08 de julho de 2026

Amor matrimonial


| Tempo de leitura: 4 min

 

Estamos em outubro, mês missionário, do Rosário e também, político. Nas urnas, hoje, estamos escolhendo prefeito e vereadores que governarão nossas cidades nos próximos quatro anos

Quantas vezes já ouvimos que a Igreja não deve se meter na política, e sim, cuidar da religião, das coisas de Deus, o que nos parece certo, se entendermos por política as diferentes concepções e maneiras de se governar, próprias dos partidos políticos. No entanto, se política for a arte de governar e conduzir uma cidade, nação ou Estado, então, como cidadãos, temos não só o direito, mas também o dever de participar. As leituras deste 27º Domingo do Tempo Comum apresentam temática sempre atual: a união matrimonial. Fruto do amor de um homem e uma mulher, o matrimônio aparece como projeto de Deus para o ser humano na busca da realização e da felicidade.

PRIMEIRA LEITURA — GÊNESIS 2
O texto relata a criação da mulher e mostra o que significa ser humano na perspectiva do projeto de Deus, Javé reconhece que “não é bom que o homem esteja só”, porque solidão é sinônimo de maldição divina, de excomunhão. 

O texto de hoje fala, pois, do objetivo pelo qual o ser humano existe: é em vista da comunhão que fomos criados. O aspecto antropológico mais importante deste capítulo não é a capacidade que as pessoas têm de dominar as coisas criadas; pelo contrário, é a capacidade de se relacionar, formando a comunhão mais íntima que possa existir entre dois seres humanos. Essa comunhão tem raízes comuns: homem e mulher são humanos; estão em pé de igualdade; um é parte do outro; qualquer um deles, sem o outro, é incompleto e infeliz. 

É isso que a Bíblia ensina a respeito da relação homem-mulher. É o que o povo de Deus descobre: “Aprendi isso à luz da Palavra de Deus. Por que Deus tirou a mulher do lado (da costela) do homem? Do lado para caminhar juntos, para ser companheira. Por que não foi tirada do osso do pé? Se fosse pra ela andar debaixo dos pés do homem, Deus a teria tirado do osso do pé. Ela é companheira, por isso foi tirada do osso do lado. É aquela que caminha junto, que decide junto. É aquela que trabalha junto.” (Luzia Santos Florêncio).

SEGUNDA LEITURA — HEBREUS 2
A partir deste domingo e até o final do Tempo Comum, a segunda leitura recolhe trechos significativos da “carta aos Hebreus”. Os destinatários “são um grupo de cristãos que se acham em grande perigo de rejeitar a fé em Jesus como revelador e portador da salvação”. O capítulo 2 de Hebreus tem como tema a solidariedade de Jesus com os seres humanos, “filhos que Deus leva à glória”. O projeto de Deus é conduzir a humanidade à vida plena. Ele realizou isso mediante o Filho, autor da salvação, o sacerdote (santificador).

Os cristãos são convidados a superar o escândalo da encarnação, paixão e morte de Jesus, contemplando-o agora coroado de glória e de honra, após ter vencido a morte. A encarnação de Jesus (feito um pouco menor que os anjos, sua morte na cruz em nome de todos, é a forma que Deus encontrou para se solidarizar plenamente com a humanidade. Jesus, o santificador, e os cristãos, os santificados, vêm todos do mesmo Deus e Pai. Por isso, morrendo na cruz, Jesus se tornou plenamente solidário, a ponto de não se envergonhar em chamar “irmãos” aqueles que remiu. 

EVANGELHO — MARCOS, 10
No evangelho, Marcos nos leva a uma análise sincera do matrimônio e da opção preferencial de Jesus pelos pobres. Os fariseus, que conheciam muito bem a Lei de Moisés, os costumes e a tradição, questionam Jesus com má intenção. A pergunta ‘é permitido ao homem repudiar sua mulher?’ nada mais é do que tentativa de colocar Jesus em contradição frente à Lei, dando-lhes assim, motivos para condená-lo. Eles já sabiam a resposta, mas queriam saber se Jesus estava do lado de Moisés ou se confirmava ser um desertor da lei.

Jesus responde à pergunta dos fariseus com outra pergunta e confirma que, na Lei de Moisés, havia realmente a possibilidade de se fazer a carta de divórcio. No entanto, esta carta se justificava devido à “dureza dos corações”. Usando das palavras do próprio Gênesis, Jesus qualifica e consagra a união matrimonial, afirmando que Deus os fez homem e mulher. Estes deverão deixar seu pai e sua mãe para se unirem e não serão mais duas pessoas, mas uma só. Conclui, então, dizendo que o que Deus uniu o homem não pode separar. Esta frase conclusiva da argumentação de Jesus soa como um ditado popular da época, hoje, um provérbio muito usado.

No versículo 13, surgem novos personagens: as crianças. Os discípulos repreendiam os adultos que traziam crianças para que fossem tocadas por Jesus. Provavelmente eram crianças marginalizadas pela sociedade judaica. Jesus indignado com os discípulos chama-lhes a atenção, afirmando que o Reino de Deus é dessas crianças, e quem não for capaz de se tornar uma delas, não fará parte dele. É preciso que os adultos sejam puros, desprovidos de malícia como as crianças para que a experiência do Reino aconteça. O texto termina com Jesus abençoando as crianças, isto é, dando a elas a dignidade e a atenção que, provavelmente, não recebiam na sociedade e, talvez, nem na própria família. 

José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br