma, o King Kong e a Zoiuda do Funk como candidatos? Qual será o fundo do poço? Talvez fosse hora de o Tribunal Superior Eleitoral endurecer as regras do jogo, proibindo o deboche com um Código de Decoro Pré-Parlamentar.
Um pouco de respeito não fará mal a ninguém. Pesquisei com cuidado e escolhi meus candidatos. Não achei meu voto no lixo e faço questão de valorizá-lo. Mas não posso negar... avacalhação por avacalhação, me deu vontade de votar no Vaca.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista